Lorraine Arantes, de 42 anos, é uma mulher trans e foi forçada a abandonar os estudos no ensino médio. “Apanhei inúmeras vezes na escola e era isolada pelos colegas. Professores e direção não sabiam como lidar comigo, a ‘bichinha’. Eles ficavam sem reação nas agressões”, relata. “Fui expulsa de casa aos 16 anos. Na rua, deixei os estudos de vez”, conta. Duas décadas depois, Lorraine voltou aos bancos escolares pela Educação de Jovens e Adultos (EJA), modalidade de ensino que permite a conclusão do ensino fundamental e médio.

O encaminhamento foi realizado via programa Transcidadania, criado pela prefeitura de São Paulo em 2015 e que oferece bolsa de estudos a pessoas transgêneras em vulnerabilidade social. Assim, a EJA tem sido uma oportunidade para abrir caminhos para o ensino superior e oportunidades de trabalho para essa população.

A história de Natasha Clemente Alves, também de 42 anos, é bem parecida com a de Lorraine. “Deixei o colégio na sétima série. Quando soube da EJA, eu me perguntei: velha como estou, como voltarei a estudar? Achava que seria criticada por todos, mas foi o contrário”, compartilha. “Após a EJA, senti também uma mudança por parte da minha família, que não me valoriza por ser travesti, fazer programa e não ter estudos”, desabafa Natasha. As duas estudantes moram no centro de acolhida para mulheres trans de São Paulo (SP), Casa Florescer. A instituição tem uma parceria com uma escola de EJA no bairro do Cambuci.

A experiência escolar é igualmente difícil para homens trans como o bartender Cláudio Rafael Galícia Neto, de 48 anos. “Eu desconhecia quem eu era durante a escola e não havia a nomenclatura ‘trans’. João Nery e Roberta Close [personalidades transgêneras pioneiras] eram referências distantes. Achava que era uma lésbica masculina e única no mundo”, relembra.

Leia mais: Acolhidos por alunos, professores trans relatam discriminação por colegas

“Com tantos tabus, não conseguia focar nos estudos e as pessoas na escola me julgavam por ser quem era. Não aguentei a pressão e sai aos 16 anos”, conta. O retorno na EJA foi realizado pelo Transcidadania e ele passou a frequentar uma escola no centro de São Paulo. “Professores, direção e funcionários me trataram como um ser humano e foram respeitosos. Usavam meu nome social”, relata.

Depois de formado, Cláudio passou em segundo lugar em um tecnólogo de Turismo. “Conhecimento nunca é demais e nos ajuda a pensar, a reivindicar direitos, qualificar para empregos melhores e sonhar. Ainda cursarei uma faculdade de gastronomia”, compartilha.

Lugar de resistência

Coordenador da Casa Florescer, Alberto Silva vê na EJA uma oportunidade de acesso à cidadania pela pessoa trans. “Apesar de a educação ser direito, ela é negada a pessoas trans devido à sua identidade de gênero e por razões socioculturais e religiosas. A EJA permite a retomada dos estudos com respeito à existência dessas pessoas, o que é fundamental”, enfatiza.

Professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e pesquisador da modalidade, Luiz Carlos Carvalho Siqueira classifica a EJA como uma educação de resistência. Nem todas as escolas, porém, estão preparadas para acolher a pessoa trans. “Faltam estudos para traçar um panorama e políticas públicas para essa população. Nas pesquisas, percebo a necessidade urgente das redes de ensino dialogarem e planejarem uma atuação que promova o respeito à diversidade de gêneros e sexualidades”, analisa.

Além de vivenciar problemas comuns da educação do país, a EJA tem outros específicos, como a necessidade de formação continuada para professores e diretores que receberão alunos transgêneros. “A interseccionalidade constitui o aluno da EJA. Assim, o educador precisa ampliar a percepção das identidades de gêneros, sexualidades, raça e etnia, territorialidades, diferentes gerações, entre outros, na sua prática educativa”, afirma Siqueira.

Evasão escolar

Se não for acolhida na EJA, a pessoa trans pode novamente ser expulsa da educação formal. “Há inseguranças de diversas ordens: o trânsito para a escola em segurança; caminhar e usufruir dos espaços e equipamentos escolares; conflitos com professores ou gestores com valores religiosos e políticos fundamentalistas, muitas vezes, velados”, lista o professor.

Para os estudantes, outro desafio são os colegas. “Alguns me olhavam torto. Mas alunos que por ventura eram preconceituosos tinham que conviver com a gente”, diz Cláudio Rafael Galícia Neto. “Há pessoas na classe que respeitam por obrigação, mas acabam soltando uma piada de mau gosto”, afirma Lorraine Arantes.

Veja mais:

Como alunos e alunas transgêneros se sentem na escola?

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