Etnocentrismo é o termo usado nas ciências sociais para um sujeito ou coletivo que coloca a sua cultura como a referência de “correto” e as demais, inferiores a ela.

“É quando um grupo social ou étnico julga, avalia e percebe os outros a partir de seus próprios valores. Cria-se uma relação que é assimétrica, hierarquizada e preconceituosa”, resume o doutor em sociologia e professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (Ufrrj) Euler David de Siqueira.

“Ao decretar essa ‘inferioridade’, estabelece-se que o outro indivíduo e grupo devem reproduzir ou repetir as mesas atitudes e valores presentes na cultura-referência”, explica Valter Roberto Silvério, doutor em ciências sociais e professor da Universidade Federal de São Carlos (Ufscar).

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Os exemplos de etnocentrismo são diversos. “Como quando um município se diz melhor que seu vizinho ou uma religião trata as outras como mentiras e inferiores”, relata Siqueira.

“Outro exemplo recente foi o tratamento hostil dado pelo governo brasileiro à China, tradicional parceiro comercial, durante a pandemia da covid-19”, acrescenta.

Diversidade da origem

Silvério conta que o conceito de etnocentrismo surgiu nas universidades em um contexto pós-Segunda Guerra Mundial, momento em que o mundo vivia o ciclo de independência das colônias africanas, percebia os resultados do massacre do povo judeu no Holocausto e quando o racismo passava a ser entendido como ideologia.

“A narrativa de superioridade de um povo sobre o outro foi construída durante o colonialismo inglês, francês e português sobre os povos africanos, asiáticos e americanos. Tal dominação colonial europeia, porém, estava em declínio nesse momento”, relata.

No mesmo período, ocorreu a fundação da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco, 1945).

“Sua agenda era criar um novo padrão educacional e uma forma de perceber as culturas e suas diferenças. O eurocentrismo, ou seja, a história dos povos construídas pelo olhar europeu, foi questionado. Africanos e asiáticos reivindicaram o direito de contar suas histórias a partir de seus próprios pontos de vistas”, contextualiza Silvério.

Relação com racismo

De acordo com Siqueira, “apesar de dizer que valoriza a multiculturalidade, o Ocidente é bastante etnocêntrico. As outras culturas são aceitas desde que permaneçam no lugar reservado a elas, que não é o de protagonista.”

O mesmo princípio também é visto no Brasil. “Vende-se um discurso internacional de que valorizamos povos negros e indígenas da nossa matriz. Mas, na prática, a elite brasileira pensa que é europeia e não quer ser confundida com populações que considera inferiores”, analisa Silvério.

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Isso aponta para outro problema: a relação íntima do etnocentrismo com o racismo e a xenofobia.

“A categoria do etnocentrismo, no meu entendimento, engloba, toca e faz arestas com as outras duas. Ao final, constrói no imaginário relações desiguais”, aponta Siqueira.

Silvério também analisa o contexto desses preconceitos no Brasil.

“Uma marca é o desprezo pela diferença cultural, traduzido no tratamento ao corpo não-branco. Como se apenas o europeu branco fosse detentor de humanidade e passível de direitos. Isso faz com que todo mundo queira ser branco no Brasil”, assinala.

Siqueira complementa: “No caso do imigrante, ele é alvo de hostilidade por ser considerado uma ameaça à identidade ou cultura ‘original’ da nação.”

Alterando o imaginário

Combater o etnocentrismo exige decolonizar o olhar, como explica Silvério. “É necessário romper com a ideia de superioridade entre norte e sul, brancos e negros, europeus e latinos.”

Ele também recomenda questionar constantemente o que está no imaginário sobre outros grupos étnicos e sociais.

“Você pode se perguntar: quando vejo um imigrante boliviano ou haitiano na rua, quais informações esse olhar me traz? Eu enxergo todas as populações da mesma forma?”, ensina.

Siqueira lembra da necessidade de educação e políticas públicas que fomentem a diversidade cultural. “Para essa ser vista como um bem, não um mal a ser eliminado. Para que se aprenda a conviver e reconhecer que todas as diferenças merecem dignidade e respeito.”

Dimensões psicanalíticas e socioemocionais também são necessárias para mudar o imaginário. A comunicação não-violenta, por exemplo, ensina a não usar nossos valores ou cultura como referência de “correto” em uma conversa.

“A relação individual e psicológica é também social. A nossa subjetividade foi construída a partir de elementos externos”, pontua Siqueira.

Já para quem deseja se aprofundar no debate, Silvério lembra que os estudos etnocentrismos evoluíram, nas décadas seguintes, para neocoloniais e decoloniais.

“Apesar das colônias terem sido libertas, elas continuaram fieis às culturas e ao padrão de vida das metrópoles, provocando opressões. Tais estudos vão tratar disso”, finaliza.

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