“Eu sou a Geração Igualdade: concretizar os direitos das mulheres”.  Esse foi o tema definido pela ONU Mulheres para a celebração do dia 8 de março deste ano. Mas o que as alunas pensam sobre o ambiente escolar e as formas de deixá-lo mais igualitário? Questões como essa têm sido debatidas por estudantes de escolas públicas que participam de coletivos feministas organizados em três instituições diferentes. Nesta reportagem, seis integrantes desses grupos compartilham suas opiniões.

Nos coletivos, as meninas são as protagonistas da mudança e discutem temas como feminicídio, violência doméstica, sororidade (termo que significa apoio ou união entre as mulheres), indústria da beleza, igualdade de gênero, entre outros.

“O objetivo dessas iniciativas é conscientizar como o machismo estrutural impacta a relação entre os colegas de todos os gêneros e pensar soluções para os problemas que aparecem do dia a dia”, diz a participante do Coletivo Feminista da Etec Pirituba (SP), Laura Nascimento, 15 anos.


Machismo reproduzido

Presente em toda a sociedade, o machismo também está na escola. Essa é a opinião da participante do Coletivo Feminista, da EMEF Sebastiao Francisco- O Negro (SP), Júlia Vitória, de 13 anos.

“Aqui, a aluna também pode ser assediada sexualmente ou verbalmente, com a diferença de que, lá fora, pode não denunciar por temer ameaças”, diz. “Você tem colegas, professores e coordenadora a quem recorrer.”

Para ela, uma forma comum de assédio é ser tocada sem permissão. “O menino achar que, por você estar conversando com ele, de uma forma amiga, autoriza ele a dar em cima de você, a tocar sua perna”, comenta. “Quando a gente fala ‘não’, é não, e o menino tem que respeitar”, enfatiza a aluna da EMEF Sebastião Francisco – O Negro, Rosimeire Barbosa Melo, de 14 anos, que aprendeu, no coletivo, sobre a importância do posicionamento da mulher.

Coletivo Feminista, da EMEF Sebastiao Francisco- O Negro (SP)

 

Outra situação machista reproduzida na escola é que os homens ainda são mais ouvidos. “Há situações em que você fala uma coisa em aula, o professor não dá atenção, mas logo parabeniza o menino que repetiu o que você disse”, conta Vitória.

“Acho que a maior dificuldade ainda é a voz da menina, de ela ter espaço de fala para dialogar com professores, diretores”, acrescenta Nascimento.

“Há situações, em caso de assédio, em que o professor é visto como um ‘suposto’ assediador, e as meninas como ‘supostas vítimas’. A voz de um homem tem mais validade do que as de muitas garotas”, exemplifica a participante do Coletivo Liberdade, Igualdade e Solidariedade (LIS), do Instituto Federal de Goiânia (IFG), campus Aparecida, Isa Ingrid, de 16 anos.

Isa Ingrid, participante do Coletivo Liberdade, Igualdade e Solidariedade (LIS), do Instituto Federal de Goiânia (IFG)

 

Ela também destaca a divisão de papéis por gênero, reproduzida na escola. “Nos cursos técnicos de alimentos, há mais alunas, talvez por remeter à cozinha, lugar de mulher. Já nos cursos técnicos de edificações, há mais homens”, compara.

Além de professores e alunos, o machismo também pode vir de outros funcionários da instituição de ensino. “Fazíamos uma campanha sobre autoestima e fomos colar cartazes no banheiro feminino quando a escola estava vazia. Quando um funcionário viu dois meninos do grupo participando, disse que eles ‘virariam mulheres’ se entrassem ali com a gente. Como se um espaço fosse mudar o gênero deles”, diz Melo.

O papel dos meninos

Assim como as alunas, os meninos também são vistos tanto como vítimas quanto como reprodutores do machismo.

“Ainda falam que a menina não pode fazer tal coisa porque isso é de menino, e vice-versa. E há uma constante necessidade de ‘provar’ que são homens”, comenta Grazielle Barbosa, de 14 anos, da EMEF Sebastiao Francisco – O Negro.

“Os meninos têm muito o que aprender, mas passei a entender isso como um processo. Eles cresceram com a ideia de que a vontade deles tem que sobressair em relação à nossa. Ainda assim, eles precisavam se conscientizar mais”, opina Ingrid.

“Há uma dificuldade com os meninos por conta da falta de referências de homens respeitosos”, destaca Nascimento. “Deve ser discutido o papel do homem dentro do feminismo, que homens também podem ser feministas, que o feminismo não é o contrário do machismo, mas a libertação deste”, completa Nascimento.

“Esse problema vem de casa, os meninos foram criados dentro dessa estrutura. Eles encontram outros que têm a mesma ideia e criação e se juntam”, diz a aluna da Etec Pirituba (SP), Maria Cecília Pimentel, 17 anos.

Avanços e desafios

O espaço escolar é visto como um local onde a discussão sobre igualdade de gênero avançou, mas ainda precisa melhorar.

“Acho que temos que discutir mais as relações entre as garotas. Devemos nos ajudar e respeitar a posição de todas”, reflete Nascimento sobre sororidade.

Pimentel se vê representada no espaço escolar. “Temos uma diretora muito competente e que serve como um exemplo. Mas acho que as instituições de ensino em geral deveriam valorizar mais as mulheres na ciência e na academia, assim como discutir mais o machismo”,opina.

“Temas como relações de trabalho e igualdade, às vezes, são abordados em aulas de sociologia e história, o que é um avanço, mas vejo o tema da desigualdade, em geral, sendo pouco abordado entre os professores. É mais os alunos que se organizam”, conta.

“O patriarcado faz mal para o homem e para a mulher, para o heterossexual e para o homossexual, para o cis e para o trans. Se revisto, teremos mais liberdade e uma sociedade realmente igualitária”, finaliza.

Veja mais:

Relacionamento entre meninos e meninas melhora após projeto que discute masculinidade tóxica na escola
ONU Mulheres lança currículo e planos de aula para discutir gênero nas escolas
Para Maria da Penha, machismo dentro da escola precisa ser revisto
Direito das mulheres se aprende na escola

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