A alfabetização é um momento desafiador para todos os alunos e ganha uma complexidade a mais no caso de estudantes dentro do Transtorno do Espectro Autista (TEA) “Ela exige habilidades complexas e é um processo longo, que inicia na educação infantil e atinge os dez anos de idade, com a criança possuindo fluência na leitura e capacidade de interpretação maior”, analisa a doutora em educação especial e autora do livro “Ensino de leitura para pessoas com autismo”, Camila Graciella Santos Gomes. “Já o autismo afeta o desenvolvimento como um todo, podendo trazer prejuízos justamente na linguagem e na compreensão”, justifica.

Segundo ela, nem todas as crianças autistas estarão em condições de se alfabetizar. “São necessários pré-requisitos importantes, como conseguir permanecer um tempo sentada, saber nomear objetos, emparelhar palavra e identificar a diferença das letras. Saber que em vaca, bola e suco, as letras são diferentes”, exemplifica ela, que oferece dicas para desenvolver essas habilidades primárias em seu canal no Youtube.

Para autistas falantes, que conseguem nomear figuras, objetos e vogais, o processo de alfabetização pode ser mais fácil. “No caso de não falantes, o caminho é diferente e via audição”, explica. “Outro desafio é que muitos deles não conseguem expressar opiniões e dúvidas, além de interesse restrito por determinados assuntos e dificuldade com ruídos e sons, o que pode atrapalhar a aprendizagem na sala de aula”, lista a pedagoga e especialista em educação especial Aline Fernandes Costa. Ela é autora do artigo “Transtorno do espectro autista e alfabetização”.

Leia também: Atividades cooperativas, sensoriais e artísticas ajudam a integrar aluno autista na educação física

A seguir, confira 10 dicas de especialistas que trabalham com a alfabetização de crianças autistas para facilitar esse processo. “Lembrando, claro, que cada autista é único nas suas dificuldades e potencialidades”, alerta Costa.

1) Parta de imagens

Elementos visuais são, geralmente, melhor compreendidos. Por isso, fichas com imagens e legendas podem ser exploradas. “Parto primeiro da imagem da lua e depois vou para a palavra escrita, para que o aluno possa diferenciá-la e memorizá-la. Posteriormente, passo para vogais, consoantes e, por último letras”, indica a pedagoga e doutora em linguística Soraya Gonçalves Celestino Silva.

“O objetivo não é a criança escrever a palavra, mas reconhecê-la, aumentar seu repertório de memória e vocabulário que, em autismos mais graves, é restrito”, diferencia ela, que é autora do artigo “Uma proposta com multiletramentos no atendimento educacional especializado na alfabetização do aluno autista”.

2) Aposte na abordagem fônica

A psicopedagoga especializada em autismo Izabel Cristina Araújo Almeida cita a história da autista e hoje psicóloga Temple Grandin como um exemplo de sucesso dos métodos fônicos. “Ela relata que sua mãe começou a ensiná-la usando o som das palavras e letras de forma paciente”, destaca.

3) O processo precisa ser estruturado

Gomes costuma trabalhar o processo de alfabetização de alunos autistas primeiro com vogais, seguindo para encontros vocálicos, sílabas simples, sílabas complexas, textos pequenos e, por último, refinando a interpretação.

“É necessário ir do mais fácil ao difícil, respeitando o ritmo da criança e não avançando etapas sem que a anterior esteja consolidada. Se as vogais não estão estabelecidas, não passe para as sílabas”, alerta. “A organização desse processo do professor faz diferença e a criança fica desmotivada quando percebe sua dificuldade, desistindo. Além disso, as famílias podem demonstrar ansiedade para a criança avançar logo”.

4) Use o interesse restrito a favor da aprendizagem

Crianças autistas podem apresentar interesse em temas muito específicos, que podem ser explorados nas atividades alfabetizadoras. “Se ela gosta de animais, colocar palavrinhas que remetam a bichos ou relacionar o nome à figura ajuda”, ilustra Gomes.

5) Atividades precisam ser concretas e objetivas

Crianças com TEA possuem menor capacidade de abstração. “Ao dizer ‘morrer de fome’, o aluno pode achar que se trata realmente de um falecimento”, exemplifica Silva. “Tampouco a atividade deve ser uma folha de papel cheia de informações. Quanto mais limpa, melhor”, completa.

Costa indica retirar os fatores de distração da mesa além de identificar se a criança conhece os temas tratados na atividade. “Não faz sentido falar ‘o boi baba’ se ela desconhece o que é boi e babar”.

6) Uso de elementos multissensoriais depende do autista

Muito se fala em explorar atividades e recursos que estimulem sentidos diversos do autista. Na alfabetização, Gomes alerta que isso pode não funcionar.“Penso que funcionam na aprendizagem de habilidades simples, como manter o contato visual. Em atividades de concentração, como leitura, escrita e matemática, podem distrair”, opina.
“O tablet é um recurso que trabalha imagem em movimento, toque e audição em conjunto e que nem todos toleram”, aponta Silva.

7) Rotina aumenta o tempo de concentração

“Se a rotina é estruturante para todos nós, para a criança autista, ela é fundamental na aprendizagem. Isso porque oferece segurança e garante a continuidade do trabalho”, justifica Almeida. “Como a leitura é uma habilidade complexa e que exige atenção, a criança precisa estar o mais estável possível. Se ficar agitada, a atenção cai e a atividade não acontece”, pontua Gomes.

O mesmo vale para fomentar a previsibilidade. “Pode-se construir fichas que ilustrem quando uma atividade se encerra, a hora de descanso, e ir sinalizando cada momento”, recomenda Almeida. Costa costuma usar fotos da criança na sala e nas fichas sinalizadoras. “Uso fichas montadas no Word com imagens do aluno e legendas de diferentes momentos, como lanche, banheiro e tempo para fazer o que quiser. Ele entende e, quando conclui a atividade, guarda a ficha em uma caixa”, relata.

Silva orienta a respeitar os rituais da criança e seus objetos de apego. “Tenho um aluno que todo o dia chega, anda pela escola para reconhecer o espaço e depois pela sala. Outros trazem bonecos com eles”.

8) Faça pausas dentro da tarefa

A tolerância da criança para permanecer sentada e concentrada é pequena. “É preciso respeitar a perda de foco e seu desinteresse, pois será difícil ele retornar onde estava depois de se desconcentrar. Evite pressioná-la”, ensina Silva.

9) Faça gravações

Silva conta que costuma gravar as atividades de alfabetização com os alunos e depois assistir com eles, processo que chama de videomodelagem.“Eles gostam de se reconhecer no vídeo e isso ajuda a memorizar e fixar aquilo que aprenderam naquele dia”, compartilha.

10) Escuta sensível

Uma escuta sensível ajudará o professor a entender, com o tempo, quais fatores levam o seu aluno a uma sobrecarga cognitiva. “Pode ser ruído, a posição da cadeira, o reflexo das luzes. Tudo isso pode impedir a criança de se concentrar em uma leitura”, aponta Costa.

Os comportamentos também comunicam. “O olhar, a forma de desviar o corpo, isso pode comunicar algo que lhe foi desagradável”, descreve Almeida. “Também é necessário ver os momentos de estereotipias (comportamentos verbais e motores repetitivos) como formas de comunicação”, lembra Silva.

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Mães de alunos com autismo relatam desafios para acessar a escola pública

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