As lutas e artes marciais devem ser entendidas na educação física escolar como cultura do corpo e do movimento. Assim, o objetivo não será formar atletas ou competidores, mas colocar os alunos em contato com essas manifestações culturais.

“São práticas historicamente importantes e que acompanham os seres humanos ao longo do tempo. Refletem os modos de ser, viver e pensar das pessoas e sociedades em momentos históricos diferentes e atualmente”, resume o doutorando em educação física e membro do Grupo de Estudos e Pesquisa em Pedagogia das Lutas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Álex Sousa Pereira.

Como ensinar?

Nas aulas, é importante ir além do ensino das posturas em si, ainda que essas sejam importantes. Contra isso, Pereira indica estabelecer diálogos com os alunos sobre o que eles conhecem de artes marciais e apresentar seus aspectos históricos e filosóficos. “Investigue as relações que seus educandos têm com as lutas em suas realidades e problematize a presença delas em filmes, séries e videogames”, recomenda.

“É importante lembrar também que filosofias de vida e os códigos éticos e sociais dos guerreiros sempre estiveram presentes na grande maioria das artes marciais”, aponta. O ensino de lutas também deve ser realizado de forma global antes de partir para modalidades específicas. “Pode-se apresentar algumas características que são comuns a todas as artes marciais, como: contato proposital, fusão ataque e defesa, imprevisibilidade, relação de oponente e alvo e a presença de regras”, lista.

As artes marciais também podem ser apresentadas por meio de uma pedagogia do jogo, que rompe com a ideia de reprodução de técnicas. “Podemos criar jogos que se aproximam bastante da situação real de luta”, garante o docente.

Também conhecidos como jogos de oposição, estas atividades lúdicas tem como característica o confronto entre duas ou mais pessoas e possuem variações. “Há jogos de controlar; de conquistar e invadir território; de desequilibrar; de golpear; de tocar e de lançar”, elenca Pereira.

Superando desafios

Alguns mitos impendem o ensino de artes marciais na educação física escolar. Pereira lembra que o professor de educação física não precisa ser especialista no tema.“Pode-se abordá-las por meio de um processo de pesquisa. Isso ajuda os alunos a se apropriarem dos elementos históricos, ritualísticos, crenças e regras fundantes”, indica.

Os próprios alunos podem pesquisar as artes marciais de forma independente, supervisionados pelo professor. “Outro recurso é utilizar a visualização e análise de vídeos e fotos das modalidades estudadas”, propõe Pereira.

O ensino de lutas também é equivocadamente associado à violência. “Inclusive, quando apresentado de forma sistematizada e didaticamente, pode ajudar as crianças e jovens a gerir e a controlar a complexidade das relações violentas no interior do grupo social”, contrapõe o especialista.“E se compararmos atos violentos que acontecem em campeonatos de futebol com as competições de karatê e taekwondo, talvez encontraremos mais dessas manifestações nos campos e nas torcidas organizadas do que nos torneios de artes marciais”.

Por fim, não há a necessidade de locais e materiais específicos, que podem ser adaptados. “Tatames podem ser substituídos por colchonetes, colchões ou canteiros de grama. Aparadores podem ser criados a partir de materiais que as crianças e jovens tragam de casa, como cobertas e travesseiros”, afirma.

“Há, ainda, a possibilidade de extrapolar os muros da escola” e realizar visitas com as crianças e jovens em instituições e academias que ofereçam tais modalidades para que possam ser experimentadas”, finaliza.

Confira, a seguir, seis artes marciais que podem ser apresentadas aos alunos na educação física escolar.

1) Kung Fu

O nome desta arte marcial é uma interpretação da expressão em cantonês “gong fu”, que significa trabalho árduo que leva à perfeição. Seu diferencial é explorar referências à natureza, com movimentos inspirados em animais. As posições básicas são as do cavalo (ma pu), arco e flecha (gong bu) e do gato (xu pu). Em aula, especialistas contam como explorar o universo do desenho animado Kung Fu Panda para apresentar essa arte marcial.

2) Tai chi chuan

Dez brincadeiras simples ajudam a apresentar esta arte marcial chinesa que também é praticada como meditação. Tendo seu ritmo guiado pela respiração, ela controla a ansiedade e ainda fortalecer os membros inferiores de seus praticantes. Imitar posturas de animais e jogos de equilíbrios são algumas das atividades lúdicas que podem ser sugeridas.

3) Taekwondo

Esta arte marcial surgiu na Coreia, em 670 d. C, e pode ser traduzida como “caminho espiritual dos pés e das mãos”, por utilizar ativamente estes membros. Na educação física escolar, o professor pode iniciar com atividades lúdicas que ajudem a desenvolver habilidades necessárias para a sua prática. Na sequência, a reportagem indica bases, ataques e defesas básicas que podem ser praticadas individualmente.

4) Karatê

Esta arte marcial se desenvolveu na Ilha japonesa de Okinawa, que recebeu forte influência da imigração chinesa entre os séculos XIV e XV. Uma sequência didática para ensiná-la na educação física escolar pode contar com explicações sobre sua história e fundamentos, a importância da saudação antes da luta e atividades lúdicas como “estátua”, mas com os alunos “congelando” nas posições de karatê aprendidas.

5) Jiu-Jitsu

De origem indiana, essa arte marcial se desenvolveu no Japão e ganhou novos contornos no Brasil, sendo marcada por embates no chão e oposição de forças. Outro diferencial é ela não contar com golpes traumáticos, como socos e chutes. Na educação física escolar, boas opções de atividades lúdicas são aquelas que lidam com força – como cabo de guerra – e atividades em quatro apoios, para um melhor contato com o chão. Além disso, rouba- rabo e pique-bandeira ajudam os alunos a se relacionarem visualmente com o adversário e ficarem atentos à sua guarda.

6) Judô

O Judô surgiu no Japão a partir do jiu jitsu (JuJutsu). Sua sistematização foi realizada em 1878 pelo professor Jigoro Kano, que introduziu novos princípios filosóficos e enfatizou a cooperação e o melhor aproveitamento da força.

Basicamente, a prática do judô visa desequilibrar o oponente, usando a sua força contra ele próprio. Nas aulas de educação física, o professor pode sugerir atividades de desequilíbrio e também jogos cooperativos para ensinar princípios dessa luta.

7) Capoeira

A capoeira pode ser tematizada como uma luta e arte marcial, mas também como jogo e dança. Este plano de aula usa livros, vídeos e roda de conversa para apresentar aos alunos do ensino fundamental 1 os princípios básicos dessa manifestação da cultura corporal brasileira. Além disso, os alunos poderão vivenciar alguns movimentos básicos dessa arte marcial, como Ginga
Aú (estrelinha), Esquivas baixa e alta e Meia-Lua.

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