A palavra “interdisciplinar” diz respeito ao que pode ser comum a duas ou a mais disciplinas. “É quando o conteúdo de uma disciplina pode ser interligado com o de outra que também compõe o currículo escolar”, define a coordenadora do curso de Pedagogia da Universidade Veiga de Almeida (UVA), Viviani Anaya.

Segundo a especialista, o principal benefício da interdisciplinaridade é auxiliar os alunos a entenderem que diferentes conhecimentos aparecem nos problemas e desafios do cotidiano de forma interligada. “Não é um conhecimento estanque: o aluno pode fazer uso em diversas áreas da vida. Existe horizontalidade: o que é trabalhado em português pode ser discutido em artes, história, geografia, de modo que o aluno passa a ver mais sentido naquilo que aprende”, destaca a professora. Ela acredita que ao final os alunos exploram mais e se tornam mais autônomos, críticos e protagonistas do aprendizado.

Os professores, porém, precisam estar abertos para pensarem e construírem aulas em conjunto. “Muitas vezes, a escola desenvolve projetos que denomina “interdisciplinares” apenas pelo fato de envolverem diversas disciplinas. Mas, se mantenho isolada minha área, não há trabalho interdisciplinar, mas sobreposição de disciplinas”, diz a pedagoga.

Integração

Outra orientação é não “demarcar” as áreas para os alunos. “Há interdisciplinaridade, por exemplo, quando, em uma aula de História sobre populações indígenas, menciono geograficamente onde determinadas etnias se localizam sem comentar que agora estou me referindo a um conhecimento do campo da geografia. Ou quando, nesta ou em outra aula de história, apresento peças da cultura indígena sem ressaltar que se trata de algo trabalhado em artes”, ilustra.

Vale ainda não hierarquizar as áreas do conhecimento. ‘Quando falamos de educação global, todas as áreas são importantes e contribuem para a formação do aluno”, alerta Anaya. “Ao fazer um projeto interdisciplinar, é preciso deixar de lado a vaidade e entender que todas as áreas têm o mesmo grau de importância”, conclui.

A seguir, confira 10 projetos realizados por professores em escolas públicas que integram diferentes saberes a partir de um tema em comum.

História + matemática

Temas da antiguidade ajudam professores a aliar história e matemática em projeto interdisciplinar
A professora de história Vitória Azevedo e a docente de matemática Ana Maria Reis optaram pelo tema “democracia” para um projeto com o 1º ano do ensino médio de uma escola da rede estadual de São Paulo. Em história, a temática foi relacionada aos sistemas democráticos da Grécia e Roma Antigas – tópicos presentes no currículo do estado para aquela etapa de ensino. Já a docente de matemática trabalhou estatística, a partir de uma pesquisa de opinião realizada na escola.

Matemática + educação ambiental

Matemática aliada à educação ambiental estimula reflexão dos alunos sobre consumo
O projeto aplicado no 5º ano do ensino fundamental de uma escola pública do interior de São Paulo (SP) usou conceitos matemáticos para interpretar o consumo de água. “Trabalhei grandezas e medidas, abordando massa; capacidade e volume; transformação de unidades, como litro em mililitro; entre outros”, lista a professora da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) Ana Carolina Faustino.

Matemática + música

Música ajuda a contextualizar aprendizagem de matemática na educação básica
O matemático, músico e mestre em educação pela Universidade de São Paulo (USP) Fernando Barnabé inspirou-se na experiência de Pitágoras com o monocórdio, um instrumento de madeira com uma única corda, para explicar frações.

Biologia + química

Ensino interdisciplinar de biologia e química amplia compreensão dos alunos sobre questões do cotidiano
Segundo a bióloga e professora da rede estadual de São Paulo (SP) Mayra Deltreggia Trinca, uma forma de unir essas duas áreas do conhecimento é estudar os modelos de membranas celulares. O trabalho pode ser avaliado pelos aspectos biológicos do funcionamento dessa membrana e os aspectos químicos da organização e funcionamento dessas moléculas. Para aplicar a teoria, professores sugerem três temas atuais: o rompimento da Barragem de Brumadinho (MG), aquecimento global e digestão.

Biologia + geografia

Biologia com geografia: abordagem interdisciplinar pode tratar do ciclo da água e impacto das enchentes
O professor e coordenador do cursinho Avante, de Piracicaba (SP), Rhaian de Souza e a bióloga Lorena Souza Castro indicam tratar o ciclo da água de forma interdisciplinar. No âmbito geográfico, é possível tratar as massas de ar e fenômenos como El Niño e La Niña. Pela biologia, é possível abordar a formação da água e os tipos de seres vivos que contribuem com sua evaporação.

Literatura + ciências

Poesia pode ser recurso didático para aulas de ciências
A professora do departamento de química da Universidade Federal do Paraná (UFPR) Camila Silveira da Silva indica abordar as estruturas e funções dos órgãos humanos pelos poemas “Mapa de anatomia: O Olho”, de Cecilia Meireles; e “A Ideia”, de Augusto dos Anjos. Já em física, as estruturas atômicas podem ser exploradas com “A onda”, de Manuel Bandeira, “O espaço”, de Ferreira Gullar e “A bomba atômica”, de Vinícius de Moraes.

Física + química

Física e química explicam relação entre velocidade dos automóveis e aumento do efeito estufa
Neste podcast, a doutora em física Viviane Alves e a mestre em bioquímica Soraia Ferini Namora exemplificam a relação entre velocidade dos automóveis e emissão de gases. Além de uma experiência simples, a ser reproduzida em sala de aula, elas indicam demonstrar as consequências do desequilíbrio no efeito estufa.

Matemática + artes

Uso do teatro no ensino de matemática combina teoria com narrativa envolvente
“Progressão aritmética e lógica podem ser trabalhadas em trama de mistério”, sugere a pesquisadora Andrea Gonçalves Poligicchio. Ela destaca que o teatro trabalha a imaginação e a fantasia, que estão diretamente ligadas à abstração. E essa capacidade pode deixar mais acessíveis conteúdos matemáticos tidos como difíceis.

Química + artes

Química e artes: tintas, corantes e jogos de tabuleiro são opções para projetos interdisciplinares
A doutoranda em educação em ciências e professora da educação básica Michele Tamara Reis sugere o estudo da temática “tintas” para trabalhar a dupla de disciplinas. Em química, são apresentadas funções orgânicas, grupos funcionais, nomenclatura de compostos, compostos orgânicos e inorgânicos, solubilidade, reações químicas e polímeros. “Já em artes, é possível abordar cores, nuances, texturas, pinturas e obras famosas”, completa.

Química + artes (teatro)

Teatro é redescoberto como ferramenta de ensino e aprendizagem de física
Autor de uma dissertação de mestrado sobre o ensino de ciências por meio do teatro, o professor de física Márcio Nasser Medina troca, desde 2007, o livro didático pela montagem da peça “A Vida de Galileu”, de Bertolt Brecht.

Veja mais:

Qual é a diferença entre multidisciplinaridade, interdisciplinaridade e transdisciplinaridade?

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