Apesar dos avanços no ensino sobre a cultura indígena desde que a lei 11.645/2008 a tornou obrigatória na educação básica, muitas escolas ainda oferecem atividades que não promovem reflexão, criticidade e ainda reproduzem estereótipos sobre os povos indígenas, especialmente no Dia do Índio. Alguns dos materiais usados têm origem no romantismo brasileiro do século XIX, quando autores brancos retratavam povos tradicionais como primitivos e vivendo à parte da sociedade.

“Se não fizermos o trabalho de atualizar isso na memória dos estudantes vamos fortalecer discursos de ódio e racismo existentes no Brasil atual”, esclarece o mestre em história pela Universidade Federal de Alagoas (UFAL) e ativista da etnia Xokó Ivanilson Martins Xokó.

Ele e o doutorando em geografia e professor guarani kaiowa Elemir Soares Martins listaram 11 atividades que podem promover reflexões pertinentes na data, assim como outras 6 que devem ser evitadas. Confira!

O que fazer

Explicar o motivo do dia

O dia 19 de abril faz referência ao Primeiro Congresso Indigenista Interamericano, quando representantes de 55 povos da América Latina se reuniram no México. No Brasil, a data foi instituída por Getúlio Vargas via decreto, em 1943. “Explicar isso à turma demarca o histórico das lutas indígenas e esses povos como protagonistas da sua história”, resume Xokó.

Problematizar a palavra “índio”

O termo “índio” remete ao engano de Cristovão Colombo, que pensou ter encontrado as Índias quando chegou à América. A palavra é problemática porque reúne povos de diferentes idades, culturas e tradições em um mesmo guarda-chuva, além de estimular o estereótipo de “selvagem” e de “inferior”. Para os professores, o ideal é optar pelos termos “povos indígenas” ou “povos nativos originários”. “Compare e discuta as diferenças dos dois conceitos com os estudantes”, orienta Xokó.

Palestras com lideranças indígenas

Um bate papo presencial ou online ajuda a atualizar o papel dos povos indígenas na sociedade e a quebrar estereótipos. “Indígenas estão em todos os lugares, incluindo nas universidades e nos movimentos de luta por direitos”, explica o historiador. “Porém, as escolas ainda reproduzem a visão estereotipada deles em oca, nus e pescando. Temos povos que ainda vivem esse aspecto mais tradicional, porém, como um todo, as etnias acompanharam o desenvolvimento da cultura e da tecnologia, sem deixarem de ser indígenas por isso”, explica Xokó.

Troca de cartas com estudantes indígenas

Alunos não-indígenas podem trocar cartas com crianças da mesma idade de escolas indígenas. “É um diálogo interessante porque é possível ver as diferenças socioculturais e as similitudes também”, defende o historiador.

Apresentar a literatura indígena

Os professores indicam trabalhar com obras escritas por autores indígenas e de diferentes povos, caso de Daniel Munduruku. “A literatura indígena traz as suas vivências e as suas reivindicações”, justifica Xokó. No sentido inverso, a literatura de autores brancos e do século XIX sobre indígenas, se não contextualizada, reforça estereótipos. É o caso de várias obras do romantismo brasileiro.

Discutir problemas contemporâneos

A luta pela demarcação de terras e as consequências sociais das invasões das mesmas por garimpeiros e ruralistas são temas atuais da realidade brasileira. “É importante já mencioná-los no ensino fundamental 2 para aprofundar no ensino médio”, orienta Xokó. Discussão que pode ser associada ao tema de genocídio indígena.

Discutir estereótipos nas pinturas brasileiras

Muitas obras que estão em livros didáticos retratam os povos indígenas de forma estereotipada. Essa discussão foi proposta pelo professor Fabiano Adriano com alunos dos anos finais do ensino fundamental em escola municipal de Timbó (SC) . O docente listou algumas perguntas disparadoras para o processo, como: o indígena é representado como primitivo e atrasado? O indígena aparece congelado no tempo, sendo discutido apenas nos referenciais históricos da colonização do Brasil?

Leia também: Indígenas são estereotipados em livros didáticos de geografia, aponta pesquisa

Comparar as culturas de diferentes povos indígenas

Quais as diferenças de idioma, religião, culinária e aspectos culturais e religiosos de um povo indígena do nordeste para outro do sul? “Os alunos podem pesquisar as particularidades e apresentá-las em forma de seminário. Isso contribui para um olhar mais diversificado sobre as diferentes etnias”, sugere Xokó.

Apresentar influenciadores indígenas

Professores, lideranças e ativistas indígenas estão nas redes sociais produzindo conteúdos sobre discussões atuais dos seus povos. “Isso mostra indígenas sintonizados com a tecnologia e com a produção de conhecimento”, descreve o historiador. Vale também convidá-los para um bate papo online com os alunos.

Apresentar músicas e lendas indígenas

“O cuidado aqui é pesquisar material adequado, como os produzidos por povos indígenas e disponibilizados no Youtube”, orienta Martins.“Uma possibilidade são os cantores e grupos indígenas atuais, como o Brô MC’s. Eles narram aspectos importantes das questões vividas pelas populações hoje”, sugere Martins.

Destacar as contribuições da cultura indígena

Do hábito do banho diário à culinária, muitas são as contribuições dos povos tradicionais. “Aqui vale trazer as palavras de origem indígenas que enriquecem a língua portuguesa, como os nomes de cidade com origem no tupi-guarani” , recomenda Martins. “Historicamente, há outros aspectos que são esquecidos. Por exemplo, quando os europeus chegaram adoecidos, foram tratados aqui com medicina dos povos tradicionais”, completa. “Também valem atividades que ajudam a mostrar que os portugueses foram se adaptando aos modos de vida já exercidos no Brasil”, assinala Xokó.

O que não fazer

Pintar e colocar cocar nas crianças

Essas manifestações possuem significado para as identidades de seus povos. “Trazê-las descontextualizadas não está valorizando a cultura indígena, mas se apropriando da mesma”, explica Xokó.
Além disso, reforçam o indígena como figura mítica e folclórica. “São instrumentos que exigem cuidado e respeito”, adverte Martins.

Apresentar o indígena como ser à parte da sociedade

É comum os indígenas aparecerem apenas nos conteúdos escolares que remetem à chegada dos portugueses ao Brasil. “É preciso contextualizar a história desses povos antes disso e como eles não ficaram estáticos e parados no tempo, adaptando-se aos progressos e, ainda assim, resistindo e preservando suas identidades”, pontua Martins. “Caso contrário, reforça o discurso que indígenas que não vivem em ocas não são ‘de verdade’”, acrescenta.

Trazer livros, pinturas e músicas que reforçam estereótipos

Caso dos livros do romantismo brasileiro e de músicas como “Brincar de índio”, da Xuxa.

Focar em como o homem branco influencia a vida do indígena

Isso reforça um estereótipo passivo do indígena e que a cultura do homem branco é superior. “Indígenas são conscientes e, mesmo diante de um processo histórico de apagamentos, puderam se organizar e resistir até hoje”, explica Martins. “Além disso, cada cultura contribui de forma diferenciada para as necessidades da humanidade”, completa.

Fazer artesanatos, maquetes e afins sem contextualização

Convidar as crianças para fazerem colares, pinturas, desenhos e maquetes em alusão ao Dia do Índio sem trabalhar contextualização histórica e diversidade de povos não traz ganhos aos alunos e à sociedade. “São atividades que não estimulam reflexão, criticidade ou ajudam a combater preconceitos ou estereótipos”, enfatiza Xokó.

Abordar a cultura indígena apenas em 19 de abril

Isso reforça o imaginário de que os indígenas estão à parte da sociedade. O artigo 26-A da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) torna obrigatório o ensino de história e cultura afro-brasileira e indígena em todas as escolas da educação básica. Esse, porém, pode ser feito em interface com disciplinas e conteúdos diversos.

Veja mais:

Professores da rede pública combatem invisibilidade indígena nos currículos escolares

5 livros para entender o pensamento decolonial

* Adequação de conceitos:

Índio x Indígena: “Índio” é um termo generalista, uma espécie de apelido dado pelo colonizador europeu aos povos nativos da América e de outros continentes, como a Ásia, por exemplo. Portanto, é reducionista e coloca o “índio” como um todo sem distinção, sem identidade. Já o termo “indígena” significa “originário” ou “aquele que estava aqui antes dos outros”, contemplando de forma adequada a diversidade de cada povo e a sua origem nativa.

Tribo x Aldeia: “Tribo” é um termo que diz respeito a um grupo de pessoas em um local “não civilizado”, sendo, portanto, uma expressão pejorativa e que diminui os indígenas a uma condição animalesca. Já o termo “aldeia” ou “terra indígena” refere-se ao local onde vivem e se organizam os povos indígenas. Isso se dá também quando nos referimos ao indivíduo ou grupo de indígenas: devemos usar o termo “etnia guarani”, e não “tribo guarani”. Isso porque, o termo “etnia” contempla o grupo de características físicas, culturais e sociais de um povo.

Atualizado em 21/11/2022, às 15h34

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