Ao contrário de idiomas que possuem gênero neutro ou ausente em substantivos, a língua portuguesa se apoia no masculino genérico como referência. É o caso, por exemplo, quando falamos “professores”, “diretores” e “senadores” para destacar uma determinada ocupação, ou quando saudamos “a todos” na abertura de uma solenidade. O que predomina é o gênero masculino para referenciar um grupo de pessoas que contém tanto homens como mulheres.

Apesar de gramaticalmente correto, o masculino genérico é discutido por pesquisadores do nosso idioma como uma manifestação de sexismo e machismo, que consequentemente invisibiliza a presença de mulheres nos espaços da sociedade. Um desses estudiosos é o jornalista, fundador e diretor do Festival MixBrasil, André Fischer.

Com passagem por diferentes veículos da grande imprensa nas últimas décadas, Fischer defende uma linguagem inclusiva, que substitui o masculino genérico por termos e construções gramaticais já disponíveis na língua portuguesa. Uma dica prática, por exemplo, é trocar “eles” por “pessoas” ou “quem”.

“Assim, a frase ‘recomendamos para aqueles que têm problemas respiratórios’ se transformaria em ‘recomendamos para quem tem problema respiratório’”, pontua.

Outro diferencial é que a linguagem inclusiva não se restringe aos marcadores de gênero. “Ela também visa boas escolhas de palavras que não sejam agressivas a pessoas negras, LGBTI+, com deficiência e demais populações vulneráveis”, contextualiza.

Para quem deseja praticar um discurso que contemple todos os gêneros no dia a dia, Fischer oferece dicas valiosas no e-book gratuito “Manual Prático de Linguagem Inclusiva”. Uma segunda edição do material, agora revisada e incluindo marcadores para outros grupos sociais, está programada para dezembro de 2020. Em entrevista, ele destaca os benefícios de exercitar uma comunicação que não exclua e o porquê isso é tão importante nos dias atuais.

Qual a diferença da chamada linguagem neutra para a sua proposta de linguagem inclusiva?

André Fischer: A primeira é um movimento para criar um gênero neutro dentro do idioma. Ou seja, apaga o gênero de algumas palavras, substituindo-o por “ x”, “@” ou “e”. Alguns exemplos são “todxs”, “tod@s” e “todes”. Já a linguagem inclusiva que proponho minimiza a marcação do gênero masculino utilizando a própria norma vigente no português, sem precisar criar outra.

Para isso, basta substituir palavras ou buscar outras formas de se expressar. Para completar, a linguagem inclusiva não foca somente nos marcadores de gênero, mas também em palavras e estruturas que não sejam agressivas a pessoas negras, LGBTI+, com deficiência e demais grupos vulneráveis.

Quais são exemplos do uso da linguagem inclusiva quando se trata de gênero?

Fischer: Você pode dizer “Senado” ao invés de “os senadores”. Ao optar por destacar a instituição, você não reforça que são homens. Pode falar “vou enviar” ao invés de “vou enviar para eles”, quando não sabe exatamente quem são as pessoas do destino. Opte, ainda, por “humanidade” ao invés de “o homem”. Às vezes apenas excluir um pronome ou mudar um tempo verbal – como escolher um gerúndio ou infinitivo – também ajuda a incluir. De todo o modo, você não priorizará um grupo [masculino] a partir da invisibilidade de outro [feminino] durante uma comunicação.

Por que a linguagem inclusiva se faz necessária?

Fischer: Por uma questão de cidadania. A linguagem que usamos reflete uma sociedade que não promove a inclusão de vários grupos que, na verdade, juntos representam a maioria da população. Caso das mulheres, pessoas negras e LGBTI+. Quando opta pelo masculino genérico como referência, você diminui e apaga esses segmentos, assim como reforça um contexto que é patriarcal.

Em quais locais ela pode ser utilizada?

Fischer: Em absolutamente todos os lugares do dia a dia. Como você usa a própria norma da língua portuguesa, sem precisar “criar” gêneros novos, por exemplo o caso de criar “amigue”, pois ela está pronta para utilização. Para isso, sugiro começar praticando na escrita, porque é mais fácil tomar cuidado, atentar-se ao que se escreve e escolher as palavras do que quando se está conversando. A escrita é um bom exercício inicial também porque possibilita correções e tempo para pensar novas alternativas para se expressar. Quando sentir segurança, é possível avançar para a fala e outras formas de comunicação.

Por que o uso de “x” (amigx), “@” (amig@) e “e” (amigue) não são realmente inclusivos?

Fischer: Já é bastante discutido que o “x” e o “@” atrapalham os softwares de leitura de conteúdos para pessoas cegas. E nos três casos que menciona pessoas disléxicas em processo de alfabetização ficarão de fora. O resultado é que, na tentativa de mudar o masculino genérico para incluir, você acaba excluindo outras populações. Também não há consenso sobre os pronomes a serem usados no caso do “e”, como em “amigue”. Seria um, uma ou “ume” amigue? E se usarmos pronome possessivo, utilizarei meu, minha ou “me amigue”? Em suma, a linguagem neutra não se sustenta em mais de duas frases, porque exigiria uma nova gramática para funcionar. Como resultado, gera mais dificuldades e complicações.

Ainda assim, é recomendado usar o “e” em alguma situação social específica?

Fischer: O “e” é um artifício que pontua, em um começo de discurso, que a sua intenção é abranger e acolher todas e todos. Assim, sugiro que o utilize somente em saudações, como, por exemplo, “bem-vindes a todes”. Eu já utilizei bastante o “e” nessas circunstâncias, mas, atualmente, opto por “dar as boas vindas”, ou digo “boa noite a todo mundo”.

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