Não é necessário adaptar atividades, brincadeiras, exercícios, jogos e esportes quando há alunos surdos inseridos na educação física escolar. “Eles possuem as mesmas capacidades motoras e cognitivas que os ouvintes”, explica a mestre em educação e professora na rede municipal do Rio de Janeiro (RJ), Juliana Eiras.

“A adaptação ocorre na didática das aulas, na forma como as atividades serão explicadas e demonstradas para a turma”, diferencia a pesquisadora.

Os critérios para escolher os exercícios são os mesmos usados na escolha para as crianças sem deficiência, como faixa etária, saúde, condicionamento físico e nível de interesse na proposta.

Como existem diferentes graus de perda auditiva, que podem acontecer em fases diversas do desenvolvimento, é recomendado conversar com aluno e responsáveis sobre o histórico da criança, assim como suas potencialidades e gostos.

“Desvincule a surdez da experiência da fala e da deficiência, já que as capacidades são iguais. Pense nesse aluno como sujeito, com sua identidade de pessoa surda, bicultural e bilíngue”, reforça ela.

Comunicação facilitada

A Língua Brasileira de Sinais (Libras) deve ser valorizada como primeira língua da população surda.

“Caso haja intérprete, quando em contato com uma pessoa surda, nunca se dirija a ele, mas à pessoa surda. Este irá escutar a sua fala e assim interpretar para o aluno”, explica a professora de educação física e pesquisadora, Tássia Alves.

”Se não houver esse profissional, o professor pode aprender sinais em Libras pertinentes ao ambiente escolar, como ir ao banheiro, beber água, prestar atenção, sentar-se, obrigado, bom dia e outros”, recomenda Eiras.

Ainda sobre a comunicação, fale de frente para o estudante, em velocidade normal e usando frases simples e curtas. “Muitos se utilizam da leitura labial para compreensão quando não há intérpretes de Libras”, justifica ela.

Não fale com o estudante se este não estiver olhando em sua direção, e não insista na oralidade. “É comum professores falarem alto na tentativa de fazer o estudante compreender”, adverte Eiras.

Estratégias de ensino

Aulas e atividades estritamente teóricas ou explicadas somente em língua portuguesa devem ser evitadas. Se Libras não for uma opção, aposte em linguagem corporal e recursos visuais, elementos que também podem ser explorados pela turma.

“No caso dos surdos, a via de comunicação é a espaço-visual, tornando necessário, então, que o professor pense em estratégias que abarquem esse tipo de informação”, explica Alves.

No artigo “Atividades Físicas para Surdos”, a colaboradora do Instituto Nacional de Educação de Surdos (Ines), Dalva Alves dos Santos Filha, indica substituir comandos de voz – comuns nos esportes em grupo – por cartelas coloridas e bandeiras.

“Figuras podem indicar o movimento a ser feito; números podem evidenciar sequências de exercícios ou a quantidade de crianças que devem se agrupar”, exemplifica.

Ao demonstrar o que é solicitado ao aluno em uma determinada atividade, professor e colegas podem ser usados como modelos.

Filha sugere exercícios aeróbicos para estimular a respiração em quem não utiliza a oralidade. Reforça também que surdos não precisam ser excluídos de atividades rítmicas e com coreografia. Essas apenas demandam mais aulas para ensaios. “Devido à necessidade de internalizar o tempo e o andamento da execução dos movimentos sem o auxílio de uma trilha sonora”, diz a autora.

Caso o estudante utilize prótese auditiva, esta nunca deve ser molhada. Procure retirá-la em atividades com acrobacias e ajude o aluno a guardá-la em um lugar seguro, evitando a perda.

Inclusão pelo movimento

Para Eiras, a educação física é importante na inclusão da criança surda no ambiente escolar.

“Corpo e movimentos se tornam instrumento de mediação entre surdos e ouvintes, possibilitando a transmissão de ideias, palavras, sentimentos e desejos. Também facilita interações, convivências e a participação autônoma”, defende.

“A disciplina também permite que ele trabalhe aspectos globais, como cognitivos, psicomotores, afetivos e sociais”, completa.

Contra preconceito e bullying, vale conscientizar a turma sobre cultura e identidade surda e importância da Libras.

“Em entrevistas com alunos surdos, um dos aspectos destacados que os fizeram se sentir incluídos foi o auxílio dos colegas ouvintes durante as aulas de educação física”, relata Alves.

“Priorize sempre atividades lúdicas e diversificadas, que promovam interação, socialização, trocas, comunicação pelo corpo e construção de relações de respeito, afeto, amizade, solidariedade e de demais valores inclusivos”, finaliza Eiras.

*Essa reportagem faz parte do Especial Educação Física Inclusiva, conheça também as outras publicações da série:

Educação física inclusiva: 5 links para trabalhar com alunos de diferentes deficiências
Na educação física, cadeira de rodas é vista como extensão do corpo do aluno com deficiência
Vôlei e futebol podem ser adaptados para incluir aluno cego ou com baixa visão
Educação física deve considerar menor força e equilíbrio do aluno com síndrome de Down
Atividades cooperativas, sensoriais e artísticas podem ajudar a integrar aluno autista na educação física

Atualizada em 18/9/2020 às 11h47.

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