“Humor negro”, “inveja branca”, “lista negra”, “ovelha negra”, “denegrir”, “a coisa tá preta” e “da cor do pecado”. Essas são só algumas palavras e expressões da língua portuguesa que utilizam o adjetivo “preto” de forma pejorativa, na mesma medida que elevam o branco a sinônimo de bom e belo.

Somam-se a elas outros termos populares relacionados ao período escravocrata, como “mulata”, que remeteria ao animal que se origina do cruzamento da égua com jumento; “eu não sou suas negas”, quando escravas eram propriedade de homens brancos;  e “amanhã é dia de branco”, sobre a responsabilidade do senhor em colocar escravos para trabalhar às segundas-feiras, após a folga no domingo para irem à missa.

A origem da dualidade entre branco e preto – também vista em outros idiomas – é cultural e está vinculada à ascensão do Cristianismo, como aponta a doutora em comunicação e professora universitária, Kelly Quirino.

“Historicamente, a adjetivação do preto ou negro com algo relacionado às trevas vem do Velho Testamento, no qual a pureza e o angelical também são vinculados ao símbolo branco”, descreve.

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“É diferente da Grécia e outras civilizações antigas, nas quais bem e mal não eram apresentados de forma maniqueísta. Nestas, o homem é tido como ser complexo e que carrega em si ambos”, compara.

Segundo Quirino, a perspectiva bíblica foi utilizada para sustentar a colonização das Américas e justificar a escravidão do povo africano.

“A ideia era de que os povos negros eram malditos e impuros. Algo que reverbera até hoje, seja no preconceito contra as religiões afro-brasileiras ou na popularização dessas expressões que possuem marcadores raciais”, reforça.

Da língua à exclusão

Docente da pós-graduação em educação da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) Ana Cristina Juvenal da Cruz esclarece que o racismo também se manifesta pela linguagem.

“Quando dizemos que ele é estrutural, significa que permeia diversas dimensões da sociedade, incluindo o idioma. Este é central porque, por meio dele, expressamos nossa visão de mundo”, pontua.

Pesquisadora da educação e relações étnico-raciais, Cruz lembra que crianças negras são especialmente atingidas pelo racismo da língua.

“Há um impacto negativo no processo da sua formação, na forma como ela enxerga a si própria e os demais”, descreve.

Exemplo foi o Teste da Boneca, realizado pela primeira vez nos Estados Unidos, em 1946, e reproduzido por pesquisadores italianos 70 anos depois. Nele, crianças negras tinham que apontar, entre bonecas brancas e pretas, qual delas era “boa”, “bela”, “bruta” e “má”. Os adjetivos negativos foram relacionados ao brinquedo preto.

“A criança negra desenvolve um complexo de inferioridade e uma baixa autoestima por pertencer a um grupo que é considerado ruim, feio e sujo”, acrescenta Quirino.

Foi justamente na escola que a publicitaria Camila Pedroso, de 36 anos, ouviu as primeiras expressões racistas, que impactaram sua identidade naquele momento.

“Se você ouve sistematicamente que algo é ruim, você sente a necessidade de fazer algo para mudar”, explica.

Experiência similar a do aposentado Jorge Fonseca, de 57 anos, que ouvia ser “preto de alma branca” na infância. “Palavras que doíam e traziam vergonha. A partir da adolescência é que fui entender melhor e passei a revidar”, relembra.

Para a cantora e compositora Alldry Eloise, 34, a experiência com termos racistas no ambiente escolar só não foi pior por conta do apoio familiar.

“Minha mãe reforçava que eu descendia de reis e rainhas e falava sobre a grandeza da nossa ancestralidade”, relembra.

“O fato é que adotar um novo vocabulário, que respeite nossas características, ajudaria as crianças negras a se aceitarem e as brancas a não serem racistas”, resume a publicitária.

Resistência a mudanças

Nem todas as pessoas brancas, contudo, mostram-se dispostas a rever o que falam. Justificativa comum é atribuir um sentido biológico à utilização do ‘branco’ como adjetivo positivo. Este seria vinculado à claridade do sol.

“A questão é que as palavras vão adquirindo novos significados ao longo da história. Duas dimensões de um mesmo termo – uma positiva e negativa – podem operar juntas e simultaneamente. Ainda assim, entender historicamente o que essas palavras significam e escolher não usá-las faz com que estereótipos e preconceitos não adquiram corpo na sociedade”, ensina Cruz.

Sobre essa disputa de narrativas, a especialista lembra o esforço do movimento de intelectuais e artistas negros em tentar “positivar” palavras e expressões racistas, garantindo novo significado ao que antes era pejorativo.

“Muitos dizem ‘a coisa tá preta’ quando algo bom é realizado por uma pessoa negra e há o slogan ‘Black is Beautiful’ – preto é lindo, na tradução”, compartilha.

Outro exemplo é a música e livro infantil “Amoras”, do rapper Emicida, que relata uma conversa do músico com sua filha. Durante o diálogo, ele diz à menina que as amoras, quanto mais pretas, mais doces são.

“‘Papai, que bom, porque eu sou pretinha também’“, conclui a menina na letra.

Idioma rico 

Para Quirino e Cruz, mudar o vocabulário exige empatia da pessoa branca em entender que, apesar de determinadas violências atingirem a todos, não o fazem de forma igual.

“Um homem branco terá experiências diferentes de uma mulher negra, mesmo vivendo na mesma cidade ou país. Por isso, a necessidade de ouvir o que o outro está dizendo”, lembra a educadora.

Ela também destaca a importância dos brancos na luta antirracista. “Há locais em que a voz do negro ainda não chega. Um racista, por exemplo, não ouvirá uma pessoa negra, mas pode escutar um interlocutor da mesma raça”, exemplifica.

“Por sua vez, a pessoa branca precisa saber que, se escolhe não ter atitudes antirracistas, provavelmente ela é racista”, ressalta Eloise.

Opções na língua portuguesa para substituir termos racistas, aliás, é o que não faltam.

“Nosso idioma é rico. ‘Denegrir’ pode ser substituído por ‘ofender’. ‘Dia de branco’ por ‘dia útil’. Conscientização que impactará não apenas a linguagem, mas também o cotidiano”, finaliza Quirino.

Crédito da imagem: LightFieldStudios – iStock

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