Em março de 2022 foram noticiados pelo menos três casos de alunos esfaqueados por colegas de classe em escolas de educação básica de São Paulo (SP), Distrito Federal (DF) e Porto Seguro (BH). As situações reacenderem o debate sobre as causas da violência em ambiente escolar e o que professores e gestores podem fazer para prevenir e lidar com conflitos antes que eles se tornem ainda mais graves.

A seguir, listamos 10 iniciativas que podem ser aplicadas em escolas públicas visando fomentar diálogo, empatia e cultura de paz.

Mediação de conflitos

O docente coordena reuniões conjuntas ou separadas com os envolvidos em conflitos para construir, com eles, uma solução. Para isso, é necessário se manter imparcial e não julgar. “Não cabe ao mediador impor ou sugerir um desfecho, mas facilitar a comunicação”, acrescenta o professor e mediador da Secretaria de Educação do Distrito Federal (DF) Fabiano Pereira Corrêa Sämy.

Aplicar cultura de paz

Coordenador do Núcleo de Estudos e Formação de Professores em Educação para a Paz e Convivências (NEP), da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), Nei Alberto Salles Filho explica que a cultura de paz abriga cinco campos: valores humanos; educação para direitos humanos; mediações de conflito e práticas restaurativas; questões ligadas ao meio ambiente e convivências escolares. “Caso contrário, corre o risco da escola apenas chamar os alunos para desenhar pombinhas, cantar uma música ou dar um abraço coletivo no prédio, como se a paz já se instaurasse imediatamente a partir daí. O que não é verdade”, pondera.

Comunicação não violenta (CNV)

É uma prática desenvolvida pelo psicólogo estadunidense Marshall Bertram Rosenberg para que as pessoas se relacionem de forma clara e satisfatória. “A CNV abandona o universo do certo e errado, bom e ruim, concordo e discordo, para praticar a empatia e tentar entender o universo de cada pessoa”, resume a psicóloga e formadora de professores Lúcia Nabão.

Leia também: Violência física contra professor nasce de outras formas de agressão, afirma especialista

Incentivo à afetividade

“Há na violência a necessidade de rebaixamento do outro, de menosprezá-lo e de tirar a sua liberdade. Para o agressor, essa violência está relacionada a buscar uma boa imagem de si diante dos outros. Uma necessidade de se sentir pertencente e importante nesse meio. Além disso, o que leva esses meninos e meninas a serem intimidadores é que eles não têm sentimentos de vergonha e culpa integrados à sua identidade”, analisa a coordenadora do Grupo de Estudos e Pesquisa em Educação Moral (GEPEM- Unesp/Unicamp), Luciene Regina Paulino Tognetta.

Grupos de ajuda formados por estudantes

Formar alunos para identificar casos de bullying é eficiente na prevenção e tratamento de violências. “Isso porque são eles que estão nos intervalos, nos banheiros e em outros locais que os adultos não têm acesso. Eles que sabem quem foi excluído de uma festa ou quem está sofrendo alguma agressão nas redes sociais”, justifica a mestra em educação escolar e membro do Gepem de Campinas Darlene Ferraz Knoener.

Gestão democrática

A socióloga da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso) Miram Abramovay afirma que as escolas mais violentas são aquelas onde há pouca participação dos alunos na dinâmica escolar. “A participação melhora os relacionamentos entre professores, gestão, alunos e funcionários”, pontua.

Um exemplo de melhoras ocorreu na EMEF João Ramos Pernambuco Abolicionista, de São Paulo (SP), que desde 2013 promove assembleias com os estudantes para discutir problemas que vão do bullying à merenda.

Incentivar que alunos não sejam indiferentes ao bullying

“No bullying, 85% dos alunos presentes se comportam fingindo não ver; retraindo-se ou aderindo ao grupo dos ‘valentões’, para não se converterem em vítimas. Há, ainda, aqueles que incentivam e se divertem com o sofrimento alheio”, relata o pedagogo e doutor em enfermagem pela Universidade de São Paulo (USP-Ribeirão Preto) Cláudio Romualdo. Como nem sempre o bullying ocorre na frente do professor, são os alunos os mais aptos a identificar a situação entre seus colegas. “Quando eles defendem a vítima, as intimidações na escola tendem a diminuir”, ressalta o pesquisador.

Jogos cooperativos

As aulas de educação física são um dos principais momentos em que o bullying entre os alunos pode se manifestar, segundo pesquisa da professora do programa de doutorado em educação física da Universidade Católica de Brasília (UCB) Carmen Campbell. Para ela, jogos cooperativos previnem o problema. “Os jogadores são instruídos a cooperar e ajudar uns aos outros para atingir um objetivo comum, promovendo, assim, cooperação, integração, inclusão, aceitação, parcerias, respeito às diferenças e o desenvolvimento de vínculos afetivos e sociais”, lista.

Educação para direitos humanos

Coordenadora de educação do Instituto Vladimir Herzog, Neide Nogueira explica a abordagem do projeto “Respeitar é Preciso!”, que oferece formação para professores da rede municipal de São Paulo em direitos humanos. “O maior desafio para educar em direitos humanos é que se trata de valores e atitudes, não apenas aprendizagem de conhecimentos”, aponta.

Orientações da Defensoria Pública

“Defensoria Pública: Cumprindo seu papel na Educação – Dialogando sobre prevenção e conflitos na escola” é um manual da Defensoria Pública do Rio de Janeiro (RJ) que pode servir de referência para educadores das escolas estaduais e municipais. O material foi preparado em linguagem simples, em forma de perguntas e respostas, visando a esclarecer algumas dúvidas comuns aos diretores e professores sobre diferentes situações de agressões, abusos e maus tratos envolvendo crianças e adolescentes.

Veja mais:

Gordofobia na escola: preconceito ainda é naturalizado por professores e alunos

Qual é o papel de um assistente social na educação?

Desenhos de alunos podem ajudar a identificar casos de violência e abusos

0 Comentários
Inline Feedbacks
View all comments

Talvez Você Também Goste

Notícias

4 livros que abordam a relação do fascismo com os tempos atuais

Obras analisam o passado para entender as semelhanças e diferenças com o presente

há 3 semanas
Notícias

10 tirinhas para trabalhar conteúdos na escola de maneira criativa

Personagens ajudam a ensinar história, geografia, biologia, habilidades socioemocionais e a discutir temas sociais relevantes

há 4 semanas
Notícias

6 planos de aula para ensinar gêneros textuais

Objetivo é familiarizar aluno com uso e função de diferentes textos que circulam na sociedade

há 2 meses
Notícias

6 livros para trabalhar hábitos de higiene com alunos

Conteúdo previsto nos anos iniciais do ensino fundamental pode ser abordado de forma lúdica

há 2 meses

Receba NossasNovidades

Receba NossasNovidades

Assine gratuitamente a nossa newsletter e receba todas as novidades sobre os projetos e ações do Instituto Claro.