Dificuldades são esperadas no processo de alfabetização. “O sistema de escrita é complexo, com regras arbitrárias que não são as mesmas da oralidade, que é a forma de comunicação mais recorrente”, justifica a vice-líder do grupo de pesquisa Alfabetização e Letramento Escolar (Alfale) da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) Sílvia de Fátima Pilegi.

Entre elas, problemas em reconhecer e associar letras; entender a combinação de palavras e os sons gerados por elas; ler de forma lenta e hesitante; não compreender o que foi lido; dificuldade em soletrar palavras e, claro, tentativas de evitar leitura e escrita por insegurança.

“Outro sinal é a falta de interesse. Como a criança não vê funcionalidade no que está aprendendo, não acata as solicitações do professor”, compartilha a mestra em docência para a educação básica e membro do Grupo de Estudos e Pesquisas em Linguagem (GEPELin) da Universidade Estadual Paulista (Unesp-Bauru) Luciana Apolonio.

Iniciando com a sondagem

Para entender as dificuldades dos alunos, o primeiro passo é  realizar uma sondagem de alfabetização.

O objetivo é tomar como ponto de partida o que o estudante já sabe para trabalhar o que ele ainda desconhece.

“Como vivemos em uma sociedade centrada na escrita, não estamos totalmente alheios aos sinais utilizados. A pessoa não alfabetizada entende esses signos nas roupas, nos outdoors, nas embalagens dos produtos etc. Tem conhecimentos e alguma experiência na relação com a escrita que podem ser trazidos à sala de aula”, diz Pilegi.

“O docente pode questionar: essa criança já conhece letras? Sabe diferenciar a letra de outros sinais gráficos, como números? Sabe os sons que as letras produzem quando se agrupam em sílabas e palavras?”, completa.

Depois da sondagem inicial, outras são realizadas ao longo do processo, após as mediações, para acompanhar a evolução dos alunos.

Cada dificuldade, uma intervenção

No estágio inicial de alfabetização, a criança não distingue a letra de outros símbolos, como números e sinalizações. Aos poucos o alfabetizando compreende o que a letra simboliza e seu som: a relação entre grafema e fonema. “Para isso, é importante atividades que permitam perceber a diferença e função das letras no processo de escrita”, orienta Pilegi.

Em caso de leitura lenta, hesitante e da não compreensão de que uma determinada sequência de letras combinadas produz um som específico, é necessário intervir sem repetir exaustivamente a palavra para que a criança escreva ou leia.

“Essa sequência de palavras pode aparecer de forma variada em cantigas, poemas, embalagens e literatura infantil”, ensina a pesquisadora.

Caso a criança não reconheça a diferença das letras ‘n’ e ‘m’, pode-se proporcionar situações como quebra-cabeças e alfabeto móvel. Sobre a construção da escrita, Pilegi lembra que o estudante só aprenderá escrevendo.

“Escrever não é copiar, apesar da importância da cópia em determinados momentos. Construir a palavra exige pensar a junção dos grafemas que geram determinados fonemas. Ou seja, não basta compreender a junção das letras ‘c-a-s-a’, mas o significado produzido”, completa Pilegi.

Para a escrita do nome, pode-se pedir para a criança tentar escrever como imagina e depois comparar com o seu nome escrito em outros locais, como em crachás e materiais didáticos.

“Isso para ajudá-la a identificar quais palavras faltam e a ordem correta. Pode-se também chamar outra colega que tenha o mesmo nome para elas pensarem juntas essa escrita”, recomenda Pilegi.

Ainda que lento, este processo de refletir sobre o que se escreve é mais valioso do que apenas apontar onde está o erro.

“Nesses casos, até seria possível a criança memorizar como se escreve ‘Maria’, mas não entenderia o novo arranjo de letrar ao se deparar com ‘Mariana”, compara a pesquisadora.

Atividades precisam ser significativas

Por ser um processo complexo, a alfabetização exige atividades que dialoguem com o universo e a realidade dos alunos ou, em outras palavras, que sejam significativas.

“As regras do sistema de escrita alfabética são compreensíveis quando aplicadas em uma situação contextualizada, mostrando que essa escrita tem função social, existe fora da escola e usamos esses sinais com o objetivo de nos comunicarmos”, defende Pilegi.

Erro, por exemplo, das antigas fórmulas como ‘vovô viu a uva’. “Eram textos artificiais que não existiam fora do contexto escolar”, diferencia.

Em termos de aprendizagem significativa, Pilegi lembra que iniciar pelo nome próprio ou substantivos do universo da comunidade escolar são pontos de partida.

Entre as intervenções significativas, Pilegi indica a alfabetização com parlendas; jogos teatrais e a criação de situações em aula com registro escrito.

“Como nomear a brincadeira criada, escrever as regras do jogo a ser jogado e fazer o relato de um passeio”, lista Pilegi.

Vale ainda criar grupos heterogêneos misturando crianças com dificuldades e outras com conhecimentos para que se ajudem, assim como estimular a criança a refletir sobre o que escreve.

Ao final, Apolonio explica que são essas atividades contextualizadas e reflexivas que fazem a criança recuperar o gosto pelo processo de alfabetização. “O interesse sinaliza que a alfabetização está evoluindo”, reitera.

Quando se preocupar?

Se as dificuldades persistirem, é preciso investigar se o problema é um transtorno de aprendizagem, como dislexia e disgrafia.

“Quando se percebe que mesmo com intervenções significativas a criança não compreende a estrutura e o sistema de escrita alfabética, não consegue registrar o desenho de letras, ordenar as palavras, entre outros, é necessário avaliar se serão necessárias intervenções de outros especialistas, como fonoaudiólogos e psicólogos”, finaliza Pilegi.

Veja mais:

Quais as diferenças entre alfabetização e letramento?

Plano de aula – Alfabetização inspirada em Paulo Freire: como fazer?

Como adaptar a metodologia de Paulo Freire para a alfabetização infantil?

Plano de aula – Alfabetização com rimas

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