A educação física escolar ainda é centrada em esportes e práticas corporais desenvolvidas principalmente nos Estados Unidos e na Europa. Para trazer outras perspectivas, é possível promover uma aula com inspiração decolonial e apresentar aos alunos práticas corporais de grupos invisibilizados na sociedade e, consequentemente, nos livros didáticos. É o caso das populações indígenas, quilombolas, ribeirinhas, africanas e periféricas.

“Isso ajuda os alunos a compreenderem a diversidade e multiplicidade cultural em nossa sociedade. Tende a favorecer a diminuição de preconceitos e injustiças, colaborando com uma sociedade menos desigual e mais democrática”, defende o professor das redes públicas de São Paulo e doutorando em educação pela Universidade de São Paulo (USP) Flávio Nunes dos Santos Junior.

“A educação física decolonial ajuda os alunos a reconhecerem povos e comunidades tradicionais como produtores de conhecimentos e parte importante da sociedade”, complementa a docente do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará-IFCE Arliene Stephanie Menezes Pereira.

Cuidados especiais

Segundo Junior, alguns cuidados são necessários ao trazer para a sala de aula práticas corporais que integram a cultura de diferentes povos.“Criar situações didáticas que apenas usem essas práticas corporais com uma finalidade de desenvolver questões físicas pode esvaziar a cultura e os valores representados por elas. Assim, deve existir uma preocupação do professor sobre como contextualizar essas práticas apresenta-las exatamente como elas ocorrem, para que os alunos as vivenciem da maneira mais fiel possível” recomenda.

Para o professor, trazer atividades de inspiração decolonial não significa também excluir do cronograma os conhecimentos e saberes tradicionais que já são trabalhados na escola, caso de esportes como futebol, vôlei e basquete.

A seguir, conheça 7 possibilidades que ajudam o professor a criar uma aula de educação física com inspiração decolonial.

1. Discuta como a colonialidade influenciou a relação que temos com o nosso corpo

“Ainda prevalece na nossa sociedade o dualismo cartesiano do corpo versus a mente, como se fossem coisas separadas e o primeiro tivesse em posição subalterna em relação ao segundo”, descreve Pereira.

Junior sugere problematizar como a racionalidade colonial também fomentou uma hierarquização dos corpos.“Para que um tipo de corpo padrão vigore na sociedade, outros foram subjulgados, como o corpo negro, gordo, LGBTQIA+, deficiente ou o feminino. Estes sofrem violências e marcas de poder, como se precisassem ser corrigidos”, explica.

“A sociedade estipula o que é belo e feio dentro de padrões que são coloniais. Assim, o corpo foi atrelado a performance e a uma busca por certa estética perfeita”, destaca Pereira. “A própria educação física foi instrumento e fez diversos esforços para que crianças e jovens pudessem alcançar esse corpo almejado e firmar esse corpo modelo e padrão”, completa Junior.

2. Apresente o Jongo e outras manifestações da cultura quilombola

No artigo “Práticas corporais, comunidades quilombolas e identidade: uma revisão Narrativa” (2021), Milainy Goulart e Otávio Tavares identificaram que as práticas como Jongo e Ticumbi são manifestações quilombolas típicas da região Sudeste do país e se concentram nos estados do Rio de Janeiro e Espírito Santo. Na região Nordeste, foram localizadas Cirandas, Coco de Roda e Samba de Roda. Na região Norte, por sua vez, houve a presença marcante de luta marajoara e o carimbó.

A Secretaria de Educação de Goiânia disponibiliza videoaulas que ajudam os professores a trabalharem jongo, e coco de roda com os alunos dentro do conteúdo de danças folclóricas e populares .

3. Ensine o jogo indígena Xikunahity (Povo Paresí)

Espécie de futebol usando a cabeça, este esporte é praticado pelos povos Paresis, Salumãs, Irántxes, Mamaidês e Enawenê-Nawês do Mato Grosso. Os alunos podem ser divididos em duas equipes de até dez pessoas em um campo com uma linha demarcatória no centro. A bola não pode ser tocada com as mãos, pés ou outra parte do corpo, mas pode tocar o chão, antes de ser rebatida pela outra equipe.

A Secretaria de Educação do Paraná disponibiliza um conteúdo para professores que explica as regras e rituais do jogo. Outro material de apoio é um vídeo criado pela graduação de educação física da Universidade Federal de São Carlos (Ufscar).

4. Convide os alunos a pesquisarem sobre o atletismo indígena

Disputas de corrida, lançamento e saltos fazem parte da cultura de diferentes povos indígenas e integram as modalidades dos Jogos Mundiais dos Povos Indígenas. Pereira indica ao professor dividir os alunos em grupos e solicitar que eles pesquisem como o atletismo é praticado pelas diferentes populações tradicionais. “Quem são esses povos, como utilizam as corridas e outras práticas, fazendo um link com o passado e com o presente do atletismo”, recomenda.

5. Traga brincadeiras africanas e afro-brasileiras

Debora Alfaia da Cunha e Cláudio Lopes de Freitas desenvolveram a Apostila Jogos Infantis Africanos e Afro Brasileiros (2010), na qual listam 27 brincadeiras de atenção, de correr, de força, de saltar, de audição, de cognição, de lançamento e cantadas.

Um exemplo é Terra-mar (Moçambique), onde o professor risca uma linha no chão delimitando “Terra” de um lado e “Mar” do outro. Todas as crianças iniciam do lado da terra. Ao ouvirem “mar”, pulam para o oposto e assim por diante. Quem pular para o lado errado sai e O último a permanecer sem errar vence. Há ainda sugestões da Tanzânia, Gana, Zaire, entre outros.

6. Aborde a capoeira e seus significados

A capoeira é uma expressão cultural e esporte afro-brasileiro desenvolvida no Brasil por descendentes de pessoas africanas escravizadas, provavelmente no século XVI. A prática foi criminalizada e perseguida nos séculos seguintes.

Nas aulas de educação física, é possível apresentar sua história e também explorar movimentos básicos como ginga, aú (estrelinha), meia-lua e esquivas baixa e alta. “Explique os valores e os significados presentes na capoeira e não a use apenas para desenvolver habilidades motoras, como agilidade em deslocamento e salto. Crie uma situação didática que apresente o modo exato como ela ocorre em sociedade, com a roda, instrumentos e movimentos, focando no que eles representam e na história de resistência dessa arte marcial”, lembra Júnior.

7. Explore o funk como manifestação cultural

O funk é uma manifestação cultural negra, periférica e com mais de cinco décadas de história que pode enriquecer as aulas de educação física. O professor da rede municipal de Belo Horizonte (MG) e doutorando em educação Izaú Gomes desenvolveu uma sequência didática que conta a história do funk e sua diversidade de ritmos por meio da dança, que pode inspirar outros professores.

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Esse conteúdo faz parte do especial “Educação decolonial”. Para acessar os outros materiais com abordagem decolonial, clique aqui.

Atualizado em 12/09/2023, às 12h47.

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