Os discursos e ações de jovens ativistas brasileiros podem ser utilizados para abordar conteúdos de educação ambiental e melhorar o engajamento dos estudantes em questões ecológicas, como aponta a doutora em botânica e professora de biologia Tahysa Mota Macedo.

“Jovens ativistas servem de exemplo e inspiração para estudantes que, muitas vezes, pensam que não podem ser ouvidos ou que nunca refletiram sobre o seu poder de influência nas questões ambientais”, justifica.

“Ao observar os ativistas, os alunos podem buscar informações sobre o tema, sobre como se envolver em ações existentes e até iniciar atuações locais”, acrescenta.

A professora do Instituto Federal de São Paulo (IFSP) e membro do Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA) Fernanda Tiberio tem opinião semelhante à da doutora em ecologia. “Por uma questão de abordagem e linguagem, os discursos dos jovens ativistas podem ajudar a aproximar os alunos de temas ambientais”, afirma.

Para Macedo, merecem especial destaque os discursos de jovens ativistas indígenas, negros e das periferias brasileiras. “Eles ganharam notoriedade internacional devido às ações concretas em suas comunidades, com discurso embasado e sólido. Estudantes de populações marginalizadas podem se verem nesses ativistas e perceberem que é possível serem ouvidos quando há conhecimento para discutir o tema com profundidade”, analisa.

Furando a bolha

Tibério lembra que há dificuldades em engajar alunos em questões ambientais. “Elas são complexas porque abordam simultaneamente consumo, economia, modelos de desenvolvimento, políticas públicas, entre outras questões. Isso já provoca medo, paralisia e desesperança em adultos, quem dirá em jovens”, pontua.

Para Macedo, o exemplo de militância de jovens ativistas pode justamente ajudar a trazer mobilização. “O estudante percebe que também pode desempenhar um papel de transformação socioambiental no local onde vive e impactar pessoas à sua volta”, destaca.

Para envolver estudantes no debate de questões climáticas, Macedo indica apresentar as visões dos ativistas brasileiros envolvendo desmatamento na Amazônia, aridez no Nordeste e aumento dos impactos sociais em decorrência do aquecimento global. “Eles podem entender que as transformações começam nas pessoas, que onde eles vivem são locais de tomada de decisões”, adiciona.

Simulando a COP

Na hora de trazer o tema para a sala de aula, Tibério sugere usar vídeos de entrevistas e discursos de jovens ativistas brasileiros para introduzir conteúdos de educação ambiental que serão posteriormente trabalhados.

Já Macedo relata usar os discursos e apresentações deles na Conferência das Partes (COP), órgão da Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC), para trabalhar ecologia com o ensino médio.

“Ao estudar os ciclos biogeoquímicos, os problemas ambientais e os biomas, eu apresento aos alunos conferências do clima passadas, o site das Nações Unidas e as ações e reivindicações dos jovens na COP 26”, compartilha Macedo.

Uma opção de atividade é simular uma convenção sobre clima. “Em grupo, os alunos pesquisam as resoluções de conferências passadas e os principais problemas ambientais dos biomas brasileiros. A partir disso, criam vídeos simulando entrevistas, discursos ou leitura de um relatório de uma conferência climática, apresentando reivindicações e soluções para os problemas”, completa. “Assim, podem investigar, refletir e elaborar soluções sobre as questões ambientais do nosso país”, resume Macedo.

Ela também sugere utilizar os vídeos dos jovens ativistas para complementar reportagens das grandes mídias. “Isso porque a imprensa não costuma noticiar ações ou falas de ativistas ambientais brasileiros”, explica.

Ativistas para conhecer

Conheça abaixo vídeos de sete jovens ativistas brasileiras de diferentes regiões e movimentos pelo clima para apresentar aos alunos. A lista foi realizada pela pedagoga Karina Spalla e pela coordenadora pedagógica do Instituto Claro, Aline Monge.

“Em comum, são ativistas que começaram a aparecer na mídia discutindo problemas reais, que fazem parte de sua rotina, a participar de movimentos e a influenciar outros jovens”, destaca Monge.

Txai Suruí

Foi a primeira indígena a discursar em uma conferência do clima da ONU, na COP26 em Glasgow, em 2021. Aos 26 anos, ela é fundadora e coordenadora do Movimento da Juventude Indígena de Rondônia, que defende a demarcação de terras e os direitos dos povos originários. Foi reconhecida pela revista Forbes como uma das personalidades brasileiras mais influentes com menos de 30 anos na categoria “Empreendedorismo social e terceiro setor”. Txai foi entrevistada pelo programa Roda-Viva em 2021.

Amanda Costa

Ativista climática e fundadora do Perifa Sustentável, atua como jovem embaixadora da ONU e foi delegada do Brasil no G20 Youth Summit. Em 2021, Amanda foi incluída na lista #Under30 da revista Forbes. No TEDxMorroDaUrca, ela discursou sobre racismo ambiental.

Mikaelle Farias

Jovem negra paraibana, ela estuda engenharias de energias renováveis na Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e atua em instituições nacionais e internacionais pela justiça climática. Entre elas, a Fridays for Future, que também conta com a ativista Greta Thunberg, e o Nordeste pelo Clima. Recentemente, foi delegada da UK Youth Climate Coalizion e da Foundation for Economics of Sustainability Ireland na Conferência da ONU, COP26 e COP27. No TEDxJoaoPessoa, Mikaelle Farias falou sobre ativismo e justiça Climática.

Samela Sateré Mawé

Ativista de 27 anos, cresceu envolvida com a Associação de Mulheres Indígenas Sateré Mawé, no estado do Amazonas. A organização promove o artesanato das mulheres e o protagonismo político dessas líderes. Atualmente, é membro do Fridays for Future.

Jahzara Ona

É ativista socioambiental e moradora do Jardim Pantanal, periferia da zona leste de São Paulo (SP). Atualmente, atua como membro do Meninas do Brasil SP e é embaixadora do Folhas que Salvam, além de ter representado o Brasil na COP 27. No vídeo, ela aborda a crise climática e suas consequências na periferia.

Amanda de Souza

A ativista de 21 anos representou o Brasil na Assembleia das Nações Unidas para o Meio Ambiente (UNEA6), em Nairobi. Em vídeo para a ONU, ela compartilha o que a motivou a se tornar ativista ambiental e como o impacto dos eventos climáticos extremos afetou sua família no Brasil.

Marina Guião

Ativista de Volta Redonda (RJ), Guião tem 19 anos e é membro da Rede de Jovens do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (YOUNGO/UNFCC). Em vídeo para as Nações Unidas, discutiu a participação dos jovens contra as mudanças climáticas.

Veja mais:

9 canções para ensinar conteúdos de educação ambiental

Livro inspirado em Greta Thunberg busca estimular crianças a lutar contra crise climática

Plano de Aula – Mudanças climáticas: para entender e informar

Como trabalhar as mudanças climáticas de forma interdisciplinar?

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Crédito da imagem: FG Trade – Getty Images

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