Leonardo Valle

O mercado de trabalho brasileiro ainda fecha suas portas para os profissionais transgêneros, empurrando essa população para situações de vulnerabilidade social e, não raro, fazendo com que tenham na prostituição sua única fonte de renda. Pois no campo das artes, o mesmo princípio acontece. Além de não serem escalados para viverem personagens cisgêneros, esses atores e atrizes também são preteridos na hora de interpretar papéis de pessoas trans.

“Antes de ser respeitada como artista, serei vista como travesti”, explica a atriz e pesquisadora Renata Carvalho. “Muitos acreditam que não seremos capazes de humanizar a história, restando papéis estereotipados ou secundários. Há ainda o fato de personagens trans impulsionarem a carreira de artistas cisgêneros, e de muitos acreditarem que apenas abordando a transgeneridade em uma peça ou filme estão combatendo a nossa marginalização. Mas se continuamos sem emprego e excluídos dos lugares de representação, essa atitude está, na verdade, contribuindo para isso”, contextualiza.

Pesquisando a representatividade de transgêneros nas artes desde 2007, Carvalho teve contato com um depoimento da atriz e musicista Claudia Wonder sobre outra artista trans, Thelma Lipp. Esta chegou a ser escalada para interpretar a travesti Lady Di no filme Carandiru (2003) e a participar de ensaios, mas foi substituída de última hora por Rodrigo Santoro. Deprimida e sem emprego, Lipp teve uma recaída na dependência química e morreu no ano seguinte.

“Claudia e Thelma desejavam trabalhar com o Sindicato dos Artistas para que trans tivessem preferência em papéis trans. Decidi retomar essa pauta”, revela.

Ao lado de nomes como Léo Moreira Sá e Leona Jhovis, Carvalho fundou o Movimento Nacional de Artistas Trans (Monart) e lançou o manifesto “Representatividade Trans, Já! Diga sim ao talento trans”. O documento pede o fim do trans fake – a representação de personagens trans por atores cisgêneros.

Atriz Renata Carvalho pesquisa a representatividade de transgêneros nas artes desde 2007 (crédito: Lenise Pinheiro/reprodução Facebook Renata Carvalho)

 

“Nosso objetivo é fazer um acordo com toda a classe artística para que, durante 30 anos, os papéis de personagens trans sejam dados a nós. Com certeza, nesse período, deixaremos de ser o país que mais mata transgêneros e cuja segunda causa de morte é o suicídio”, lamenta.

“O corpo trans ainda é criminalizado, folclorizado e sexualizado pela sociedade, além de ser retratado pela mídia e pelas artes de forma estereotipada, caricatural, errônea, o que colabora para a sua marginalização. A nossa presença somente será naturalizada, e nossa identidade humanizada, quando estivermos em todos os lugares e espaços”, justifica.

Promovendo mudanças

O manifesto do Monart, contudo, tem enfrentado resistência. Nos debates em que Renata Carvalho participa, artistas brancos e cisgêneros costumam acusar o movimento de “censura” ou afirmar que “na arte pode tudo”.

“Quem ‘pode tudo’ nas artes é o branco e cisgênero, tido como um modelo universal. Ele não se dá conta do privilégio que tem. Essa liberdade não se estende aos atores transgêneros. Mas você está liberto quando o outro não está? Será que a exclusão não fere a liberdade artística também?”, questiona.

“No dia em que não for necessário diferenciar os artistas, quando virmos pessoas trans interpretando personagens cis, poderemos dizer que o ator não tem sexo”.

Em contrapartida, o manifesto promoveu mudanças significativas no mundo teatral. Peça aclamada pela crítica e público desde sua estreia, em 2011, “Luis Antonio – Gabriela”, da Cia Mungunzá, conta a história da irmã do diretor Nelson Baskerville, a travesti Gabriela. Após sete temporadas, o ator Marcos Felipe, que interpreta a protagonista, passou a dividir o papel com a atriz travesti Fábia Mirassos. Esta se torna Gabriela quando a personagem assume a transição de gênero.

Atores Marcos Felipe e Fábia Mirassos no espetáculo Luis Antônio – Gabriela. Após ouvir as reivindicações de movimento, companhia integrou atriz trans no elenco (crédito: reprodução Facebook Marcos Felipe)

 

“A peça foi pioneira por abordar o assunto, e foi um dos alvos de críticas da Monart. Ficamos na defensiva a priori, por entender que o espetáculo tinha ajudado de forma indireta, fazendo muitas pessoas reverem seus preconceitos. Porém, temos o compromisso, como companhia, de fazermos um teatro vivo e em diálogo com a sociedade. Não poderíamos ignorar essa pauta”, diz Felipe. “Percebemos que representatividade é importante, sim”, completa.
O Monart comemorou a iniciativa. “É o teatro se alargando para caber todos”, lembra Carvalho.

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Crédito da imagem principal: João T.K. (reprodução Facebook Renata Carvalho)

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