Da sigla LGBTQIA+, queer é um termo complexo e que ainda gera dúvidas. Isso porque remete a três assuntos que se inter-relacionam: a origem da palavra; seu uso nos estudos acadêmicos sobre relações de gênero (Teoria Queer) e, mais recentemente, para nomear uma identidade (ser queer).

Traduzido para o português como “estranho”, “esquisito” e “bizarro”, queer era o principal xingamento contra homossexuais e travestis nos Estados Unidos. “No Brasil, o termo equivaleria a bicha, sapatão e traveco”, compara o psicólogo especialista em gênero e sexualidade Bruno B. Andrade.

A epidemia da AIDS, na década de 1980, reforçou a marginalização dessas populações, primeiros alvos da doença e que não contaram com políticas públicas. “A partir dessas constatações, foi criada a organização ativista Queer Nation (Nação Queer), em 1990. A palavra de injuria passou a ser usada de maneira orgulhosa e afirmativa”, explica Andrade.

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Na mesma década, o termo queer – agora com novo valor — foi utilizado para designar os estudos nas universidades sobre as normas que regem as relações de gênero. “A teoria queer analisa dispositivos históricos de sexualidade e gênero que objetivam formar todos os seres humanos como cis-heterossexuais, para que organizem suas vidas em um modelo identitário apresentado como normal e natural”, resume Andrade.

Enfim, a identidade

Foi só recentemente que queer foi entendido como identidade. “Uma existência orientada pela teoria queer se coloca contra qualquer normalização e como diferente do que se espera socialmente. Orgulha-se de ser um dissidente sexual, de gênero e não se prender às identidades construídas e impostas pelo meio social”, diferencia Andrade.

“O Q é uma possibilidade de abertura, zona de múltiplas experimentações e de ser um corpo fora das obrigações sociais. Promove a suspeita constante da identidade fixa, autoritária e violenta”, resume a pesquisadora e poeta Tales D Millethus.

Tales D Millethus
Tales D Millethus se define “em estado de queerização”(crédito: acervo pessoal)

É o caso de Vans Dziudzik, de 31 anos, que se entende hoje como pessoa não-binaria – ou seja, que não se identifica com o gênero masculino ou feminino. “Aos 14 anos achava que era mulher cis e lésbica, mas as questões de gênero me incomodavam. Tentei compreender se era trans, mas não via sentido em virar a chave 180 graus e me tornar homem. Entender-me queer me apaziguou”, conta.

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Processo semelhante ao do artista visual Raphael Dumaresq, de 26 anos. “Foram muitas identificações antes de descobrir novos horizontes como queer. O termo me abraça por me colocar em um novo lugar de expressão de gênero e sexualidade”, afirma.

Raphael Dumaresq se identifica como queer
Raphael Dumaresq se vê como uma pessoa queer (crédito: acervo pessoal)

10 dúvidas sobre a letra Q

1. Queer é uma identidade?

“Todas as identidades são construídas. Então, se alguém se identifica como queer, ela existe e é válida. Mas não é consenso”, explica Andrade. “Isso porque dizer ‘eu sou algo’ torna a identidade fixa, autoritária, cristalizada, imutável e sem abertura ao contraditório. É o oposto de queer, que é trânsito e fluído”, diferencia Millethus, que se define “em estado de queerização”.

2. Quem se identifica com a letra Q pode ser outra letra da sigla LGBTQIA+ também?

Sim, porque a sigla reúne identidade de gênero (como transgêneros) e orientação sexual (como gays, lésbicas, bissexuais etc.).

3. Toda pessoa trans é queer?

Não, muitas se identificam dentro do binarismo: gênero masculino ou feminino. “Cada pessoa é única e lida com sua subjetividade de forma singular. Não dá para representar todas as experiências trans em um único corpo. O todo é uma ficção”, afirma Millethus.

4. Toda pessoa LGBTQIA+ é queer?

A dúvida se dá pela origem da palavra, que classificava como “estranho” todos que não eram cisgêneros e heterossexuais. Porém, há pessoas gays e lésbicas felizes com o que é considerado padrão. “Não basta dizer ‘sou bichinha’, mas submeter a identidade à crítica e refletir sobre ela”, opina Millethus.

5. Posso afirmar que alguém é queer?

“O que valida ser queer não é o olhar externo, mas como a pessoa se sente”, resume Vans.

Vans Dziudzik
Vans Dziudzik é uma pessoa não-binária (crédito: acervo pessoal)

6. Ser queer é moda?

Não. Enquanto a divisão entre gênero masculino e feminino proliferou na cultura europeia, corpos não-binários estiveram presentes em outras culturas. Caso das muxes, no México; aravanis, na Índia, entre outros. “Entender exige descolonizar o olhar”, orienta Millethus.

7. Como me dirigir a uma pessoa queer?

Como muitas são gênero fluído e não-binárias, o ideal é perguntar sobre quais artigos e pronomes elas gostariam de ser tratadas. “Se errar, desculpe-se sem fazer estardalhaço por isso, evitando provocar desconforto”, ensina Millethus. “Respeite sempre aquilo que a pessoa queer pede e comunica”, sinaliza Dumaresq.

8. Cultura drag queen é queer?

“A drag queen ou o drag king (mulheres que assumem persona masculina) usam a paródia para rir dos códigos de gênero, mostrando que eles são artificiais”, diz Millethus, que afirma também que a cultura drag foi importante para os direitos LGBTQIA+, com transformistas liderando a Revolta de Stonewall.

9. E o reality show “Queer eye for the straight guy”?

Este surgiu em 2003 com cinco homens cisgêneros gays aconselhando heterossexuais sobre moda e cultura. O uso do “queer” no título era mais sobre dar um significado afirmativo àquele antigo xingamento contra gays, não representando uma identidade queer. Porém, reforçou o entendimento de que qualquer pessoa LGBTQIA+ é queer por essência. Atualmente, o remake possui uma pessoa queer não-binária, Jonathan Van Ness.

10. Tudo o que você leu nessa matéria pode mudar?

Sim, as discussões estão em evolução e, como os entrevistados reforçam, não pretendem permanecer estanques. Além disso, cada pessoa queer é única em sua experiência e visão de mundo, com opiniões divergentes. “Se há homogeneidade, está longe do queer”, finaliza Millethus.

Esta reportagem faz parte do especial LGBTQIA+. Confira outras letras da sigla explicadas!

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