Leonardo Valle

Se você já se viu diante de um formulário, cartaz ou documento informativo impossível de compreender, saiba que não está sozinho. O uso de um discurso burocrático, principalmente em comunicações do governo, é comum em diversos países. Tal problema motivou a criação do movimento internacional chamado Linguagem Simples (“Plain Language”, traduzido do inglês), que pede que documentos oficiais sejam de fácil entendimento para a população.

“Há muitas formas de exclusão e uma delas é a social, causada pela linguagem. Se há uma informação que garantiria um direito e ela está escrita de forma difícil, o cidadão não a entenderá e isso causará prejuízos”, justifica a jornalista e fundadora da Comunica Simples, Heloísa Fischer. Ela é autora do livro “Clareza em textos de e-gov, uma questão de cidadania”.

Confira mais sobre o tema e como deve ser um documento escrito em linguagem simples na entrevista com a pesquisadora:

O que é a Linguagem Simples?

Heloísa Fischer: Um movimento social presente em muitos países pelo direito de entender as informações que orientam o cotidiano, divulgadas tanto pelo governo quanto por instituições privadas. Também é uma técnica de redação focada em evitar elementos complexos e que dificultem a leitura pela população. Ou seja, combater essa linguagem jurídica, burocratizada, com jargões técnicos, que aparece em diversos documentos oficiais e que a sociedade tende a considerar natural.

Por que documentos simplificados são importantes para a cidadania?

Fischer: Há muitas formas de exclusão e uma delas é a social, causada pela linguagem. Se há uma informação que garantiria um direito e ela está escrita de forma difícil, o cidadão não a entenderá e isso causará prejuízos. Em contrapartida, se o texto for fácil de ler, de compreender e permitir colocar as orientações trazidas em prática, essa pessoa acessará um direito com facilidade. O impacto social é grande, se pensarmos que cada documento ou site simplificado fará com que a informação chegue a milhares de pessoas corretamente. Além disso, a linguagem simples também facilita o trabalho da organização ao reduzir a necessidade de esclarecer dúvidas e ao agilizar processos.

Como surgiu o movimento no exterior?

Fischer: Já havia normativos para facilitar a linguagem do setor público de Nova York na década de 40.  Mas a expressão “Plain English” (inglês simples) foi consagrada por movimentos sociais no final dos anos 1970. O Reino Unido possuía formulários de seguros sociais de difícil compreensão, o que fez com que Chrissie Maher elaborasse um jornal para explicá-los. Como ela havia sido alfabetizada adulta, tinha empatia por quem não conseguia entender informações. Seu trabalho culminou em um movimento social chamado “Plain English Campaign” (Campanha Inglesa Simples) que fez o governo revisar, extinguir e simplificar milhares de documentos. Outros países viram nascer movimentos sociais semelhantes, com impactos em políticas públicas, como nos Estados Unidos, Suécia ou Canadá. Mais recentemente, o uso da linguagem simples pelo setor público vem crescendo em países latino-americanos como Colômbia, Chile e Argentina.

Para Heloísa Fischer, documento fácil de ler e de compreender facilita o acesso aos direitos (crédito: Leonardo Aversa)

 

Como você descobriu a linguagem simples?

Fischer: Durante as Olimpíadas de 2016, o Rio de Janeiro mudou completamente a mobilidade urbana. Linhas de ônibus receberam outros nomes e números, tiveram seus trajetos alterados ou foram extintas. Havia um cartaz da prefeitura informando as mudanças no meu ponto e eu fiquei mais de 10 minutos tentando entendê-lo, sem sucesso. Tanto que peguei o ônibus errado. Quis reclamar sobre aquilo e meu marido comentou do movimento “Plain English Campaign”, da Inglaterra, que era justamente sobre esse assunto. Fui pesquisá-lo e me assustou o fato dele ser presente em inúmeros países e, no Brasil, onde utilizamos uma linguagem burocrática, ser pouco discutido.

Quais são as características dos documentos oficiais em termos de linguagem?

Fischer: Esses informativos tendem a serem escritos com frases longas, em ordem indireta, usando palavras desconhecidas ou técnicas, com muita voz passiva e nominalizações. Além disso, a maioria dos documentos de instituições públicas e governamentais têm o objetivo de informar sobre uma tarefa que o cidadão deve realizar. Para isso, é necessário seguir uma sequência de procedimentos. O que acontece é que tais documentos geralmente não trazem as atividades na ordem que os procedimentos devem ser realizados, o que também confunde.

Como deve ser um documento escrito em linguagem simples?

Fischer: Deve possuir frases curtas, preferencialmente com até 20 palavras. As sentenças devem estar em ordem direta, com informações técnicas traduzidas e utilizando palavras que não sejam abstratas. As palavras também devem ser conhecidas pelo leitor. Por exemplo, durante a pandemia do coronavírus, muitos não entendiam termos como “assintomático” e “imunossuprimido”. Dessa forma, desconheciam se estavam inseridos nessas categorias. Outro ponto é que as informações mais importantes devem vir no começo do texto e as menos importantes nos parágrafos seguintes. O leitor de internet, por exemplo, lê em formato de “F”. Ou seja, lê às primeiras linhas e depois “escaneia” o restante do texto buscando por palavras-chaves. Por fim, se o documento estiver informando uma tarefa ao cidadão, os passos que a tarefa exige devem estar na ordem de realização.

O que explica o uso de linguagem complexa nos documentos oficiais que estão online?

Fischer: Eram documentos analógicos que foram simplesmente transpostos para o meio digital. Deveriam ser reescritos para a leitura na internet, que tende a ser mais rápida e realizada em telas pequenas, como a do celular.

Como o cidadão pode comunicar que não entendeu um documento?

Fischer: Diversos sites governamentais, após disponibilizarem uma informação, oferecem na sua interface as opções “gostei” e “não gostei”. Esse recurso ajudará o governo a entender se aquela informação foi ou não útil ao cidadão. É importante clicar na opção “não gostei” porque esse dado será considerado pelas autoridades públicas.

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Crédito da imagem principal: Leonardo Aversa

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