Um momento encarado por muitos estudantes como hora de lazer e oportunidade de participar de atividades coletivas com os colegas de turma, as aulas de educação física, no entanto, podem ser permeadas por barreiras de gênero que prejudicam alunas e professoras.

“Historicamente, o machismo limitou a participação feminina na sociedade. O homem podia se movimentar de forma ampla e se expor no espaço público, enquanto a mulher ficava restrita ao espaço privado”, explica a docente do Centro Universitário de Volta Redonda (UniFoa) Ivanete da Rosa Silva de Oliveira.

“Nas aulas, isso ainda pode ser visto nos meninos correndo, ocupando espaços amplos e sendo protagonistas, enquanto as meninas se agrupam entre elas e sentadas”, ilustra.

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Professora de Educação Física da Universidade do Extremo Sul Catarinense (Unesc), Bruna Carolini de Bona afirma que o problema se espelha na opressão do dia a dia:

“Basicamente, a escola não se descola da sociedade, refletindo as mesmas exclusões e preconceitos que a mulher enfrenta em relações cotidiana.”

“Ela não é boa”

O machismo encontrou terreno fértil na educação física porque, historicamente, a mesma nasceu vinculada à militarização.

“Focava em aptidão física, força e rendimento, valores atribuídos ao gênero masculino”, explica Bona. “Ainda hoje, os alunos estipulam um padrão esportivo, comparam-se e excluem aqueles tidos como menos habilidosos, como as meninas.”

Docente da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS), Marcelo Victor da Rosa aponta a influência das competições institucionais, como as Olimpíadas, no imaginário dos alunos. Nelas, o melhor atleta é escolhido.

“Não dá para pegar esse modelo, transpor para o ambiente escolar e achar que ele não gera exclusão. Lá, poucos terão habilidades, conhecimento e motivação para todas as atividades”, destaca.

Veja mais: Saiba como trabalhar a corporeidade nas aulas de educação física

A própria ideia de que certos esportes são apenas masculinos é reforçada pela mídia. “Basta se perguntar: o futebol de mulheres tem o mesmo espaço na televisão que o masculino?”, questiona a professora da rede municipal de Campo Grande e mestranda na UFMS Sarah da Silva Corrêa Lima.

“Ela pode se machucar”

Nas aulas de educação física, a discriminação contra alunas se manifesta tanto de forma sutil quanto escancarada. No primeiro caso, a docente e mestranda da UFMS Tatiana Roberta Medeiros aponta a reprodução do estereótipo da aluna como “delicada”. “Esperam dela comportamentos leves e sem agitação. Caso contrário, ela pode se machucar.”

Lima relata atividades em que os meninos se escolhem para formar grupos, excluindo as meninas. “Se o professor vê isso e não questiona, reforça a discriminação e perde-se a possibilidade de ressignificar estereótipos.”

Quando as alunas decidem explorar “espaços masculinos”, as violências deixam de ser sutis. “Caso dos xingamentos homofóbicos como ‘maria-homem’ contra alunas que querem jogar futebol”, exemplifica Medeiros.

Os próprios docentes discriminam ao separar os alunos em esportes pelos seus gêneros. O famoso “vôlei para as meninas, futebol para os meninos”.

“Observei uma professora de anos iniciais do fundamental que tinha no pátio dois espaços de brinquedos separados: o azul, com carrinhos, heróis e ferramentas, e o rosa, com bonecas e utensílios de cozinha”, conta Oliveira.

Confira: Jogos cooperativos são recurso para enfrentar o bullying nas aulas de educação física

Lima lembra da necessidade de formação sobre gênero, principalmente aos professores homens. “Muitos colegas acham a temática descabida e não querem estudar. Logo, não possuem embasamento para identificar discriminação e intervir, quando eles mesmos não as reproduzem”.

Como resultado, as alunas se abstêm da aula. “Isso as afasta de atividades corporais na idade adulta também”, relaciona Bona.

“Quando determinadas práticas não são oferecidas às alunas, nega-se o direito à educação”, enfatiza Rosa. “Ao final, os alunos não desenvolvem um pensamento crítico que busque superar os estereótipos existentes.”

“Ela não sabe”

As professoras também são vítimas de discriminação de gênero. Medeiros relata ser testada pela classe ao ensinar futebol no ensino médio. “Os alunos não realizam as propostas e agem como se eu não fosse dar conta de ensiná-los.”

Já Lima foi questionada pelos alunos ao ensinar lutas. “Perguntavam se eu realmente sabia o que estava ensinando.”

Em relação à gestão e aos colegas, Lima observa discriminação nas atribuições das aulas. “Há um viés da mulher como cuidadora que direciona as professoras de educação física para os anos iniciais do fundamental e as barra no ensino médio”, conta.

Pesquisadora de dança, ela sentiu dificuldades ao solicitar mudança para ensinar esportes e fisiologia. “Queria ter mais experiência no ensino médio. A gestão questionou: ‘mas e o outro professor, ele quer as mesmas aulas?’. Como se ele tivesse prioridade e não pudesse ensinar outra coisa.”

“É ainda comum a direção prever que as coreografias de qualquer festa comemorativa são função da professora de educação física, nunca do par homem. E como se toda professora se identificasse e tivesse habilidade com essa prática apenas por ser mulher”, exemplifica.

Práticas para mudar

Para ajudar os alunos a quebrarem percepção de práticas corporais sexistas, Rosa indica usar dança ou luta como disparador de discussões. Oliveira recomenda aulas coeducativas. “Pressupõe práticas conjuntas entre meninas e meninos”, revela. “Vale o professor analisar seus conteúdos e mudar regras e dinâmicas.”

Lima orienta incentivar alunos a participarem de todas as práticas, independente de gênero. “Já tive aluno de quatro anos que se recusou a dançar porque não era ‘coisa de homem’”, comenta.

Medeiros reforça a necessidade de o professor intervir em caso de comportamentos discriminatórios. “É o momento de parar a atividade e dialogar”.

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