Além dos desafios que o isolamento social trouxe para todas as disciplinas, a educação física vivenciou problemas específicos. “Nela, conteúdo e metodologia estão interligados e exigem que se vivencie o corpo, com presença e interação. O isolamento retirou essas bases”, justifica o professor da Escola Estadual de Ensino Médio Mariano Martins, de Fortaleza (CE), André Cyrino.

“Outras disciplinas já contavam com pesquisas e referenciais para o ensino remoto, o que não ocorreu na educação física”, revela. Educadores físicos escolares também lidaram com empecilhos comuns a todas as escolas públicas, como alunos sem internet, celular, com baixa conexão e dados. “Pensei: se agora o ensino será mediado pela tecnologia, abraçarei a ideia. Mas, da forma mais democrática possível”, revela ele, que criou o blog “Educação Física Sem Vergonha” para oferecer atividades didáticas aos alunos durante a pandemia do novo coronavírus (covid-19).

Professores também podem encontrar outras sugestões dele, para aulas de ginástica e lutas, na Plataforma Impulsiona. A seguir, Cyrino compartilha o que deu certo – e o que se mostrou inviável – ao experimentar atividades no ensino remoto da educação física.

Confira também: Educação física: veja 26 planos de aula para o ensino fundamental e médio

Blog x Google Classroom

Cyrino se inspirou no blog de um colega que lecionava filosofia, em 2014, para criar o seu na pandemia. “Posso reunir textos, sugestões de atividades, imagens, vídeos e áudio em um mesmo lugar. O aluno o acessa via qualquer aplicativo de navegação, usando poucos dados e baixa conexão”, ressalta. Para ele, a iniciativa foi melhor aceita do que o Google Classroom, adotado pelo seu Estado. “Muitos estudantes não conseguem instalar ou usar”, relata.

YouTube x Drive

Segundo o docente, vídeos e imagens trazem o uso do corpo para as aulas remotas. Porém, adicionar as sugestões audiovisuais no Drive igualmente limitava a participação discente. “Os alunos foram mais receptivos aos vídeos curtos postados no Youtube”, revela. Ao ensinar ginástica, por exemplo, Cyrino postou um vídeo de 20 segundos no qual uma garrafa, com pouca água, era lançada ao ar e caía em pé. “Exemplos simples que demonstram princípios da modalidade”, pontua. O professor também passou a produzir seus próprios vídeos: “Não encontrava os conteúdos que precisava ou na abordagem que gostaria”.

Jogos x aula expositiva

Em 2020, o professor vivenciou a tentativa de transpor a aula presencial para o ensino remoto. “Eram alunos que ficavam cinco horas em frente à tela. Cansavam-se e não aprendiam”, lembra. Nas aulas síncronas, também viu professores de educação física se apoiando em materiais muito expositivos e livros didáticos.

Na contramão, ele passou a postar conteúdos do blog em uma semana e, na aula seguinte, marcava uma aula síncrona para trabalhar os conceitos estudados via jogos. “Utilizei forca e caça-palavras, com a classe dividida em grupos no WhatsApp neste último. A dinâmica, basicamente, é eles contra mim. Se erram, eu pontuo”.

Material autoral x livro didático

Para os alunos que não possuem acesso à internet ou celular, Cyrino envia materiais impressos. Nesse caso, ele evita atividades de livros didáticos e procura criar conteúdos autorais, melhor sintonizados à realidade da pandemia. “Geralmente, aproveito ou adapto as atividades publicadas no blog”.

Flexibilidade nos prazos

A realidade mostrou alunos sobrecarregados com tarefas domésticas – como cuidar dos irmãos – e estudando em horários alternativos. “Outros só acessam a internet na casa da avó, que visitam mensalmente. Isso exige flexibilidade do professor ao estipular prazos de entrega”, afirma ele, que optou por prazos bimestrais.

Respeito às limitações da turma

Para Cyrino, o uso da câmera igualmente ajudou a trazer mais corpo para a aula remota. “É algo que consigo explorar, porque quem tem celular costuma ter a ferramenta, ainda que em baixa qualidade”.

Nos encontros ao vivo, porém, ele não conta com as câmeras. “Por um lado, seria possível explorar outros jogos. Mas, o que vejo, são os alunos se escondendo por problemas de autoimagem ou vergonha de mostrar suas casas. Aprendi a entender e respeitar essa limitação”.

Leia mais: 9 dicas para estimular alunos a ligarem a câmera e interagirem em aulas remotas

Envolvimento familiar

Nas propostas de Cyrino, a participação da família em certas atividades proporciona mais pontos aos alunos, que compravam a interação por fotos e vídeos. O retorno surpreendeu o professor. “Esperava a participação de irmãos e primos, mas chegaram diversos vídeos com pais, inclusive enviando mensagens a mim. Foi gratificante”.

Veja mais:

Futebol pode aproximar estudantes do gênero poesia, e vice-versa

Para Marcio Atalla, atividades corporais devem ir além da educação física

Plano de aula – Basquete: origem, conceitos e regras

0 Comentários
Inline Feedbacks
View all comments

Talvez Você Também Goste

Estimular criatividade e respeitar singularidades dos alunos são ganhos da esquizoanálise na educação

“Abordagem previne conflitos ao propor relações horizontais”, explica Francisco Estácio Neto

‘O adolescente se relaciona mais com a literatura que o adulto’, acredita Luisa Geisler

Autora vê medo de escrever começar nessa fase e indica oficinas de escrita criativa

Transformar texto oral em escrito combate preconceitos linguísticos de estudantes

Alunos registraram contos da cultura ribeirinha em projeto desenvolvido na rede pública de Eirunepé (AM)

Receba NossasNovidades

Receba NossasNovidades

Assine gratuitamente a nossa newsletter e receba todas as novidades sobre os projetos e ações do Instituto Claro.