A presença da colonialidade é impactante na geografia, uma vez que sua própria estruturação como ciência está relacionada ao contexto histórico colonial. “Ela se sistematiza em um contexto de transição de estruturas feudais para a constituição dos estados-nações europeus, os primeiros nos moldes que conhecemos atualmente”, explica o doutor em geografia pela Universidade de Brasília (UnB) Rodrigo Capelle Suess. Por esse motivo, ensinar a disciplina de forma decolonial e saindo da visão eurocêntrica é um desafio para os professores do ensino básico.

“A geografia enquanto ciência começou na Alemanha, após as potências europeias terem despontado à frente no domínio colonial do mundo” destaca a doutora em geografia pela UnB Alcinéia de Souza Silva. Nesse aspecto, ela acrescenta que a geografia surge para atender a objetivos territoriais. “A origem de diversos conceitos geográficos se associa a uma geografia que servia de instrumento de dominação de um estado frente a outras nações”, complementa o professor de geografia Fábio Costa Rodrigues.

A ideia de Estado-Nação alinha as estruturas de Estado – como política, governo e território – com os aspectos de nacionalidade, como uma suposta identidade nacional. “No caso, também resulta da exclusão oficial da história e geografia de grupos minoritários de poder, como povos originários, mulheres, negros, mestiços, LGBTQIA+ e outras vozes dissonantes”, pontua Silva. “Como resultado, cria uma visão de mundo homogênea e pouco plural que ainda reflete nos bancos escolares”, explica a mestra em geografia pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU) Tatiane Regina.

Pluralidade de modelos

Assim, entre os desafios de trabalhar a geografia dentro de uma perspectiva decolonial está o fato de os próprios registros históricos e conceitos terem sido formulados com base no eurocentrismo. “Essa régua que mede o mundo de hoje é eurocêntrica. Estamos habituados a reproduzi-la em sala de aula. Os grandes acontecimentos da Humanidade que estudamos têm como ponto em comum a Europa. Isso transmite a ideia de que tudo o que não passou pelo Norte Global é inferior”, opina Rodrigues

Outro ponto é a formação de professores de geografia. “O currículo de formação docente é eurocêntrico. Não temos, por exemplo, geografia de sexualidade, étnico-raciais ou brasileira”, pontua Regina. Há muitos exemplos do colonialismo na geografia escolar. Um deles são os livros didáticos que trabalham conceitos de desenvolvimento, apenas tendo a Europa como referência e excluindo experiências realizadas na África ou América Latina.

“O colonialismo se faz presente no ensino de geografia quando se constrói com os estudantes a noção de que existe somente um modelo de desenvolvimento, excluindo outras possibilidades e desconsiderando a pluralidade de vozes”, denuncia Suess. Ele e Silva são autores do artigo “A perspectiva decolonial e a (re)leitura dos conceitos geográficos no ensino de geografia” (2019).

A seguir, confira 12 formas de introduzir e trabalhar o pensamento decolonial na geografia escolar.

1) Apresentar autores locais aos alunos

É importante resgatar autores que saiam do eixo do Norte Global. “Por exemplo, se for ensinar sobre Ásia, trazer autores e perspectiva asiáticas. O mesmo vale para o momento de ensinar conteúdos sobre América Latina, África ou Oriente Médio”, indica Silva.

O educador pode usar a mesma perspectiva para tratar de grupos excluídos do discurso oficial branco e europeu, como os povos originários. Rodrigues indica trabalhar o pensador indígena Ailton Krenak. “Ele narra outras possibilidades de se relacionar com o território. Por exemplo, uma perspectiva do rio não como transporte e retirada de água, mas com o qual se trava uma relação íntima, cultural e harmônica”, justifica Rodrigues.

“Trazer outras vozes mostra aos alunos que os conhecimentos empíricos dos povos indígenas podem andar ao lado do conhecimento científico dos bancos escolares”, completa. Segundo o professor, uma possibilidade também é trazer lideranças de povos tradicionais locais para conversar com a turma.

2) Identificar o papel que a América exerceu e exerce no mundo

“Foi a partir da exploração da América que a Europa, especificamente a Europa Ocidental, se fez”, pontua Silva. “Atribua mais relevância ao estudo da América nos conteúdos de geografia, relacionando-o com outras temáticas como globalização, integração latino-americana, urbanização, concentração fundiária, história dos afrodescendentes e valorização dos povos indígenas e camponeses”, orienta.

3) Desmitificar a Europa como centro do mundo

“Inclusive nos mapas e representações geográficas e cartográficas”, salienta Suess. Para Rodrigues, o professor não precisa deixar de apresentar a visão hegemônica e mais conhecida dos mapas, mas deve mostrar também cartografias que tenham a América como referência.

4) Considerar o conceito de raça como categoria de dominação

“Use-o para analisar conteúdos como a geografia do Brasil e a geopolítica mundial, com estaque para a América. É importante explicar como a categoria de raça tem sido utilizada para justificar as razões apresentadas para as conquistas e novas distribuições de espaços”, indica Silva.“Apresente o genocídio e epistemicídio [construção de fazer científico que ignora determinada visão de mundo] dos povos indígenas, negros e outras minorias políticas como um projeto de poder. Viabiliza-se, assim, o resgate e a valorização da multiplicidade cultural”, completa.

5) Abordar modelos econômicos além do capitalismo

“Desmitificar a naturalização da pobreza e o o desenvolvimento capitalista como única saída à felicidade e melhoria da qualidade de vida das nações é importante”, pondera Suess.

6) Pensar conceitos geográficos pela perspectiva de outros povos

É possível pensar conceitos de lugar, território, paisagem, região, sociedade e natureza, a partir de uma perspectiva decolonial. “Nos livros didáticos e na Base Nacional Comum Curricular (BNCC), esses conceitos estão associados a uma visão eurocêntrica. Porém, cada grupo social tem uma relação diferente com o espaço e é possível explorar como povos tradicionais vivenciam e organizam esses espaços”, afirma Rodrigues. Ele é autor da monografia “Currículo, ensino de geografia e o giro decolonial: a presença da colonialidade no conceito de território na Base Nacional Comum Curricular (2021).

“Não se deve utilizar os conceitos geográficos para normalizar a realidade geográfica da sociedade como dada, como se as questões de localização e distribuição de recursos naturais e humanos fossem obras do acaso e não escolhas de um sistema econômico e social concentrador e desigual”, reforça Suess.

7) Repesar o espaço geográfico e o escolar

“O espaço geográfico não é atravessado somente por questões econômicas e políticas, mas por outras questões, como raça, gênero e etariedade”, lembra Regina. Como proposta de atividade, a professora indica refletir com os alunos sobre como o espaço escolar se organiza tendo esses pontos como referência. “Questionar de que forma eles enxergam esse espaço escolar. Onde nele estão as mulheres, os brancos e as pessoas não brancas”, ensina.

8) Questionar os modelos de divisão do mundo

Suess explica que a colonialidade reforça a divisão internacional e territorial do trabalho, na qual para países como o Brasil só restaria o papel de exportador de matérias-primas, agropecuárias ou minerais. “Isso impacta em nossa autoimagem ao cristalizar uma representação social hierárquica de povos subjugados, subdesenvolvidos, submissos, subserviente, subnutridos, subletrados, incultos e não-civilizados que para se desenvolverem têm que seguir o receituário dos países desenvolvidos, especialmente, os da Europa Ocidental”, diz.

Segundo ele, o entendimento do conceito de raça é fundamental para compreender as marcas coloniais no ensino de geografia. “A partir da dominação da América, começou-se a classificar o mundo, não apenas por um critério econômico, mas, sobretudo, racial, ao dividir povos primitivos/civilizados; oriente/ocidente; Norte/Sul; tradicional/moderno; países desenvolvidos/subdesenvolvidos/em desenvolvimento; países de primeiro/segundo e terceiro mundo; novo e velho mundo, entre outras divisões clássicas binárias e dualistas”, diz.

9) Trazer a diversidade como marcador para todos os conteúdos

É possível incorporar o tema da diversidade em diversos conteúdos de geografia. Ao ensinar sobre divisão do trabalho em espaços urbanos, Regina traz como reflexão aos alunos o lugar social das pessoas transgêneras e travestis.

“Por exemplo, questiono se os alunos veem essas populações trabalhando nos locais onde eles frequentam, e se eles relacionam isso com a vulnerabilidade que faz o Brasil ser um dos países que mais mata pessoas trans e travestis”, explica ela, que é autora da dissertação “Geografia e pensamento decolonial: um diálogo necessário” (2020).

10) Apresentar produções culturais de outros povos

Vale trazer filmes, livros e outras produções realizadas na África, Ásia e América Latina que mostram as potencialidades culturais e econômicas dessas regiões. “Por exemplo, sair do estereótipo de que na África só tem pobreza”, salienta Rodrigues.

Os alunos também podem ser estimulados a identificar e questionar estereótipos em produções realizadas em países hegemônicos.“É possível observar como representações seculares da decolonialidade são recorrentes em livros, filmes, poemas e outras formas de expressão artísticas como histórias em quadrinhos, pinturas etc.”, lembra o doutor em geografia pela Universidade de São Paulo (USP) Gilvan Charles Cerqueira de Araújo. Ele assina o artigo “Decolonialidade e geografia escolar: revisitações didático-pedagógicas” (2020).

11) Mostrar outros modelos de desenvolvimento

“Quando tratamos o assunto, privilegia-se o Sul Global, quando existem também contribuições econômicas da África e dos blocos econômicos que reúnem os países da região”, reforça Rodrigues.

12) Incorporar história e cultura indígena e afro-brasileira nas aulas de geografia

A Lei nº 11.645/2008 tornou obrigatório o estudo da história e cultura indígena e afro-brasileira nos estabelecimentos de ensino fundamental e médio. “O ideal é abordar as temáticas ao longo do ano, não apenas no dia do indígena ou da consciência negra. Além de trazer outras abordagens, como os relatos de resistência”, pontua Regina.

Veja mais:

Descobrimento, achamento ou invasão: o que define o dia 22 de abril de 1500?

Educação ambiental decolonial: o que é e como trazê-la para a escola?

5 livros para entender o pensamento decolonial

Atualizado em 16/12/2022, às 16h47

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