Estimular a igualdade de gênero é o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 5 da Organização das Nações Unidas (ONU) – compromisso assinado pelo Brasil. Por estar inserida em uma estrutura social que é machista, porém, a escola não está imune de reproduzir preconceitos e apagamentos relacionados a mulheres nas suas situações cotidianas, como na organização dos alunos nas classes e atividades, na linguagem utilizada, nas brincadeiras propostas ou mesmo ao não estimular alunas a explorarem áreas de conhecimentos tidas como “masculinas” ”, caso das ciências exatas e tecnologia.

Em contrapartida, quando professores e gestão desenvolvem um olhar atento a essas reproduções e escuta sobre os conteúdos trazidos pelos alunos, é possível reverter esse quadro por meio de mudanças simples. “Se é na escola que discentes podem ter contato com diálogos, discussões e compreensões sobre diversos assuntos científicos e do cotidiano, é nesse mesmo espaço que eles podem dialogar sobre igualdade de gênero, tema que perpassa o dia a dia deles e todas as disciplinas”, explica a professora da pós-graduação em educação da Universidade Estadual de Maringá (UEM) Eliane Maio.

“A educação pode ser emancipatória e não sexista desde a educação infantil. Para isso, profissionais que atuam neste nível de ensino – e que são majoritariamente mulheres — podem refletir se não estão ressaltando diferenças entre meninos e meninas nas atividades e propostas curriculares”, acrescenta ela, que é pesquisadora de educação em sexualidade.

Leia também: 7 livros para inspirar o empoderamento feminino em estudantes

Eliane Maio e Elizabeth Esplendor participaram de uma formação no Colégio Estadual Tomaz Édson de Andrade, em Maringá (PR), e refletiram com os demais professores sobre mudanças possíveis naquele ambiente escolar para promover a igualdade de gênero, experiência relatada em artigo.

A seguir, a pesquisadora compartilha 17 iniciativas simples que podem inspirar outras escolas. Confira!

1) Não separar meninos e meninas na hora de compor filas de alunos, transformando-as em filas heterogêneas;

2) Misturar meninos e meninas na hora de distribuir os alunos no mapa da sala de aula;

3) Não chamar a atenção das alunas sobre modos e maneiras de sentar, falar ou se comportar que seriam exclusivamente “de meninas”;

4) Nas aulas, formar duplas, trios e demais equipes de trabalho que sejam mistas;

5) Identificar a placa da sala dos professores com linguagem que não se apoie no masculino como norma, optando por uma linguagem inclusiva e que dê visibilidade para a presença feminina.

Alternativas são utilizar “sala de professoras e professores” ou “sala docente”;

6) Priorizar chamar os alunos e alunas nas chamadas por seus respectivos nomes e não usar números.

Isso evita, por exemplo, com que o aluno 24 – número associado pelo machismo a pessoas LGBTQIA+ – receba comentários preconceitos. E quando isso ocorrer, a homofobia não deve ser ignorada e, sim, discutida com a classe;

7) Em reuniões, não utilizar o masculino como regra e optar por uma linguagem inclusiva que evidencie a presença feminina nos espaços.

Um exemplo é chamar os presentes pelos dois gêneros, como “alunas e alunos”; “professoras e professores”;

8) Avaliar se as músicas tocadas na escola fazem discriminação de gênero e orientação sexual, se objetificam a mulher ou se possuem conteúdos sexistas ;

9) Nas aulas de educação física, é possível compor times mistos e incentivar as meninas a ocuparem espaços;

10) Vale notar se as próprias professoras de educação física são vítimas de preconceito por parte de alunos e gestão.

No primeiro caso, estudantes podem desrespeitá-las quando elas ensinam conteúdos tidos como masculinos, caso do futebol. No segundo, avaliar se professores homens são priorizados a assumirem aulas no ensino médio, reservando as professoras de educação física às classes infantis ou ao desenvolvimento de atividades de recreação, como criação de coreografias;

11) Notar se as brincadeiras e brinquedos utilizadas na escola também reforçam desigualdades de gênero.

Por exemplo, se carrinhos, lutas e brincadeiras de exploração são indicados aos meninos, reservando às alunas atividades quietas, passivas e restritas a bonecas;

12) Notar se os alunos do gênero masculino praticam entre si brincadeiras violentas, problematizando com eles estereótipos do que é ser homem e masculinidade tóxica;

13) Não recriminar se um aluno brincar com as meninas ou com atividades socialmente atribuídas ao gênero feminino, como bonecas e de tarefas domésticas.

“Ele pode aprender o papel de ser pai ou de ser colaborativo com a sua família”, exemplificam as autoras no artigo;

14) Atentar se os livros didáticos reforçam estereótipos de gênero, como imagens de mulheres em atividades domésticas e homens em atividades de prestígio;

15) Problematizar materiais paradidáticos que reforçam estereótipos de gênero;

É o caso dos que mostram mulheres passivas que precisam ser salvas ou que sofrem violências de seus parceiros. Por exemplo, contos como “Branca de Neve”, “A bela e a fera” e “A bela adormecida”, etc.;

16) Nos debates que acontecerem nos espaços escolares, checar se meninos e meninas falam na mesma proporção e se meninas são interrompidas ou silenciadas.

Nesses casos, vale explicar aos alunos, por exemplo, o que é manterrupting.

17) Ter um canal de denúncia para as meninas;

Ele pode ser usado em caso de importunação sexual, misoginia, abuso, assédio, entre outros, por parte de parentes, outros alunos ou mesmo professores e funcionários.

Veja mais:

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