A educação ambiental pode se beneficiar com o pensamento decolonial. “Ela compreende que os mecanismos de controle impostos aos países colonizados não acabaram com o período colonial, permanecendo na modernidade. Entre eles, as marcas de desigualdades sociais, de exploração da natureza e de subjugação dos povos que habitam as Américas”, resume a coordenadora do Núcleo Interdisciplinar de Pesquisa e Estudo em Educação Ambiental da Universidade Federal do Espirito Santo (UFES/NIPEEA), Martha Tristão.

Segundo o professor de ciências e membro do Grupo de Estudos em Educação Ambiental desde el Sur (Unirio) Marcelo Aranda Stortti, o processo de colonização fez emergir um pensamento dominante – capitalista e eurocêntrico – que eliminou outras culturas. “Há uma proposta hegemônica de educação que reproduz modelos e uma única forma de ver e sentir o mundo. Porém, vivemos em uma sociedade plural em saberes, como os dos povos tradicionais, afrodiasporos, caiçaras, periféricos, entre outros”, explica. “Eles são encobertos e exterminados nesse modelo educativo hegemônico e a proposta decolonial ajuda a resgatá-los”.

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Resgatando conhecimentos locais

Segundo Tristão, a educação ambiental decolonial pode ser exercida pela análise do território em que se vive. “É possível aprender com as práticas culturais que ali acontecem e os saberes sustentáveis produzidos por comunidades tradicionais ou periféricas que habitam estes locais”.

Um olhar atento pode identificar como comunidades e povos encontram a sustentabilidade em suas vidas.“Os lugares produzem e ensinam maneiras particulares de pensar e estar no mundo. Se esse lugar é na floresta, na montanha, na praia ou nas cidades, é no contexto da comunidade e por meio desse entendimento que se estabelece um processo educativo e prático”, ressalta.

“Isso envolve problematizar saberes e fazeres socioambientais a partir da produção cultural local na escola. No caso do Espirito Santo, tratamos o Congo, as paneleiras, catadores de siri e caranguejos, comunidades de pesca e outros”, exemplifica. Stortti tem a mesma opinião e indica associar os saberes ambientais da comunidade escolar com os científicos. “Dialoga com Paulo Freire por entender esse estudante não como folhas em branco, mas somatória de cultura e tradições. É uma educação dialógica por ouvir suas histórias e interesses”, reflete.

Atividades possíveis

Stortti indica pesquisar com os alunos as plantas tradicionais utilizadas pelas suas famílias, dicas de reaproveitamento e rodas de conversas que tragam os saberes familiares. Tristão recomenda ao professor fazer um diagnóstico sobre o lugar onde moram. “Leve perguntas direcionadas sobre as relações com os rios, os ecossistemas existentes, as comunidades tradicionais que ali habitam e permaneceram”, sugere. Vale tratar os temas da educação ambiental em uma abordagem sintonizada à demanda local. “Se o aluno vive em uma casa que não tem água potável, discutir a água precisará considerar isso”, avalia.

Doutor em Ensino, Filosofia e História das Ciências pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), André Carneiro Melo propõe aos alunos entrevistarem pessoas idosas das comunidades; registrar a memória ambiental local em fotografias; conversar com merendeiras sobre alimentação; visitar comunidades e feiras livres.“Na construção de uma horta, vá além do plantio em si e amplie o debate de alimentação saudável, agrotóxicos, fome, soberania alimentar, desnutrição, consumismo, permacultura, adubação orgânica, compostagem, reaproveitamento de alimentos etc.”, lista.

Outra orientação é analisar a história por um olhar decolonial. “Em sua maioria os conteúdos escolares naturalizam a violência praticada pelo processo civilizatório em curso, como naturaliza a destruição dos ecossistemas naturais com o desmatamento desenfreado, transformando-os em outros ambientes urbanos e modernos”, lembra Tristão.

Saberes dos povos tradicionais

Presente na lei 11645/ 2008, o estudo da cultura dos povos tradicionais indígenas traz uma nova forma de pensar a relação com a natureza. “A ideia é que tais saberes e conhecimentos que foram por séculos silenciados não se restrinjam apenas a essas comunidades, sendo de interesse de todos”, explica Melo. Um aspecto é a não oposição entre cultura e natureza ou entre seres humano e demais seres vivos. “Os rios são considerados parentes e, os bichos, como iguais”, lembra Tristão.

“Não se olha a natureza a coisificando, ou seja, a árvore não é algo que vou tomar, mas ela tem serviços ecológicos importantes. Os minerais são nossos avós porque estão aqui há milhares de anos, como diz o ambientalista Ailton Krenac. Tudo isso faz repensar a relação com a sociedade, alimentação, trabalho e com a vida”, acrescenta Stortti.

Coordenador do grupo RIZOMA da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), Marco Barzano explica que a forma sustentável como os diferentes povos indígenas manejam a natureza nas suas práticas também pode ser explorada. “Assim como sua memória coletiva, tecnologias e trabalho”, enumera.

No artigo “Por uma educação ambiental decolonial: aprendendo com licenciaturas indígenas”, a douroranda em educação pela Universidade de Santa Cruz do Sul (UNISC) Beatriz Osorio Stumpf indica explorar os mitos de criação do planeta dos povos originários.“[Eles] veem o planeta Terra como um complexo sistema vivo que se autorregula por meio das múltiplas relações entre os diversos seres e elementos que o compõem, os quais são todos interdependentes e complementares. Na filosofia indígena andina, a natureza é vista como um ente no qual todas as partes estão integradas”, aponta no texto.

Também é possível trabalhar as analogias lúdicas que alguns povos fazem para explicar a fisiologia da Terra. “As águas funcionam de forma semelhante ao sistema circulatório de um animal, sendo que o seu contínuo movimento, somado à ação do vento, transfere elementos nutritivos essenciais de uma parte para outra e leva embora os resíduos do metabolismo”, acrescenta no artigo.

Para Borzano, a educação ambiental decolonial traz diversidade ao currículo, formação de professores e práticas pedagógicas, por vezes, engessados devido à Base Nacional Comum Curricular (BNCC). “Isso ajuda a compreender as diferenças culturais como riqueza e vantagem pedagógica, assim como a construir práticas educativas interculturais”, conclui.

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