O aluno com Transtorno do Espectro Autista (TEA) pode apresentar acometimentos que vão do grau leve ao severo. Em comum, eles compartilham de três principais características: dificuldades na comunicação, na interação social e restrição de interesses.

“As manifestações são singulares. Cada pessoa com autismo é única, tornando impossível preestabelecer o que ela pode ou não fazer nas aulas de educação física”, explica o professor do Centro de Educação Física e Desportos da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), José Francisco Chicon.

Mestre em educação física e pesquisador de formação escolar e comportamento motor de crianças dentro do espectro, Matheus Ramos da Cruz aponta possíveis alterações no campo de motricidade que devem ser consideradas.

“Pode haver déficit em ações manipulativas com as mãos; da noção das direções direita-esquerda; no reconhecimento de seu próprio corpo e do espaço que ocupa; assim como a presença de movimentos corporais padronizados e repetitivos”, lista.

Quando o assunto é comunicação, pode haver dificuldade em compreender expressões faciais e emoções, em manter contato visual e desinteresse pela atividade proposta.

“A busca por despertar o interesse deve ser contínua. Ela exige paciência, pois os avanços são lentos, mas, quando alcançados, aprimoram o desenvolvimento”, ensina Cruz. “Mesmo a participação mínima já é uma grande conquista”, complementa. 

Autonomia

A convivência com o aluno e o contato com seus responsáveis e outros professores que lidam com essa criança ou jovem fornecem informações importantes sobre limitações, gostos e potencialidades. Estas devem ser aproveitadas no planejamento da aula e orientam na hora de adaptar regras de esportes e demais atividades.

“O contato com o aluno autista pode ajudar o professor a identificar movimentos em que eles mostram mais satisfação, como correr, pular, balançar e rodar”, diz Chicon.

Cruz recomenda substituir esportes competitivos por jogos cooperativos, no qual o aluno com TEA pode participar de maneira efetiva. “Essas atividades demonstram que ele pertence ao grupo e que sua ação é importante para a realização do procedimento”, defende.

O pesquisador ainda indica exercícios que utilizam diferentes superfícies e texturas com a manipulação das mãos (sensório-motoras). O mesmo vale para atividades artísticas, como o teatro e a dança, que podem auxiliar no desenvolvimento de aspectos motores e comunicativos.

“Atividades cinestésicas que envolvem a utilização do corpo para realizar vários tipos de ações, como a ginástica, e atividades corporais com o uso de brinquedos e objetos do cotidiano podem trabalhar orientação espacial, equilíbrio, movimento e simbolização”, complementa Cruz.

Segundo ele, a autonomia deve ser a principal habilidade a ser desenvolvida nas aulas, seguida do desenvolvimento motor. “Aspectos também responsáveis pela evolução em ações cotidianas e no processo de aprendizagem escolar”, justifica.

Para estimular tal habilidade, ele indica oferecer diferentes estímulos para os alunos interagirem com liberdade. “Por exemplo: disponibilizar um local na quadra com pneus, outro com cordas de diferentes tamanhos, bolas e deixá-los explorarem esses materiais”, indica.

Do lado oposto, não se deve forçar o aluno com TEA a realizar qualquer tarefa.

Formando vínculo

Dependendo do grau de acometimento do aluno autista, pode ser necessário o apoio de um professor de práticas inclusivas ou estagiário durante as aulas. “Na medida em que progridem no processo de escolarização, vão modificando interesses e vivenciando outras experiências corporais, como os colegas não autistas”, compara Chicon.

“Outras dicas são esclarecer as dúvidas da turma sobre a questão da diferença e diversidade. Estratégias do tipo ‘aluno ajuda aluno’ podem ajudar”, ressalta.

Já em relação aos demais estudantes, oriente-os a evitarem o contato físico em determinadas atividades, mas sem deixar de incluir o aluno com TEA.

“Este deve ser visto como um integrante da turma”, alerta Cruz.

*Essa reportagem faz parte do Especial Educação Física Inclusiva, conheça também as outras publicações da série:

Educação física inclusiva: 5 links para trabalhar com alunos de diferentes deficiências
Recursos visuais e linguagem corporal são importantes para aluno surdo na educação física
Na educação física, cadeira de rodas é vista como extensão do corpo do aluno com deficiência
Vôlei e futebol podem ser adaptados para incluir aluno cego ou com baixa visão
Educação física deve considerar menor força e equilíbrio do aluno com síndrome de Down

Atualizada em 18/9/2020 às 11h47.

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