A sondagem de alfabetização é uma avaliação diagnóstica utilizada para identificar o nível de conhecimento e habilidades de leitura e escrita do aluno em estágio inicial de aprendizagem. 

“Ou seja, identifica quais conhecimentos e habilidades as crianças já têm desenvolvidas ou não, e quais estão em processo de desenvolver”, resume a presidenta da Associação Brasileira de Alfabetização (ABALF), Adelma das Neves Mendes. 

Ela pode ocorrem em todo o ciclo da alfabetização, que engloba os três primeiros anos do ensino fundamental, e fornece as reais necessidades de aprendizagens das crianças. 

“Ela é o contrário de avaliação somativa e classificatória que ocorria ao final de cada ciclo ou série. Essas são dissociadas do processo de ensino e geram uma grande massa de reprovação no ciclo inicial de alfabetização”, descreve Mendes.  

“Na sondagem de alfabetização não há preocupação com notas ou rankings, colocando a professora para acompanhar e estar junto da criança em seu processo de aprendizagem”, acrescenta. 

A sondagem de alfabetização é geralmente realizada individualmente, mas pode incluir atividades coletivas. Também se vale de diferentes tarefas, como reconhecimento de letras, correspondência de sons e símbolos, leitura de palavras, compreensão de textos simples e escrita espontânea. 

Segundo a coordenadora do Grupo de Pesquisa em Alfabetização da Universidade Federal de Minas Gerais (GPA — UFMG) Valéria Barbosa, seu diagnóstico será uma referência segura para a elaboração de um planejamento com objetivos claros de aprendizagem. A partir dele, pode-se planejar estratégias de ensino personalizadas para atender às necessidades específicas de cada estudante. 

A seguir, confira 13 orientações para realizar uma sondagem de alfabetização com a turma.  

Crie um ambiente seguro e de confiança

“O diagnóstico deve ser feito na sala de aula com a professora regente e em 

ambiente descontraído. De preferência, individualmente, permitindo à docente fazer perguntas sobre a escrita inventada produzida pela criança e, depois, solicitar a sua leitura”, destaca Barbosa.

“Ainda assim, pode acontecer da criança se sentir desconfortável. Em todo o caso, o mais importante é criar uma relação de confiança, não atribuir nota ou rotular o desempenho delas”, enfatiza. 

“Ainda que esse não seja o objetivo da avaliação diagnóstica, ainda há condutas avaliativas como punição”, alerta Mendes. 

Escrita deve ser espontânea

Alguns autores defendem que a sondagem é um ditado de palavras proposto pelo professor, envolvendo ou não o uso de frases simples para a escrita espontânea e leitura imediata pelo aluno”, resume a doutoranda em Educação pela Universidade Estácio de Sá Alessandra de Souza Santos. 

“Quando as crianças são incentivadas a produzirem escritas que não são resultado de cópia ou memorização mecânica de palavras, criam-se possibilidades pedagógicas de intervenções assertivas”, destaca Barbosa. 

A sondagem de leitura e da escrita precisam se relacionar

A perspectiva de alfabetizar letrando considera a leitura e escrita simultaneamente. 

“Para escrever a criança precisa desenvolver consciência fonografêmica, o que significa identificar os sons da língua ao nível dos fonemas e representá-los com grafemas. Já para ler, a criança   precisa desenvolver consciência grafonêmica, que significa relacionar as letras do alfabeto com os fonemas que elas representam”, justifica Mendes. 

“Assim, os instrumentos de avaliação diagnóstica podem até ser construídos para uma ou outra, mas o conjunto das habilidades e conhecimentos delas devem se inter-relacionar”, informa Mendes.

Ditado pode ser individual, mas com a classe reunida

De acordo com Santos, recomendável que o ditado seja planejado para a escrita e leitura imediata pelos alunos, aplicados conforme o ano de escolaridade. 

“A aplicação poderá acontecer com os alunos em círculo ou em fileiras. O professor realiza o ditado a partir da relação de palavras selecionadas. Enquanto cada aluno constrói sua escrita, o professor passa de carteira em carteira observando e solicitando a seus alunos a leitura de alguma palavra aleatória”, sugere Santos. 

“Se a turma for pequena ou o professor obtenha ajuda de outro profissional, pode chamar em sua mesa cada estudante, observando e anotando as características em suas hipóteses de escrita. Nesse momento, é fundamental observar avanços e anotar dificuldades”, pontua.

“Pode-se também combinar com as crianças que a atividade será feita individualmente, explicando o objetivo da atividade de entender como cada criança está pensando a escrita e, na sequência, pode ser feita a correção coletiva”, indica Barbosa. 

Associe palavras e textos 

A avaliação da escrita e da leitura incluem palavras e também textos, conforme orienta Barbosa. 

Escolha palavras do contexto do aluno

“Isso favorece todo o processo, assim como a utilização de palavras do cotidiano”, ensina Santos. 

“Também podem ser usadas palavras familiares, que foram exploradas em textos. Por exemplo, se a professora trabalhou uma quadrinha do livro ‘Delícias e Gostosuras’, de Ana Maria Machado e solicitar a escrita das palavras avó, canela, mingau e pau”, compartilha Barbosa. 

Escolha palavras do campo semântico, mas com diferentes estruturas silábicas

“O nosso sistema de escrita é composto por palavras com sílabas canônicas e sílabas complexas, é importante incluir, na avaliação diagnóstica, palavras com diferentes estruturas silábicas compostas por vogal e consoante: V, VC, CV, CVC, CCV e CV (nasal). Por exemplo, abacate, pera, manga e graviola.  Ou Bruxa, floresta, anão, espada, fada e bosque”, exemplifica Barbosa.

“As palavras precisam ser contextualizadas e semanticamente conhecidas, mas não devem ser aquelas que as crianças já memorizaram, como o nome próprio”, alerta Barbosa. 

Mescle palavras ‘fáceis’ e ‘difíceis’ 

Com o avançar do processo, o nível de dificuldade pode crescer, incluindo palavras complexas.

Entende-se por ‘palavras fáceis’, aquelas com correspondências regulares diretas entre letras e fonemas. “Ou seja, independem da posição em que apareça na palavra, a grafia desses sons  não impõe tantas dificuldades às crianças, caso de P, B, T, D, F, V, como pato, tala, dedo e fada”, traduz Mendes. 

‘Palavras difíceis’ são aquelas onde a relação letra-som é determinada pela posição-contexto em que a letra aparece na palavra. 

“Caso de  C e QU que se relaciona ao som /k/, mas depende da vogal com que forme sílaba. Por exemplo: ‘casa’ e ‘pequeno’, sugere Mendes.

Outro exemplo são ‘M’ e ‘N’ nasalizando final de sílaba. “NH; Ã e ÃO em final de substantivos e adjetivos, como ‘campo’ e ‘canto’; uso do til (manhã), uso do dígrafo NH (linha). Além dos casos de nasalização por contiguidade, quando a sílaba seguinte já começa com uma consoante nasal”, completa Mendes.

Atenção ao ditado ilustrado

“O ditado ilustrado pode ser uma boa estratégia, entretanto, é importante conferir a correspondência entre a ilustração e a palavra que será escrita”, alerta Barbosa. “A ilustração de uma boneca, pode ser entendida pela criança como menina”, exemplifica.

Invista em outras opções além de ditado

O ditado de palavras é apenas uma possibilidade de atividade diagnóstica dos conhecimentos das crianças sobre o domínio do sistema de escrita alfabética. “Podemos trazer atividades em que as crianças recebem uma cartela de desenhos e são orientadas a escrever os nomes”, sugere Mendes. 

“Ou ainda pedir que elas escrevam palavras ou pequenos textos para depois pedir que leiam e percebam as estratégias de leitura criadas por cada colega. Isso as ajuda ajustar a pauta sonora à escrita”, acrescenta. 

Convide outros educadores para ajudarem 

“Caso o professor necessite de auxílio, poderá convidar o orientador pedagógico da escola a auxiliar no processo, adotando os mesmos critérios e estratégias”, sinaliza Santos.

Não corrija os alunos durante a sondagem

 Não se deve corrigir as escritas das crianças durante a avaliação diagnóstica. “As estratégias adequadas são incentivar a criança a escrever a partir do seu ponto de vista e, em seguida, solicitar a leitura da palavra, incentivando-a a fazer a análise de sua escrita a partir da sequência de sons e sua ordenação gráfica”, orienta Barbosa.

Entenda o erro como pista

“Devemos nos servir do ‘erro’ como orientação para o trabalho sobre o aprendizado da criança, que precisa ser retomado, ensinados ou ressignificados para atingir o aluno”, lembra Mendes.  

“Jamais coloque a criança em constrangimento, mas a encoraje a explicar por que fez certas escolhas no processo de escrita ou leitura considerados incorretos. Isso ajudará a professora a obter mais pistas sobre como essa criança está compreendendo o que lhe está sendo ensinado e daí aproveitar-se delas pistas para reorientar o trabalho pedagógico”, ressalta.

Veja mais: 

Quais as diferenças entre alfabetização e letramento?

Plano de aula – Alfabetização inspirada em Paulo Freire: como fazer?

13 dicas para a alfabetização com parlendas

10 dicas para a alfabetização de alunos autistas

Como usar jogos teatrais na alfabetização?

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