Geopolítica é o estudo das relações entre poder, território e política internacional, analisando como esses fatores influenciam e são influenciados pelas dinâmicas globais.

Doutorando e pesquisador do ensino de geografia por meio da linguagem cinematográfica na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Daniel Moreira explica que a geopolítica nasce como uma tentativa de estabelecer cientificamente e racionalmente justificativas para um país expandir seu território e dominar outros.

“Ou seja, ela nasce no final do século XIX na tentativa de dar sentido para a guerra, com os países trazendo justificativas – como necessidade de território para uma população em expansão, fontes de energia etc.”, explica.

Na educação básica, o assunto aparece de modo transversal em disciplinas como geografia, história e sociologia nos anos finais do ensino fundamental e no ensino médio. Além de ser um conteúdo bastante cobrado no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem).

“Nos anos finais, são ensinados questões e conflitos regionais, como África, China, Japão e Oriente Médio. Já no ensino médio, são aprofundadas questões sobre geopolítica. Isso porque entender o tema exige do aluno conhecimentos prévios, como saber identificar cartograficamente países, saber sobre globalização e distribuição de recursos”, aponta o docente.

Relação com o cinema

A relação entre geopolítica e cinema também é antiga aponta Moreira. “Estados Unidos, União Soviética e Alemanha são países que foram imperialistas e usaram o cinema como parte da sua estratégia de expansão. Seja por meio de peças publicitárias que o governo americano produzia para passar no cinema e informar a população sobre suas conquistas na Segunda Guerra Mundial, seja como obras como o filme ‘O Encouraçado Potemkin’ (1925), sobre um motim de marinheiros russos. Cada um deles defendendo seu viés ideológico”, destaca o pesquisador.

“O cinema, ainda hoje, é um instrumento fundamental para as grandes nações que desejam aumentar sua relevância geopolítica e aproximar o resto do mundo em relação às coisas que se passam em seu território. Um exemplo recente é o investimento da Coréia do Sul na sétima arte”, lembra.

Escolhas intencionais

Na hora de usar filmes para ensinar geopolítica, Moreira recomenda aos professores não se prenderem apenas na história, mas se atentar, junto aos alunos, a artifícios estéticos usados pelo diretor para retratar determinados países, regiões e figuras de autoridade. Isso vale para posicionamento da câmera, uso de filtros e de cores predominantes, escolhas sobre o figurino e cenário, entre outros.

“Por exemplo, filmes dos Estados Unidos utilizam um filtro azul ao se retratarem na tela, o que transmite sobriedade e tranquilidade. Já para retratar o Oriente Médio e México usam uma fotografia amarelada que dá a impressão de estes serem lugares áridos e pobres”, compartilha.

“São espectros de cores opostos, e é possível discutir a intencionalidade disso”, analisa.

Moreira aponta abaixo seis filmes e 1 série que podem ser usados pelos professores no ensino de assuntos vinculados à geopolítica na educação básica.

A Queda! As últimas horas de Hitler (2004)

Passado durante a Batalha de Berlim, no contexto da Segunda Guerra Mundial, o filme retrata os últimos instantes do líder no nazismo Adolf Hitler em meio à iminente derrota da Alemanha.

“O filme é construído a partir do olhar de uma secretária que ali trabalhava e retrata Hitler tentando organizar politicamente o que não existe mais, enquanto os soviéticos avançam sobre Berlim”, apresenta Moreira. “Enquanto nos filmes publicitários da Alemanha nazista a câmera se posicionava de baixo para cima, na intenção de dar um ar de superioridade a ele, nesse filme ocorre o inverso e há muitas cenas de close que demonstram sua fragilidade”, explica o docente. Classificação indicativa: 16 anos.

Roma, Cidade Aberta (1945)

Durante os anos de 1943 e 1944, Roma (Itália), sob ocupação nazista, é designada como cidade aberta para prevenir ataques aéreos. Nesse período, comunistas e católicos se unem para resistir contra as forças alemãs e fascistas. “O diretor vai às ruas para filmar como ficou Roma após a guerra, com pessoas passando fome e frio”, comenta Moreira. Classificação indicativa: 16 anos.

Adeus, Lenin (2003)

Na Alemanha Oriental, Alexander Kerner assiste ao infarto de sua mãe, uma comunista militante. Ela desperta um ano após a queda do Muro de Berlim. Porém seu filho tenta disfarçar que nada mudou, temendo que o choque a mate. “A obra trata do avanço capitalista e as mudanças que isso trouxe”, destaca Moreira. Classificação indicativa: 14 anos.

American Factory (2019)

Aborda a aquisição de uma fábrica da General Motors por uma empresa chinesa nos Estados Unidos, destacando as diferenças culturais sobre a forma de se trabalhar e os conflitos trabalhistas. Com isso, gera um debate sobre globalização e direitos dos trabalhadores em meio à guerra comercial entre as duas potências mundiais. “Há uma tendência a pensar que geopolítica se trata apenas de guerras, mas o conflito pode ser indireto, como mostra esse documentário. O poder geopolítico é exercido nos detalhes”, avalia Moreira.  Classificação indicativa: 12 anos.

O Encouraçado Potemkin (1925)

Em 1905, na Rússia czarista, ocorreu um levante precursor da Revolução de 1917, desencadeado a bordo do navio de guerra Potemkin. Os marinheiros, cansados de maus-tratos e alimentação inadequada, são ameaçados de execução pelos oficiais e decidem se rebelar. “Clássico do cinema mudo e da propaganda soviética, mostra como o poder russo se estabelece a partir de uma revolução”, lembra o pesquisador. Classificação indicativa: 14 anos.

Fauda (2015)

Aborda os dois lados do conflito entre Israel e Palestina. Um líder das forças especiais de Israel adentra em territórios palestinos para buscar um combatente do Hamas, que também luta para proteger sua família e escapar da opressão imposta pelo Estado de Israel. “Não penso que uma produção cinematográfica conseguirá retratar com precisão os dois lados do conflito. Falda é israelense e não é isenta, porém coloca em dúvida a atuação de ambos os lados”, analisa Moreira. “Além disso, vai além do conflito bélico para mostrar o impacto dele nas relações”, completa. Classificação indicativa: 16 anos.

Syriana – A Indústria do Petróleo (2006)

O filme segue um esquema de corrupção relacionado ao petróleo que vai dos Estados Unidos ao Oriente Médio, envolvendo empresários, industriais, espiões, príncipes, políticos e terroristas. “Mostra a complexa relação do domínio dos Estados Unidos e Europa com suas bases militares no oriente médio”, explica Moreira. Classificação indicativa: 14 anos.

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Crédito da imagem: Reprodução – Oliver Hirschbiegel – Constantin Film, Norddeutscher Rundfunk (NDR), Westdeutscher Rundfunk (WDR)

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