Orientalismo é um conceito cunhado pelo crítico literário palestino Edward Said sobre como o Oriente é construído de forma estereotipada pelo Ocidente.

“Entende-se que o Oriente como conhecemos aqui no Ocidente é uma imagem construída pelos ocidentais como o oposto do Ocidente ‘perfeito’. Suas características se opõem diretamente às da ‘civilizada’, ‘racional’, ‘moralmente superior’ e ‘humana’ da Europa”, explica Aycha Sleiman, fundadora do projeto Des.orientese (@des.orientese) ao lado da cientista social Karime Cheaito.

“Essas noções estereotipadas seriam necessárias para legitimar a dominação política, econômica e cultural europeia não apenas sobre o Oriente Médio, mas sobre todo aquele Outro, inferior e, frequentemente, habitante de uma zona estratégica ou possuidora de recursos materiais valiosos”, aponta Sleiman.

As duas acadêmicas são filhas de libaneses e criaram o Des.orientese para tornar acessível análises e conteúdos sobre política, cultura e sociedade do Oriente Médio. Tudo isso dentro de uma perspectiva crítica e decolonial.

Entre os materiais, há desde explicações sobre conflitos até a indicação de poetas e musicistas da região.

Para elas, trazer o tema para a escola ajuda a romper sensos comuns e estimula os alunos a pensarem criticamente como a realidade e estereótipos são construídos.

“Também incentiva um olhar diverso sobre o Oriente Médio, capaz de promover a reflexão sobre a multiplicidade e a pluralidade local, bem como seus processos históricos e geopolíticos”, justifica Cheaito.

“Faz com que os alunos possam apreender o Oriente Médio de modo mais crítico, questionando e problematizando muitos dos conteúdos que eles próprios consomem. Isso faz com que se rompa com a criação de estigmas e estereótipos sobre os povos orientais, de modo geral”, complementa.

Ultrapassando os conflitos

Segundo análise do Des.orientese, o Oriente Médio é retratado de modo simplista e superficial nos livros didáticos do ensino fundamental e médio. “Ele é reduzido há um pequeno número de páginas que enfocam em apenas dois pontos: o conflito entre Palestina e Israel e a retratação da região como um local de guerras”, descreve Cheaito.

“Há o apagamento e o aprofundamento dos elementos culturais, das múltiplas religiões coexistentes e da própria história regional”, acrescenta.

Além disso, o próprio recorte da mídia tradicional também é tido como limitador.

“Há um hiperfoco em conflitos, autocracias repressivas e violência de gênero e sexualidade, mas abordados de maneira problemática. Falta uma análise crítica e um conhecimento profundo das razões estruturais de tais problemas, além do apagamento de toda e qualquer resistência local, passando uma imagem de um povo passivo”, contextualiza Sleiman.

Para as especialistas, o consumo desse tipo de abordagem a respeito do Oriente Médio gera discriminação religiosa ou étnica em relação a nacionais de países árabes e à praticantes da religião islâmica, tanto em espaços públicos quanto virtuais.

“Há ainda a formação de uma opinião pública hostil ao Oriente Médio que forma a base da legitimidade de ações de Estados, como a invasão do Iraque em 2003 pela coalizão internacional liderada pelos Estados Unidos da América. Ela contava com mais 50 países ao lado de suas tropas”, lembra Sleiman.

Como abordar o tema em aula?

De acordo com o Des.orientese, uma das possibilidades é apresentação simplificada do próprio conceito e trabalhá-lo em exemplos práticos, por exemplo, demonstrando como filmes, livros e obras de artes reproduzem o orientalismo. Algumas sugestões são exibir trechos da animação Aladdin, da série Homeland, dos filmes Príncipe da Pérsia e 300 e a HQ do Tintin.

Além disso, as pesquisadoras indicam usar o documentário ‘Filmes ruins, árabes malvados’ (Reel Bad Arabs: How How Hollywood Vilifies a People, 2006), que aborda como hollywood estereotipou a comunidade árabe, reduzindo-os a bailarinas de dança do ventre, xeiques e terroristas.

“Vale também buscar como os assuntos estão sendo tratados na própria região. Todos os países do mundo árabe possuem mídias bilíngues, é apenas uma questão de se propor a pesquisar”, indica Cheaito.

“Busque também autores da região que trabalham o Oriente Médio. O que não falta são politólogos, economistas, sociólogos, antropólogos e afins árabes, persas, turcos ou de qualquer outra origem regional que estão pensando suas próprias sociedades de maneira compreensiva, inteligente e complexa”, pontua Cheaito.

Outra alternativa é seguir as redes sociais do Des.Orientese, que traz periodicamente conteúdos sobre temas contemporâneos relacionados aos países do Oriente Médio.

“Os estereótipos serão combatidos a partir do momento que se deixar de produzir material partindo de perspectivas etnocêntricas, no sentido de ‘nós somos os melhores’ e ‘eles são os piores’. Quando as dinâmicas internas da região forem levadas em conta, em sua particularidade histórica, avanços serão feitos”, finaliza Sleiman.

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