Os clubes de ciência na escola são espaços onde crianças e jovens se reúnem para realizar atividades científicas do seu interesse no contraturno das aulas.

“Estão inseridos em contexto de educação não formal e funcionam com a orientação de um professor-coordenador”, resume a docente da Universidade Regional de Blumenau (FURB) e coordenadora da Rede Internacional de Clubes de Ciências, Daniela Tomio.

“Cada clube é único, pois assume os interesses e necessidades do coletivo que participa dele. Pode enfocar iniciação científica; temáticas de saúde; discussão de filmes e textos científicos; investigar um problema socioambiental da comunidade escolar, entre outros. Em comum, porém, compartilham a formação científica e humana de seus participantes”, completa.

Desafios recorrentes

Segundo Tomio, o desafio dos clubes de ciências nas escolas públicas é a sua continuidade. “Podem ser descontinuados após mudanças nas gestões municipais e estaduais ou por falta de recursos, quando acontecem vinculados a projetos das universidades nas escolas”, lamenta.

“Infelizmente, não há políticas de educação científica para clubes no Brasil, ao contrário de outros países da América Latina em que estes estão atrelados aos Ministérios da Ciência ou da Educação, com legislação para acontecerem”, descreve.

Tomio ainda destaca a falta de remuneração do professor-coordenador, que geralmente não está no orçamento público ou conta com apoio da secretaria de educação.

“Existem apoios e editais de fomento de agências de pesquisa, especialmente para as feiras de ciências. Seria preciso investir nas condições para projetos de iniciação científica, como os clubes de ciências”, opina.

Listamos abaixo 23 dicas de pesquisadores e professores-coordenadores de clubes de ciências para ajudar a inserir essa iniciativa nas escolas públicas.

Identifique para quem será o clube de ciências

“É preciso clareza nos propósitos de iniciação científica e da contribuição social na comunidade para a implementação do clube, de modo que atenda aos interesses desse coletivo”, descreve Tomio.

“Assim, é necessário especificar o público participante; se [são] crianças, adolescentes e jovens. É interessante que haja uma variedade de idades para aprenderem em diversidade”, completa.

Estipule um coordenador

Este adulto será responsável por administrar a participação dos clubistas e, com eles, a organização das atividades. “Pode ser um professor de ciências da escola, um professor extensionista, bolsista e estagiário na universidade, ou outro profissional ligado à atividade científica”, exemplifica Tomio.

Defina quando funcionará o clube de ciências

É preciso definir um dia da semana e horário para as reuniões do clube de ciências, para que exista uma rotina para os encontros.

Veja se há questões burocráticas para a sua criação

Dependendo do contexto e da rede, pode ser necessário criar um projeto ou solicitar autorização junto à Secretaria de Educação. “No entanto, não há impedimentos em iniciar clubes só com o espaço de uma sala de aula”, tranquiliza Tomio.

Atividades que acontecem no contraturno da escola também podem exigir autorização da família para participação dos alunos, conforme orienta o mestre pelo mestrado profissional em ensino de ciências da Universidade Estadual de Goiás (UEG) Robson Rocha Alves. Ele é autor da dissertação “Clube de ciências: contribuições para a alfabetização científica” (2020). “O mesmo vale caso aconteça algum evento ou feira fora da escola que o clube precise participar”, completa.

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Destilador produzido pelos alunos do Colégio Estadual Machado de Assis em Londrina (PR) (crédito: divulgação / Brasil Escola)

Leia bibliografia sobre alfabetização científica

Alves indica aos professores-coordenadores dos clubes lerem textos sobre letramento científico antes de iniciarem as atividades.

“Esses textos trazem indicadores que ajudam a observar a construção cognitiva e a evolução dos alunos conforme as atividades ocorrem”, justifica.

Liste quais materiais serão necessários

Estes mudam de acordo com o objetivo da proposta. “Um clube que irá investigar abelhas nativas precisa de materiais específicos para campo, enquanto aquele que pesquisará compostos presentes nas águas do rio da comunidade necessitará de outros elementos”, exemplifica Tomio.

“É importante que todos possam ter microscópio e acesso às tecnologias digitais, como boa internet para pesquisas”, lembra Tomio.

Pense em alternativas para conseguir os materiais

“Muitos dos clubes contam com apoio das universidades, de doações ou realizam campanhas para angariar fundos e comprar materiais”, orienta Tomio.

Vale também estabelecer parcerias com universidades ou secretaria de educação, como aponta a docente do curso de ciências biológicas da Universidade estadual Paulista (Unesp- Jaboticabal) Thaís Gimenez da Silva Augusto. Ela é fundadora de um projeto em parceria com a Escola Estadual Dr. Joaquim Batista que já dura 16 anos.

“A gente tem uma verba pequena, mas que dá pra gente comprar os materiais que usamos, que geralmente são de baixo custo”, compartilha.

É necessário espaço para guardar os materiais

 “Se a escola não tiver laboratório, pode ser uma sala de aula. Porém, é fundamental espaço para guardá-los. Por exemplo, se os alunos quiserem fazer um vulcão de argila, o objeto terá que ficar na escola para secar e ser pintado ao longo das semanas”, exemplifica Augusto.

Crie parcerias dentro da escola

Augusto destaca a importância de criar parcerias com gestão, coordenação pedagógica, professores e funcionários. “Isso faz com que o clube seja reconhecido e não aconteçam situações de o espaço dedicado a eles estar ocupado com outras atividades na hora da sua realização”, justifica Augusto.

“Quando não há esse reconhecimento por parte da escola, também é comum usarem espaço do clube para guardar materiais, como produtos de limpeza. Ou de esquecerem de avisar o professor-coordenador que não haverá clube naquela semana porque o local será usado para uma reunião de pais”, exemplifica a docente.

Crie um estatuto coletivo

O clube deve ter um estatuto contendo as normas organizadas de forma coletiva, especialmente em relação aos papeis dos integrantes e a participação deles.

Tema de investigação deve partir do interesse dos alunos

A investigação do clube deve partir do que os alunos desejam investigar e não ser uma atividade obrigatória. “Os clubistas não são apenas ouvintes, mas têm autonomia e são protagonistas. Assim, é preciso perguntar para eles o que gostariam de aprender ou desenvolver e listar essas atividades, algo fundamental para o engajamento deles”, orienta Augusto.

Atividades também podem partir de problemas da comunidade

Outra forma é pedir aos clubistas para investigarem as problemáticas na comunidade escolar e, dentre elas, escolherem algo que gostariam de estudar.

“Assim, compreendem a relevância do que desenvolvem e como podem ser agentes de mudanças na sua realidade usando as ciências. Uma escola que tem clube de ciências movimenta cultura científica para todo seu entorno, e a ciência ajuda na compreensão do mundo”, explica Tomio.

Decisões coletivas levam ao engajamento dos alunos

O clube de ciências também deve privilegiar a coletividade e relações horizontais segundo Tomio.

“As atividades são sempre combinadas e cabe ao professor-coordenador oportunizar essas práticas para ampliar repertórios científicos e culturais dos clubistas, ajudando-os a refletirem sobre as implicações sociais delas”, acrescenta.

Não se restrinja apenas à prática

Além da atividade prática, é preciso espaço para pesquisar e discutir os resultados do que foi realizado. “O professor-coordenador questiona o porquê daquela determinada reação e tenta chegar numa resposta com os alunos”, explica Augusto.

“Um exemplo foi a criação de um vulcão com os clubistas. Os alunos pesquisaram os vulcões mais ativos do mundo, as regiões onde se encontram, de onde vem a lava etc.”, complementa.

Crie as rotinas do clube

Para além da prática, podem ser desenvolvidos momentos de leitura de textos de divulgação científica e de discussão. “Dinâmicas e brincadeiras de grupo, atividades envolvendo a comunidade, visitas às universidades ou outros espaços científicos e participar de feiras de ciências são outras possibilidades”, pontua Tomio.

“É importante também que os clubes de ciências tenham suas rotinas de registro com portfólios, atas e redes sociais, para manter a memória das atividades e organizar a história da atividade”, completa.

Necessidade de transporte dos alunos pode ser limitador

Augusto explica que, caso a escola não seja de tempo integral, uma atividade no contraturno pode limitar a participação de alunos que morem em locais distantes. “Assim, pode ser difícil ir para casa almoçar e, depois, retornar para escola”, lembra. Além disso, atividades que exijam deslocamento dos alunos, como visitar um museu, também devem ser programadas junto à gestão para conseguir apoio para transporte.

Programe as atividades com antecedência

Alves explica que é importante saber o que será trabalhado e as técnicas utilizadas durante os encontros a médio ou longo prazo para buscar os materiais a serem utilizados. “Por exemplo, para uma aula de tensão superficial precisamos de detergente, bandeja, um peixe de cartolina, entre outros. E se o laboratório da escola não tiver materiais, é necessário tempo para pensar em substituições e adquirir novos itens”, ensina o professor.

Práticas não podem envolver riscos aos alunos

Nem todas as práticas de interesse dos alunos poderão ser realizadas por conta do risco de acidentes. “É comum eles verem um vídeo com determinado experimento na internet e desejarem reproduzi-lo. Mas aí o professor identifica que o experimento contém ácido, e ele não poderá ser realizado”, ilustra Augusto.

Entre os cuidados, a professora lista não deixar os alunos lidarem diretamente com o fogo e com objetos cortantes, ainda mais se o professor-coordenador for o único adulto junto aos clubistas.  “No nosso clube, também não fazemos tipagem sanguínea, que envolve furar o dedo do aluno”, conta Augusto.

Teste os experimentos antes de aplicá-los com os alunos

Testar as reações químicas dos experimentos antes de realizá-las no clube também previne problemas e acidentes.

“Por exemplo, tivemos uma situação de um professor-coordenador realizar o experimento antes e identificar que a reação química produzia calor. Ele ficou com medo de os alunos se queimarem, e a atividade foi cancelada”, compartilha Augusto.

Divida os alunos em grupos menores

“Dividir os clubistas em grupos de até cinco pessoas permite que todos participem do experimento e possam discuti-lo”, orienta Augusto.

Use metodologias ativas de aprendizagem

Augusto indica que o professor-coordenador use metodologias ativas de aprendizagem no clube, uma vez que os alunos já costumam assistir a aulas tradicionais na educação formal.

“O nosso objetivo é desenvolver aulas lúdicas, com os alunos ativos e com a mão na massa. Eles que vão fazer o experimento, aprender a mexer no microscópio e nas lâminas. Isso tudo ajuda a manter a motivação”, garante.

Alves relata usar trilha interpretativa, que envolve visitar um determinado local com os alunos e os ajudarem a fazer relações entre o ambiente e conteúdos científicos. “Em uma atividade, os alunos visitaram o cerrado, desenvolveram atividades relacionadas a esse bioma e leram um texto sobre a história da ciência”, relata.

Além disso, o docente também aplica a sala de aula invertida, com conteúdo estudado em casa pelos alunos antes de serem vistos no encontro do clube.  “Ajuda a ganhar tempo, pois só temos duas horas semanais no clube”, explica Alves, que enviava os materiais aos alunos por aplicativo de mensagem. A metodologia de sala de aula invertida, porém, exige que todos os clubistas tenham acesso à internet em casa, o que precisa ser investigado.

Incentive os clubistas a escreverem

Augusto lembra que os alunos podem ter dificuldades com escrita, competência que o clube também pode ajudar a desenvolver. “Incentivamos os alunos a fazerem uma espécie de pequeno relatório, no qual escrevem e desenham os resultados”, pontua.

Conheça a Rede Internacional de Clubes de Ciências.

As escolas, professores e clubistas brasileiros podem contar com o apoio da Rede Internacional de Clubes de Ciências. “É um portal organizado por um coletivo extensionista da FURB que reúne clubes de ciências da América Latina”, explica Tomio.

“A rede promove encontros entre clubistas, realiza trabalhos em coletivos de diferentes escolas, forma professores-coordenadores, divulga pesquisas e produtos educacionais e compartilha as experiências que acontecem nas escolas”, acrescenta.

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Crédito da imagem: Divulgação – Brasil Escola

Atualizada em 26/03/2024, às 16h09.

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