A exibição de filmes ainda sofre preconceito na escola, sendo associada a mero entretenimento ou atividade “tapa-buraco”. Em contrapartida, muitas são as possibilidades para aprendizagem quando a exibição de um filme, documentário, curta-metragem ou série é realizada com intencionalidade pedagógica.

Para orientar professores da educação básica sobre como planejar e exibir uma produção audiovisual, pedimos orientações para dois especialistas: a doutora, formadora de professores pela Universidade de São Paulo (USP) e fundadora do Coletivo Janela Aberta – Cinema e Educação, Cláudia Mogadouro; e o doutorando e pesquisador de metodologia de ensino de Geografia por meio da linguagem cinematográfica, pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Daniel Moreira de Souza. Confira abaixo algumas dicas valiosas.

1. Encontre um verbo que traduza seu objetivo com o filme

Exibir um filme para a turma exige um objetivo claro. O professor pode tentar traduzi-lo por meio de um verbo. “O objetivo pode ser, por exemplo, o aluno analisar, relacionar, associar, compreender um ou mais conceitos. Com o objetivo bem desenhado, é possível construir um plano de ensino antes da exibição”, afirma Souza.

2. Veja o filme (muitas vezes) antes de exibi-lo

Deixar para assistir ao filme pela primeira vez com os alunos é uma prática equivocada, sem planejamento e contribui com o preconceito do cinema em ambiente escolar. “É preciso se apropriar do filme: assistir mais de uma vez e, após isso, ler críticas. Algumas irão de encontro com a opinião do professor, outras não”, ensina Mogadouro. “Evite apenas ler as críticas antes de ver o filme, para não direcionar o seu olhar”, acrescenta.

Apropriar-se do filme também vale quando a sugestão é realizada pelos alunos. “O professor deve assisti-lo antes para ser mediador daquela experiência e proporcionar um conhecimento qualificado”, diz Mogadouro.

3. Avalie a funcionalidade do filme

Às vezes, há um objetivo claro mas o filme escolhido não é funcional. “Ele pode ser maior do que o tempo de aula, exigindo cortes e interrupções. Outros possuem um ritmo lento para o público de hoje, que é bombardeado com narrativas mais velozes.

A experiência de um filme que o professor assistiu quando adolescente não será a mesma pela geração de hoje”, compara Mogadouro. “Dependendo do objetivo e da funcionalidade, um curta-metragem pode ser melhor do que um filme longo”, completa.

4. Lembre-se de que filme não é realidade

O objetivo de exibir um filme não deve ser ‘mostrar a realidade’ de uma situação ou país. “O filme pode se basear em fatos reais, mas não é a realidade. É uma obra de arte e uma mediação da realidade”, diferencia Souza.“Mesmo um documentário, que trará depoimentos reais, é um recorte e um ponto de vista. Depoimentos contraditórios podem ter ficado de fora”, exemplifica Mogadouro.

Para ajudar nessa compreensão, a formadora indica exibir dois documentários com visões diferentes sobre o mesmo tema ou o curta “Recife Frio” (2009), de Kleber Mendonça Filho, que aborda a construção da realidade pelo audiovisual.

5. Trate-o como obra de arte

Filme não é um recurso didático de primeira ordem. “Ou seja, não foi feito para aquela disciplina, ainda que dialogue com o currículo”, lembra Mogadouro. “Como obra de arte, ele tem uma dimensão maior do que recurso didático. Assim, quanto mais você explorar todos os seus elementos, mais rica a aula será”, explica.

6. Explore as informações contraditórias

Filmes, ainda que baseados em fatos reais, podem não ser verossimilhantes e trazer informações contraditórias. Estas não devem ser ignoradas e podem ser exploradas em aula. “O filme tem liberdade artística de ficção e isso não prejudica a sua contribuição”, diz Mogadouro. “O professor pode extrair um debate interessante de todo filme, ainda daqueles que discorde da abordagem do diretor”, garante.

Leia também: 7 links para orientar o uso pedagógico do cinema em aula

7. Esteja presente na hora da exibição

“O que está por trás de deixar os alunos sozinhos na exibição é a ideia equivocada de que o filme em si é o conteúdo, que ele substitui a aula e que o aluno assimilará o que o professor espera”, descreve Mogadouro. “Obras de artes permitem interpretações diversas. O conhecimento e a experiência transformadora dependem do debate que se fará a partir deles”, completa.

“A ausência do professor já demonstra de cara desinteresse e o aluno pode entender a atividade como tapa-buraco, desmotivando-se”, pontua Souza. O pesquisador sugere ainda ao professor se atentar às reações e emoções dos alunos em determinadas partes, que poderão ser abordadas nas rodas de conversa pós-exibição.

8. Antes de exibir, evite direcionar o olhar do aluno

Souza recomenda uma pré-exposição sobre o filme antes de exibi-lo e um debate após. “Faça uma breve introdução e evite direcionar o olhar do aluno, para que ele possa fazer suas próprias inferências antes do debate e estimular seu pensamento crítico”.

“A introdução não permite spoiler, mas pode-se falar um pouco do diretor, o que ele já fez, sobre o ano em que o filme foi realizado, se há piadas neles que eram aceitáveis no passado e hoje não mais”, indica Mogadouro.

9. Apresente o filme como um ritual

Exiba o filme em sala escura, com alunos confortáveis e em ambiente silencioso e sem interferências. “Assim, os alunos mergulham na narrativa e vivenciam os sentimentos dos personagens, o que é fundamental para a relação de ensino e aprendizagem”, destaca Souza. “Quando se faz esse ritual, fica claro que o cinema na escola não é uma banalização, que não será uma aula como as outras”, justifica Mogadouro.

10. Interromper o filme ou não?

Os especialistas recomendam evitar. “Isso tira o adolescente e a criança da imersão e compromete a retomada da atenção”, explica Souza.“Ficar destrinchando o filme ou parando para comentar pode tirar o encantamento da obra de arte, prejudica a experiência de cinema e o aluno pode achar chato”, analisa Mogadouro.

Para Souza, o ideal é, ao final do filme, o professor reexibir cenas que ele queira analisar e discutir mais profundamente. Porém, pode haver exceções sobre “parcelar” o filme em mais de uma aula. “Dependendo da curva dramática do filme e do tempo de aula, ele pode ser quebrado em partes. Mas nem todo o filme possibilita isso. Caso contrário, os curtas-metragens são melhores opções”, avalia Mogadouro.

11. Explore não somente o conteúdo, mas a forma

Os professores tendem a se focar na narrativa, mas os elementos audiovisuais também transmitem informações sobre a história e que contribuem com o conteúdo curricular destacado. Além disso, estimulam olhares críticos sobre como a realidade é recriada no audiovisual – habilidade fundamental inclusive para se proteger de fake news .

“O professor pode buscar um pouco de conhecimento sobre montagem, direção de arte, enquadramento, trilha sonora, figurino, roteiro e sobre como os personagens são colocados em cena (mise-en-scène)”, sugere Souza. “Ele pode ler críticas sobre o filme, que sempre trazem alguma informação curiosa sobre esses elementos”, indica Mogadouro.

Souza lembra, por exemplo, que os personagens pobres apareciam descendo no filme Parasita, ao contrário dos ricos, exibidos em cena subindo. “Quando o filme quer mostrar um personagem pouco confiável, ele pode usar roupas maiores do que seu tamanho”, exemplifica.

12. Explore elementos audiovisuais também com intenção pedagógica

“O professor não precisa ser expert em enquadramento, mas tentar identificar como este ajuda a explicar o conteúdo curricular que ele quer abordar”, explica Souza. “Por exemplo, se estou abordando geopolítica e o personagem do presidente dos Estados Unidos é sempre filmado no centro da cena, quando os de países africanos parecem nos cantos, o enquadramento ajuda a apontar qual país tem mais poder geopolítico naquela narrativa e fora dela”, exemplifica.

13. Abandone o “verdadeiro ou falso”

Uma obra de arte permite diversas interpretações, algo que nem sempre a escola está acostumada a trabalhar. “Ainda há a ideia de que o aluno precisa entender ‘a mensagem do filme’, ou de que uma coisa é ‘verdadeira ou falsa’. Quando, na realidade, são muitas as mensagens que podem ser captadas, e estas dependem da faixa etária, classe social e repertório de cada professor e aluno”, reforça Mogadouro.

14. Escute o que os alunos têm a dizer

No pós-exibição, mais do que falar, o professor pode escutar a opinião e percepção de cada aluno. “O professor é o mediador da atividade e tem seu objetivo, porém, não precisa estabelecer um fechamento. Os alunos trazem coisas que também nos fazem pensar”, diz Souza.

“Se na roda de conversa após exibição fílmica o professor conseguir que o aluno entenda que a forma como ele viu o filme é diferente de seus colegas e está tudo bem, já tivemos um ganho de aprender a ouvir e a respeitar a opinião do outro”, completa Mogadouro.

15. Faça um exercício de trilha sonora

Após a exibição, para ajudar os alunos a entenderem a função da trilha na montagem do filme, Mogadouro indica o exercício de exibir cenas de romance e ação sem a trilha sonora. Depois, reexiba as mesmas com a música e discuta as percepções deles nos dois momentos.

16. Exiba os créditos do filme

Ainda que os alunos fiquem inquietos, tal ação ajuda a reforçar que um filme é um produto cultural com diversas pessoas envolvidas. “Para uma leitura crítica do audiovisual, não basta apenas conhecer cinema, mas perceber que é uma narrativa montada. Passar os créditos ajuda a mostrar quantas pessoas trabalham, quantos agradecimentos são feitos para quem ajudou na obra, entre outros”, finaliza Mogadouro.

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