“O espaço / entre o núcleo / do átomo e os eléctrons / nada tem a ver com o espaço / entre o sol e os planetas”. O trecho, extraído do poema “O Espaço”, de Ferreira Gullar, é um dos exemplos de que a literatura e as ciências podem caminhar juntas em prol de uma aprendizagem interdisciplinar.

“A poesia trabalhada em aulas da matéria possibilita a ampliação do repertório científico e cultural dos estudantes”, defende a professora do departamento de química da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Camila Silveira da Silva. “Seja aprimorando a leitura e interpretação de texto, colaborando com a compreensão do conteúdo, contextualizando temas da ciência e tecnologia na sociedade ou ressignificando conceitos científicos”, complementa.

A docente tanto recomenda quanto utiliza a poesia como recurso didático nos cursos de formação de professores que ministra, principalmente para conteúdos curriculares do campo das ciências da natureza, como química, física, biologia e geociências.

Em biologia, para abordar as estruturas e funções dos órgãos humanos, a professora indica os poemas “Mapa de anatomia: O Olho”, de Cecilia Meireles; e “A Idéia”, de Augusto dos Anjos.

Já em física, as estruturas atômicas podem ser exploradas com “A onda”, de Manuel Bandeira, “O espaço”, de Ferreira Gullar e “A bomba atômica”, de Vinícius de Moraes.

Estrelas, planetas e galáxias são temas da astronomia bastante explorado por poetas em geral. Bons exemplos são “Satélite”, de Manuel Bandeira e “Lua-Luar”, de Cora Coralina. “Entra lua poesia / antes dos astronautas / Gagarin da terra azul / Apolo XI que primeiro passeou solo lunar / Lua que comanda os mares”, versou a poeta.

Mestranda em biodiversidade neotropical, a professora Géssyca Fernanda da Silva costuma utilizar o poema “Os Homens”, de Pablo Neruda, para falar sobre composição das matérias no âmbito da química e da biologia.

“Nos versos, é realizada uma analogia de como o homem foi feito, levando em consideração os processos biológicos e os elementos químicos necessários para a formação do indivíduo”, explica.

“Na química, o texto fala sobre mineral, argila, oxigênio e enxofre. Já na Biologia, Neruda destaca temas como pedras, atmosfera, flores e raízes”, acrescenta.

Compartilhando impressões

Para usar os poemas em sala de aula, Camila orienta, primeiramente, abordar o contexto de escrita do texto escolhido. “Partilhar a biografia do poeta com os alunos e, depois, fazer uma roda de conversa para expormos nossas diferentes impressões e interpretações dos versos.”

O trabalho lúdico também pode incluir o uso de recursos tecnológicos, para pesquisar “pistas” deixadas nos versos. “Também pode haver a realização de gincanas, recortes e colagens com versos e imagens e experimentação no laboratório”, conta.

Já Géssyca aconselha estimular os alunos a identificarem itens que já foram abordados do conteúdo. “Pode-se também pedir aos estudantes para explicarem qual a analogia que eles encontraram nessas terminologias no poema com os temas abordados em sala de aula”, assinala.

Veja mais:
6 planos de aula para trabalhar poesia e poema com os alunos
Poesia de Pablo Neruda pode ser utilizada no fundamental I e II

Crédito da imagem: monkeybusinessimages – iStock

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