Leonardo Valle

O arte educador Marco Antônio Fera já sofreu três abordagens policiais enquanto abria o portão da própria casa. “Você passa por uma série de insultos verbais, assédio moral e abuso de autoridade. O último procedimento é pedirem seu documento de identidade”, descreve. “Costumo sentir medo porque não sei o que esperar: levarei um tiro? Serei preso? Quando acaba, fica uma sensação indigesta, de desproteção”, resume.

Ser perseguido pelo segurança do supermercado é algo recorrente para o ator André Lu. “Um dia, voltava do trabalho com fome e portava um guarda-chuva. Apenas pensar que os seguranças poderiam implicar comigo me deixou ansioso. Cheguei até a porta e não entrei”, revela.

Situações como essas ilustram o nível de estresse que pessoas negras precisam administrar por conta do racismo. O resultado impacta diretamente na saúde emocional.

“O racismo é intenso, contínuo, acontece toda a vida e se dá desde pequenas agressões, como humilhações e depreciações verbais, até macroagressões, como o genocídio da juventude negra”, exemplifica a psicóloga e professora da Universidade Federal do Reconcavo Bahiano (UFRB), Jeane Saskya Campos Tavares.

Depressão, ansiedade e estresse pós-traumático e crônico são algumas das consequências. “Esse último está associado ao desenvolvimento de doenças autoimunes, ao uso de álcool, drogas e outros comportamentos de risco à saúde, além de afetar a memória e o aprendizado”, acrescenta.

“A literatura aponta que o estresse é maior entre negros, assim como as chances de doenças como esquizofrenia”, pontua Tavares.

Estresse que Lu sente no corpo. “Saio na rua preparado para o que possa sofrer, por frequentar lugares aos quais não me sinto pertencente. Isso ativa um estado de alerta que é desgastante fisicamente, psicologicamente e dura até eu chegar em casa.”

Dados do Ministério da Saúde de 2019 apontam que o jovem negro tem maior risco de se suicidar. O racismo ainda provoca sentimentos de inadequação, timidez excessiva e baixa autoestima.

“Diante de uma sociedade racista e estruturada em ideais da branquitude, nos formamos sem referenciais do que é belo, especial, inteligente, amado, valorizado e apreciado socialmente”, contextualiza a psicóloga da Rede Dandaras, voltada à saúde da mulher negra, Rafaela Rodrigues.

Consequências distintas

Muitos são os reflexos do racismo estrutural no Brasil: negros são a grande maioria de encarcerados (Banco de Monitoramento de Prisões do Conselho Nacional de Justiça, 2019), desempregados (IBGE, 2019); e nos homicídios (Atlas da Violência, 2019) e mortes em abordagens policias (Anuário da Segurança Pública, 2019).

“Com isso, há um sofrimento acarretado pelo desprezo e violência sofridos, por ver o assassinato das pessoas que amamos ou pelo risco da morte a qualquer momento”, diz Tavares.

O nível de estresse e sofrimento psíquico, contudo, varia de acordo com outros fatores de exclusão, como coloração da pele, gênero e classe social.

“O racismo brasileiro é baseado no fenótipo. Quanto mais escura a cor da pele, mais exposição a violências raciais”, lembra Tavares. “O negro rico sofrerá racismo, mas diferente de quem vive na periferia. O mesmo vale se for gordo, trans ou de orientação sexual não hegemônica”, acrescenta.

Para o homem negro, o medo de ser morto pelo Estado é recorrente. “Tive uma tentativa de assalto feita por um homem branco e comecei a correr. Quando avistei uma viatura [de polícia], não sabia se parava e era assaltado, ou se continuava e tomava um tiro [dos policiais]. Podiam pensar que o assaltante era eu”, desabafa Lu, que optou por cessar o passo.

Segundo Rodrigues, em diversos indicadores sociais de renda e acesso a direitos, como o relatório da Organização das Nações Unidas de 2019 sobre os mais afetados pela falta de saneamento básico e a publicação “Uma análise das condições de vida da população brasileira (2019)”, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a mulher negra vem abaixo, respectivamente, do homem negro, da mulher e do homem brancos. “Se a sociedade fosse uma pirâmide, das pessoas com mais direitos, ela ocuparia a base da sociedade”, pontua a psicóloga.

Tal opressão acarreta sofrimento psíquico e se soma a outras vulnerabilidades como: maior risco de feminicídio, de ser vista como objeto sexual e de solidão, tanto no trabalho quando nos relacionamentos. “Em posições de destaque profissional, elas podem não encontrar pares, pois são lugares majoritariamente brancos”, afirma.

Sobre relacionamentos afetivos, a professora de história, Fabiane Rodrigues de Camargo, relembra situações de rejeição no colégio, onde era a única negra da sala.

“Todas as meninas já haviam beijado, menos eu. Na adolescência, era comum aquela situação de ‘fico com você, mas escondido’”, ilustra.

“Percebo que quanto maior a formação e estudos da negra, maior a dificuldade de encontrar um parceiro. Ela é preterida pelo homem negro sem acesso ao estudo, pelo que ascendeu socialmente, e pelo branco”, opina.

Terapeutas sensibilizados

Fera, Lu e Camargo viram na terapia a melhor forma de lidar com os impactos emocionais do racismo. Contudo, Tavares lembra que nem todos os psicólogos podem ser sensíveis ao tema.

“A maioria dos profissionais são brancos e interagem com seus pares. Temos somente agora a primeira geração de psicólogos negros, pós-política de cotas”, descreve.

Fera optou por uma psicóloga negra. “Penso que ela teria mecanismos e abordagens mais abrangentes, por também passar por isso. Ao pesquisar, vi que ela também lidava com outras questões que me interessavam, como masculinidades negras”, acrescenta.

“Todavia, precisamos convocar os profissionais brancos a esse saber, pois o racismo é um problema da sociedade. E como a psicologia é majoritariamente branca, é para onde as pessoas discriminadas racialmente serão dirigidas”, alerta Rodrigues.

As sessões podem trabalhar o desenvolvimento de uma identidade racial positiva [valorização da estética e cultura negra] e a importância dos laços comunitários.

“Porém, enquanto persistir o genocídio da população negra, não haverá reversão ou cura, apenas redução de danos”, lamenta Tavares.

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Crédito da imagem: fizkes – iStock

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