É preciso muito dinheiro para a montagem de um espaço maker na escola pública? O professor precisa entender previamente de programação? Essas e outras dúvidas são comuns quando se pensa na implantação de um local de aprendizagem mão na massa e, não raro, o desconhecimento afasta educadores e gestores dessa possibilidade.

Segundo o docente do departamento de física da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Elio Molisani Ferreira Santos, basta professores, gestores e coordenação pedagógica estarem abertos a um aprendizado colaborativo e criativo para que a ideia possa se materializar na escola. Ele foi um dos coordenadores do projeto Makers 4.0, que ajudou três instituições de ensino públicas do Amazonas a criarem seus próprios laboratórios makers, de acordo com o que a comunidade tinha disponível. A iniciativa, que aconteceu na CETI Professor Manuel Vicente Ferreira Lima, EETI Nova de Itacoatiara e EETI Engenheiro Professor Sérgio Alfredo Pessoa Figueiredo, foi fomentada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam).

“Não chegamos com um esquema pronto e implantamos, mas envolvemos a comunidade e eles formularam seus espaços a partir das suas necessidades”, diferencia.

O grupo descreveu a experiência em um blog e, aqui, compartilha as principais dicas e desafios para inspirar outras instituições públicas a criarem seus próprios ambientes de aprendizagem mão na massa. Confira!

Professor não precisa de conhecimentos avançados

A ideia de implantar um espaço maker na escola pública pode dar a impressão de que o professor já precisa possuir conhecimentos avançados, de programação à eletrônica. Segundo Santos, a ideia é equivocada. “Assim como os alunos devem estar abertos para aprender e adquirir novos saberes no processo, o mesmo vale para os docentes. Todos chegam com o pouco que sabem e vão aprendendo e trocando em conjunto”, desmistifica.

Conhecimento em aprendizagem por projetos é bem-vindo

Alguns conhecimentos do professor, no entanto, são bem-vindos antes da implantação, entre eles o uso de metodologias de aprendizagens ativas. “Como é um espaço mão na massa, destaco a aprendizagem por projetos, no qual alunos se mobilizam para encontrar respostas de forma criativa a uma questão ou desafio proposto, com o educador atuando como mediador”, destaca. “Essa metodologia também implica trabalho interdisciplinar e a parceria com docentes de outras disciplinas”, acrescenta. Além disso, habilidades manuais – como manusear uma chave de fenda e usar equipamentos de segurança, por exemplo – também são importantes.

Antes de implantar, saiba o que deseja do espaço

Para que o espaço maker seja bem utilizado, professores, coordenação pedagógica e alunos precisam saber porque o querem e para que ele será utilizado. “Ou seja, é preciso ter uma ideia prévia de quais disciplinas, conteúdos e metodologias serão aplicados. Isso ajudará a criar um espaço e adquirir ferramentas que sejam mais adequadas às necessidades daquela comunidade escolar”, aponta. Vale ainda destacar que, ao contrário dos laboratórios de física, química e informática, nos quais o docente apresenta os experimentos fechados a serem reproduzidos, o espaço maker é um ambiente livre. “Precisa ter método, mas é um local para experimentação e para buscar respostas. Estudantes e educador vão descobrindo de acordo com as necessidades que o projeto pauta”, diferencia.

Professores de todas as áreas podem usar o espaço maker para ensinar conteúdos (crédito reprodução Relatório Final Projeto Makers 4.0 – Itacoatiara)

 

Todas as disciplinas podem pensar o uso do espaço

Não só os professores de física e química podem aproveitar o espaço maker. Todas as disciplinas podem incorporar o local no seu processo de ensino. “Por exemplo, docentes de história que produzem maquetes para reproduzir e retratar algum ambiente ou época, aliado ao conteúdo dado em sala de aula”.

Cooperação entre professores e autonomia de aluno precisam estar no PPP

O espaço maker potencializa a aprendizagem de diversos conteúdos. Contudo, não adianta implantá-lo porque “está na moda”. É preciso que ele faça sentido para a comunidade escolar. “Professores e gestores devem ser bem honestos: eu desejo trabalhar em parceria com colegas de outras disciplinas? O meu estudante pode ser autônomo nesse processo? Há abertura para as turmas serem criativas? São questões que precisam estar já previstas no projeto político pedagógico (PPP) da escola. Se não houver essa abertura, pode ficar um espaço sub-aproveitado”, alerta.

Escolha um espaço disponível na escola

A escolha do local físico onde será instalado o espaço maker depende do ambiente que se tem disponível. Todo lugar – e de qualquer tamanho – pode ser adaptado. Em uma escola pública amazonense do projeto Makers 4.0, o local escolhido foi um antigo laboratório de física. “Ele possuía pontos de água e uma bancada”, conta Santos.

Já em outra unidade de ensino, uma sala de aula foi repaginada para receber os alunos. “Eles transformaram um armário velho em bancada principal e para corte de estilete. Usaram carteiras para criarem estações de trabalho menores e dispensaram as cadeiras. Além disso, usaram extensões para criar pontos de tomada, instaladas embaixo das mesas”, relata.

Comece com poucos utensílios

Não são necessários muitos utensílios para iniciar. “Comece pequeno e cresça aos poucos”, conta. Pontos de tomada e bancadas são essenciais, assim como uma prateleira para guardar os projetos que vão ser desenvolvidos no decorrer das aulas. Ferramentas como martelo, serrote e chaves de fenda são bem-vindas. “O ideal é ter um notebook, que possa ser transportado entre as bancadas com facilidade, principalmente se for utilizado o Arduíno. Mas se não tiver, um computador de mesa pode ser adaptado”, aponta o docente. Uma das escolas do Makers 4.0 optou por fixar equipamentos, como a furadeira, em um painel na parede. Já outra, por questão de segurança, optou por armários com cadeado. “Tenha ainda vassoura e produtos de limpeza, para incentivar os alunos a deixarem o ambiente sempre limpo e organizado, como quando o encontraram”, indica.

Além de armários, espaço maker permite organização das ferramentas na parede (crédito reprodução Relatório setembro Projeto Makers 4.0 – Coari)

 

Contra a falta de dinheiro, envolva a comunidade

No projeto Maker 4.0, as escolas públicas tiveram uma verba de dois mil reais. Como financiamento e patrocínio nem sempre é possível, Santos indica envolver a comunidade. “Quando alunos e pais participam, aquilo se torna mais deles e eles passam a valorizar e cuidar mais. E essa sensação de pertencimento é exatamente a proposta”, explica. É possível aproveitar o conhecimento de tutores que são marceneiros, eletricistas, pintores e pedreiros no processo. “Liste os materiais e envolva todas na busca por doações. Sempre tem alguém que tem um martelo ou chaves de fenda para doar”, conta. Se for necessária verba, rifas e bingos da escola podem ajudar na arrecadação de montantes para comprar peças que não foram conseguidas por doação. 

Faça da montagem do espaço maker também um processo pedagógico

O próprio envolvimento dos alunos no espaço maker pode ser transformado em processo pedagógico. “Ou seja, montá-lo já é, por si só, uma tarefa mão na massa”, explica o especialista. Os estudantes, por exemplo, podem ser estimulados a pesquisar regras e uso de equipamentos de segurança do ambiente. “Lixos eletrônicos doados, como celulares e computadores, podem ser desmontados para a separação de peças e estudo dos itens”, recomenda.

Veja mais:
9 links para implantar um espaço maker na escola
7 vantagens de integrar a cultura maker ao currículo escolar
Educação maker ensina que aluno pode mudar sua realidade

Atualizada em 10/4/2019 às 18h38.

Crédito da imagem principal: reprodução Relatório Final Projeto Makers 4.0 – Itacoatiara

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