Maria da Penha sofreu violência doméstica por 23 anos, hoje a lei para coibir o
machismo leva o seu nome (Crédito: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil)
Em 2016, comemoram-se os dez anos da lei 11.340/2006, popularmente conhecida como Lei da Maria da Penha, que visa coibir a violência contra a mulher. A lei foi batizada como o nome da farmacêutica bioquímica Maria da Penha Maia Fernandes, que sofreu violência doméstica durante 23 anos. Em uma tentativa de assassinato com arma de fogo, seu marido a deixou paraplégica.
Em entrevista ao NET Educação, Maria da Penha diz que a educação e a escola são essenciais para evitar que jovens reproduzam o machismo. “A educação ajuda a desconstruir este pensamento de que o homem é superior à mulher”. Nesta terça-feira (8/03), é comemorado o Dia Internacional da Mulher, data marcada para lembrar o respeito às mulheres e relembrar a luta por igualdade de gênero. Confira a entrevista completa abaixo.
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NET Educação – Como você avalia os dez anos da lei que leva o seu nome?
Maria da Penha – Avalio com positividade, pois muita coisa foi feita. Entretanto, ainda falta os gestores públicos de pequenos e médios municípios serem mais comprometidos. Nesses locais, a mulher que sofre violência doméstica ainda tem dificuldade para pedir ajuda.
NET Educação – O que precisa ser feito daqui por diante?
Maria da Penha – Precisamos continuar na visibilidade e um maior compromisso federal e estadual para educar e conscientizar os jovens. Os jovens homens precisam ser educados a não reproduzir o machismo e as jovens mulheres devem saber que há leis que as amparam.
NET Educação – Como você avalia o papel da educação no combate à violência contra a mulher?
Maria da Penha – A educação é essencial para tudo o que queremos mudar. Como a cultura machista está muito presente na nossa sociedade, a educação ajuda a desconstruir este pensamento de que o homem é superior à mulher. Somos iguais aos homens, possuímos as mesmas capacidades e podemos ser profissionais de qualquer ramo que escolhermos. Tem também a questão da família, com os pais educando suas filhas de forma diferente a dos seus filhos homens.  Isso tudo precisa ser revisto.
NET Educação – Quais ações você vê sendo realizadas nas escolas no combate à violência contra a mulher?
Maria da Penha – Acho que tem muitas escolas e professores envolvidos com a questão da violência contra a mulher de maneira particular, mas não é uma conduta do Estado. Precisamos do Estado envolvido para ampliar e uniformizar essa informação. Mas tivemos avanços. Por exemplo, foi uma surpresa agradável este movimento de levar a violência contra a mulher para o Enem [Exame Nacional do Ensino Médio], por exemplo. Foi uma ideia maravilhosa, pois a redação ajuda a avaliar como está o entendimento do jovem sobre o tema nos dias de hoje.
NET Educação – Como a violência contra a mulher pode ser abordada pela escola?
Maria da Penha – De várias maneiras, mas penso, principalmente, que tem uma cultura machista dos próprios professores que precisa ser revista. Tem professoras, por exemplo, que liberam os meninos para o recreio e ficam com as meninas arrumando a sala. Por que só as tarefas domésticas cabem às mulheres? São pequenas coisas que precisam ser mudadas.
NET Educação – A escola pode ser parceira também na tentativa de identificar casos de violência contra as mulheres da sua comunidade, sejam mães de alunos, professoras ou funcionárias?
Maria da Penha – Com certeza, e isso não é algo raro. A violência pode ser identificada de maneira indireta, por meio da aplicação de questionários, por exemplo.  Muitas professoras que estão envolvidas com o movimento de mulheres também estão capacitadas para desenvolver este olhar.
NET Educação – Como você avalia a retirada das discussões sobre gênero e identidade de diversos planos estaduais e municipais de educação?
Maria da Penha – É um retrocesso, um exemplo de como o machismo está presente e tem uma profundidade muito grande. Precisamos, justamente, de políticas públicas nesse sentido.
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