Assim como as demais artes marciais, trazer o kung fu para as aulas de educação física escolar ensina valores que transcendem os gestos de atacar e defender. “Respeito, companheirismo, responsabilidade, autocuidado e empatia estão presentes na modalidade. Para isso, é preciso ir além da técnica pela técnica”, explica o doutorando em educação física e membro do Grupo de Estudos e Pesquisa em Pedagogia das Lutas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Álex Sousa Pereira.

O que o ocidente entende por kung fu é, na verdade, a modalidade wu shu (traduzida como “arte da guerra” ou “arte marcial”). No artigo “Propostas pedagógicas para o ensino de lutas em escolas: uma visão sobre o universo do kung fu”, João Luís Rebelo Torres explica que o termo kung fu é uma interpretação da expressão em cantonês “gong fu”. Esta significa um trabalho árduo que leva a perfeição, isto é, o tempo e a energia dedicados para desenvolver uma certa habilidade. “Você pode ser kungfuísta em pintura, música, dança e também em artes marciais”, esclarece.

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Professor de educação física de Santos (SP) e mestre em ciências da saúde, Caio Toledo costuma iniciar o ensino do kung fu discutindo o significado do nome. “Ou seja, que habilidades em qualquer área da vida podem ser conquistadas por meio da dedicação. Está indo mal em matemática? É possível ir lá, treinar e melhorar”, explica.

Em termos de história, o wu shu teria surgido há pelo menos quatro mil anos na China. Para o artista marcial e mestre em educação física Enrique Ortega, destacar os aspectos históricos da prática ajuda no desenvolvimento de um olhar crítico. “O kung fu, assim como outras artes marciais, foi criado para a guerra e para a formação de jovens soldados, em um tempo em que era necessário caçar e defender sua tribo. Ao longo dos séculos, houve a inserção de religiosidade e filosofia e ele foi ganhando propósitos de saúde, lazer, esporte e inclusão, sendo indicado hoje para crianças, idosos e pessoas com deficiências”, contextualiza.

Animais e ludicidade

Segundo Pereira, um diferencial do kung fu é o fato dessa arte marcial explorar referências à natureza, com movimentos inspirados em animais. As posições básicas que podem ser ensinadas aos alunos são as do cavalo (ma pu), arco e flecha (gong bu) e do gato (xu pu). “Elas servem para o fortalecimento das pernas, membros que serão fundamentais para chutes, defesas e bloqueios. É como uma árvore grande que precisa de raízes fortes para permanecer em pé”, compara o professor e presidente da Federação Paulista de Kung Fu, Paulo Di Nizo.

Toledo destaca a importância de desenvolver atividades lúdicas ao trazer o kung fu na educação física escolar. Ele explora com os alunos o universo do desenho animado Kung Fu Panda. “É possível associar movimentos aos personagens do desenho. Quando ensino o punho do tigre, que é a mão em forma de garra, associo à personagem Tigresa. O mesmo para a postura da Garça, que é apoiada em uma perna e com o joelho para cima”, compartilha.

Ortega também utiliza o desenho em suas aulas, mais precisamente os episódios que contam a origem dos “cinco furiosos”: Macaco, Tigresa, Garça, Louva-Deus e Víbora. “A virtude do louva-deus é a velocidade, mas que também gerava ansiedade. Então, é possível problematizar como ser veloz sem ser afobado, focando na respiração”, compartilha.

“Já a virtude da Tigresa é a força que, em excesso, pode machucar”, acrescenta. Observar a força é um dos aspectos que ajudam na empatia, como explica Ortega: “A intensidade que não é agressiva para mim, pode ser para meu colega”, justifica. Para Nizo, controlar a força também se vincula ao respeito pelo outro: “Não existe o treino sem o parceiro. Treinar o ataque e a defesa é conhecer o meu corpo e também o de quem está ao meu redor”.

Quando se trata de brincadeiras, Toledo indica um pega-pega no qual o aluno agarrado deve fazer uma estátua com uma das posturas aprendidas. Ele também investe em atividades de equilibro, habilidade exigida no kung fu. “Como fazer uma linha no chão e os alunos se movimentarem e fazerem as posturas tendo ela como referência”, sugere.

Por sua vez, ele destaca como ganho na aula trazer elementos da cultura chinesa. “Apresento o nome das posturas em chinês e ensino a contar até 10 no idioma, usando a contagem dos números nas atividades”, conta.

Criando coreografias

No artigo “O Ensino do Kung Fu na Educação Física Escolar”, a professora de educação física Jaqueline Silva narra como utilizou trechos dos filmes “O voo do Dragão” (1972), “Kung Fu Panda” (2008) e “Karate Kid” (2010) para fomentar debates com a classe. Já nas aulas práticas, foram realizadas as posições básicas: cavalo, garça, arqueiro, serpente, tigre, gato e o golpe do norte — sequência sincronizada de golpes.

“Um jogo foi proposto, separando os estudantes em duas equipes (uma com bolas de meia e a outra sem), para realização da defesa das bolas lançadas pela equipe adversária utilizando os golpes aprendidos”, compartilha. Torres sugere alternar as posições básicas dos animais nos sentidos para frente, trás, esquerda, direita e diagonais. “Pode-se incluir socos e chutes durante esses deslocamentos”, indica.

Em seu artigo, ele ainda recomenda a seguinte progressão de chutes: chutes diretos (com a ponta, peito ou borda externa do pé); chutes de cobertura (joelhos estendidos); chutes giratórios (no sentido longitudinal do corpo, gira-se utilizando um pé de apoio no solo e outro realizando o golpe); chutes saltantes-giratórios (os mesmos que os chutes giratórios, porém com acréscimo de uma fase aérea, onde o aluno deve retirar os dois pés do solo durante um salto para a realização do chute) e chutes combinados (que associam dois ou mais tipos de chutes em um breve período de tempo).

Para completar, ele propõe aos alunos criarem uma sequência coreografada com as formas que aprenderam. “É uma boa alternativa para desenvolverem trabalho em equipe, criatividade e expressão corporal”, enfatiza.

Como vídeos de apoio para os professores, Ortega e Pereira indicam um com uma professora chinesa demonstrando as posturas principais; outro com explicações sobre as posturas e deslocamentos e um terceiro que exemplifica uma progressão pedagógica.

Já para saber mais sobre o ensino de artes marciais na escola, é possível acessar a dissertação de mestrado de Pereira: “Livro-experiência para o ensino-aprendizagem das lutas na Educação Física do Ensino Fundamental e Ensino Médio”.

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