Em 19 de junho de 1898, o cinegrafista italiano Affonso Segretto filmou sua chegada ao Rio de Janeiro (RJ). Batizada de “Uma vista da Baia de Guanabara”, o material se perdeu no século seguinte. Contudo, a data foi utilizada para a comemoração do Dia do Cinema Brasileiro. Para a mestre em educação Elisandra Angrewski, os longas e curta-metragens nacionais podem ser uma excelente ferramenta pedagógica, principalmente, no ensino de sociologia – tema que pesquisou em sua dissertação. Além disso, seu uso está em sintonia com a Lei n° 13.006, de junho de 2014, que tornou obrigatória a exibição de filmes nacionais por, no mínimo, duas horas mensais nas escolas.

“No que se refere à sociologia, os documentos oficiais orientadores não descartam a possibilidade do cinema como ferramenta capaz de auxiliar no ensino dos temas, conceitos e teorias. Isso porque, no ambiente escolar, as experiências sociais com o conhecimento são vivenciadas pelos jovens a partir das referências culturais que possuem”, explica.

“Por meio de um filme, pode-se observar, nos seus personagens, a distribuição dos papéis sociais e os esquemas culturais que identificam os seus lugares na sociedade, além das lutas, reivindicações e desafios no enredo e os diversos grupos e movimentos envolvidos nessas ações. Também é possível analisar o modo como aparecem representadas a organização social, as hierarquias e as classes sociais, e outros detalhes mais”, exemplifica.

Confira, a seguir, seis filmes brasileiros que podem ser utilizados nas aulas de sociologia.

Aquarius

Drama, Suspense. Brasil/França. 2016. 145 min. Cor. Direção: Kleber Mendonça Filho. Classificação indicativa: 16 anos.
Clara tem 65 anos, é jornalista aposentada, viúva e mãe de três filhos adultos. Ela mora em um apartamento localizado na avenida Boa Viagem, em Recife (PE), onde criou seus filhos e viveu boa parte de sua vida. Interessados em construir um novo prédio no espaço, os responsáveis por uma construtora conseguiram adquirir quase todos os apartamentos do edifício, menos o dela. Ao deixar claro que não pretende vendê-lo, os interesses de Clara entram em conflito com os interesses do mercado. “As relações de poder que se estabelecem a partir dos conflitos entre o velho e o novo e do interesse em manter o status quo da protagonista, conceitos de vizinhança, sociedade e família, podem ser abordados a partir desta obra”, lista a educadora. “Representações de gênero e como a sociedade cria os diferentes papéis sociais e comportamentos relacionados aos homens e às mulheres também podem ser trabalhados”, acrescenta.

Bicho de Sete Cabeças

Drama. Brasil. 2000. 80 min. Cor. Direção: Laís Bodanzky. Classificação indicativa: 14 anos.
Neto é um adolescente que leva uma vida normal, até o dia que o pai o interna em um manicômio depois de encontrar um baseado no bolso de seu casaco. “A instituição familiar e as instituições totais podem ser temas a partir desta obra”, recomenda a pesquisadora. “O trecho da internação de Neto que acontece logo no início do filme, por exemplo, revela como a linguagem cinematográfica tem papel fundamental na construção de significados, pois a posição da câmera determina a importância dos papéis sociais dos personagens. Exemplo disso é o diálogo entre pai e filho no quarto, em que a câmera se posiciona de maneira a tornar o pai superior, ao mesmo tempo em que o filho aparece inferiorizado”, orienta.

Cronicamente inviável

Drama. Brasil. 2002. 101 min. Cor. Direção: Sérgio Bianchi. Classificação indicativa: 16 anos.
As relações entre frequentadores, proprietários e empregados de um prestigiado restaurante de São Paulo descortinam uma ácida visão da crise brasileira. “Entram em foco as mais surpreendentes situações de aproximação e conflito entre diferentes raças e classes sociais, de várias regiões do país, revelando, sem qualquer concessão, a impossibilidade de uma cultura nacional homogênea”, analisa Angrewski.

O cárcere e a rua

Documentário. Brasil. 2004. 80 min. Cor. Direção: Liliana Sulzbach. Classificação indicativa: 12 anos.
Esse documentário narra a história de três mulheres reclusas da penitenciária Madre Pelletier, em Porto Alegre (RS). Contudo, seus destinos tomarão caminhos diferentes. “Instituições de reinserção e seu papel na sociedade podem ser abordados a partir deste documentário”, indica a professora.

O pagador de promessas

Drama. Brasil. 1962. 95 min. Cor. Direção: Anselmo Duarte. Classificação indicativa: livre.
A história se passa na década de 60 e começa com uma promessa. Zé do Burro pede que Santa Bárbara salve seu burro, que fora ferido durante uma tempestade. Como na cidade não havia uma igreja dedicada à santa, a promessa foi feita em um terreiro de candomblé. Os problemas e conflitos surgem no decorrer da tentativa de pagamento da promessa. “Diversidade cultural, instituições religiosas, conflito entre o urbano e o rural e modernização são algumas temáticas que, associadas aos conceitos e teorias sociológicas, podem ser abordadas a partir desta obra”, aponta.

Cabelo Bom

Documentário. Brasil. 2016. 15 min. Cor. Direção: Swahili Vidal e Claudia Alves. Classificação indicativa: 10 anos.
Curta-metragem de documentário que mostra como o cabelo crespo de três jovens mulheres é parte fundamental de suas vidas – e como são capazes de contar histórias de preconceito, autoaceitação, libertação, tomada de consciência e afirmação de identidade. “A obra permite o trabalho relacionado à cultura compreendida como um fenômeno histórico, socialmente construído, revelando que a cultura não é natural, mas composta de comportamentos aprendidos que diferem no tempo e no espaço social”, explica Angrewski.

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