O jiu-jitsu pertence ao conteúdo estruturante de lutas na educação física escolar, sendo uma arte marcial diferente das demais por ser realizada no chão e não contar com golpes traumáticos, como socos e chutes. “No jiu-jitsu, um jogador coloca o outro em situação de imobilização e este se rende, dando três tapinhas nas costas do adversário para avisar. Isso faz com que tradicionalmente seja um esporte com baixo índice de lesão”, explica o professor Alexandre Nascimento, do canal do Youtube ANJIUJITSU.

Basicamente, a luta de jiu-jitsu se inicia com os dois lutadores em pé tentando segurar o adversário e derrubá-lo para imobilizá-lo no chão. “O objetivo é utilizar a forca do adversário contra ele próprio por meio de alavanca, torções e imobilizações. Isso proporciona vantagens para o jogador mais leve e é uma das belezas desta arte marcial: você não precisa ser necessariamente o mais forte para ter êxito”, completa o professor da Escola de Jiu-jitsu infantil de Grajaú (RJ) Bruno Ramôa.

Porém, assim como outras lutas marciais, o jiu-jitsu trabalha os músculos do corpo de forma global, incentiva o espírito esportivo e o respeito. “Você cuida do seu oponente, pede desculpa e cumprimenta ao final”, lembra Nascimento. “Ele ainda oferece melhor consciência corporal e vejo que estimula a autoconfiança nas crianças”, complementa Ramôa.

Toque brasileiro

No artigo “Jiu-jitsu na escola: possibilidade criativa e lúdica (2016) ”, Maria Cristina Simeoni orienta o professor de educação física escolar além das técnicas na hora de trabalhar o jiu-jitsu, focando na sua história e em atividades lúdicas.

Simeoni conta que os rudimentos do Jiu-Jitsu surgiram na Índia há mais de 2,5 mil anos, por intermédio dos monges budistas que precisavam desenvolver técnicas de defesas sem armas contra invasores. As técnicas de força foram desenvolvidas observando os animais.

Junto aos monges, esta arte marcial migrou para a China e o Japão até, em 1917, chegar em Belém do Pará, no Brasil, por meio de Misuyio Esai Maeda, conhecido como Conde Koma. “Koma foi professor de Carlos Gracie, cuja família migrou para o Rio de Janeiro e ajudou a trazer novas características para a luta, desenvolvendo mais técnicas no solo”, detalha Ramôa.

Adaptações na escola

Por se desenvolver no solo e com possibilidade de quedas, um cuidado do jiu-jitsu na educação física escolar é a presença do tatame. Estruturas confortáveis como colchonetes, por exemplo, nem sempre estão disponíveis em escolas públicas. Além disso, atividades no chão podem sujar e danificar os uniformes dos alunos.

Em atividades desenvolvidas no ensino fundamental 1 de escolas municipais de Jacarezinho (PR), Simeoni relata simular um tatame com uma lona estendida no gramado da escola, além de solicitar que os alunos ficassem descalços.Se a atividade for realizada no contraturno escolar e com alunos de turmas diferentes, Ramôa indica dividir os alunos por faixa etária, por exemplo: de quatro a seis anos, de seis a nove anos e de dez a treze anos.

Já Nascimento aponta que as brincadeiras ajudam a desenvolver técnicas essenciais para a luta e faz com que os alunos percam o medo do contato físico com os colegas. A seguir, conheça oito brincadeiras que podem ser utilizadas para ensinar o jiu-jitsu na educação básica de escolas públicas.

1) Cabo de guerra

Como o jiu-jtsu é um esporte que exige entendimento sobre o uso da contraposição de forças, o cabo de guerra é uma atividade bem-vinda. Para isso, crianças são divididas em dois grupos e cada um deles deve puxar um lado diferente de uma corda, ganhando aquele que conseguir trazer a corda para o seu lado. Em artigo, Simeoni conta realizar diversas variações da atividade com diferentes participantes: meninos contra meninas, misto e professor contra alunos. “Todas as variações foram realizadas com três repetições”, descreve.

2) Jogo em quatro apoios

Utilizada por Simeoni na experiência em Jacarezinho (PR), esta atividade familiariza os alunos com ações no solo. Consiste em dividir a turma em dois times e numerar cada integrante entre um e sete.

Na quadra da escola, demarca-se uma área de 3mX5m, onde os alunos se posicionam em quatro apoios, um time paralelo ao outro, nas duas margens de cinco metros. Nas duas faces paralelas de três metros, no centro, é colocado um bambolê representando um gol. No centro da área demarcada, uma bola de futsal.

De forma aleatória, a professora anuncia um número e os alunos das equipes diversas saem em quatro apoios em direção a bola, com o objetivo de colocá-la dentro do bambolê.

3) Luta de costas

Nesta experiência desenvolvida por Simeoni, os alunos são divididos em dupla e traçam-se duas linhas, paralelas, com distância de 1,5 metros uma da outra, para cada um deles.

Os alunos ficam de costas um para o outro, encostando os corpos. “O objetivo é empurrar um ao outro até conseguir fazer com que o amigo de sala ultrapassasse a linha do chão”, relata a professora. Ela ainda propôs a atividade com crianças de pesos diferentes e, posteriormente, com um aluno de frente para o outro.

4) Rouba- rabo

Nesta atividade desenvolvida por Ramôa, uma área da quadra é demarcada com um quadrado ou círculo. Os alunos são posicionados dentro dele, cada um com um pedaço de pano simulando um rabo. O objetivo é que cada criança tente roubar o rabo da outra, ganhando quem o fizer primeiro.

“Trabalha os conceitos de não virar de costas para o adversário, o que traz vulnerabilidade; o contato visual entre ambos e o uso das mãos para defender e afastar o outro jogador e também para ataca-lo”, justifica.

5) Pique-bandeira

Desenvolvida por Nascimento, a brincadeira possui objetivos semelhantes ao rouba-rabo. Uma linha divisória divide duas equipes na quadra. Ao fundo desta, é fincada uma bandeira a ser roubada pela equipe adversária sem que qualquer participante da outra equipe seja tocado.

6) Brincando de Huka-Huka

Na dissertação “O ensino do jiu-jitsu a partir de jogos de luta/oposição: confrontando o planejamento e realidade escolar” (2020), Paulo Henrique da Silva Luz utilizou a brincadeira indígena chamada Huka Huka com alunos de um colégio municipal de Belo Horizonte (MG).

O objetivo é derrubar ou tocar atrás do joelho do adversário. “A luta começa na posição de pé, mas os jogadores podem ajoelhar caso queiram dificultar a pegada do adversário”, explica.

7) Duelo de Zeus e Cronos

Utilizada por Luz na sua pesquisa de ensino de jiu-jitsu com alunos de 10 a 12 anos, tal brincadeira se parece com o Sumô e objetiva retirar o adversário de um círculo por meio de desequilíbrios.
“Na primeira parte da atividade, só foi permitido desequilibrar usando os membros superiores (Greco-Romana) e sem agarrar as pernas”, destaca.

8) Briga de sapo

Indicada por Luz em sua pesquisa, a atividade começa com os dois jogadores com as palmas das mãos apoiadas contra as do adversário e ambos ficam na posição de cócoras. A partir desta posição eles devem tentar desequilibrar o oponente até que alguma parte do corpo toque o chão.

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