Hanan Al Hroub cresceu em um campo de refugiados palestinos, em Belém. Ela decidiu trabalhar com educação primária ao perceber que seus filhos estavam traumatizados pelas situações de violência da região. Para isso, apostou em atividades lúdicas, como brincadeiras e histórias, para criar um ambiente amigável em sala de aula, desenvolvendo relações de confiança e cooperação. O resultado foi o declínio de comportamentos violentos entre os estudantes e melhor aprendizagem. “O educador deve criar, como um artista, um ambiente que liberte a imaginação da criança desse conflito”, pontua.
Em 2016, Hanan recebeu o prêmio de melhor professora do mundo por seus esforços – o Global Teacher Prize, oferecido pela Varkey Foundation. Em uma entrevista exclusiva ao NET Educação, ela revela seu método de ensino para trabalhar com crianças em situação de violência e vulnerabilidade social.
NET Educação – Como os professores devem trabalhar com alunos que estão em situação de violência e vulnerabilidade social?
Hanan Al Hroub  – Crianças que presenciaram conflitos apresentam feridas emocionais que realmente impactam no processo educacional. Assim, a missão da educação é mais complexa e difícil do que em outros países. O educador deve criar, como um artista, um ambiente que liberte a imaginação da criança desse conflito. Deve ajudar a moldar essa imaginação de uma forma amorosa.
NET Educação – Quais são os sentimentos presentes nas crianças que vivenciaram traumas e violência? 
Hanan – As crianças refletem o que ocorre ao redor delas. Na escola, os comportamentos mais comuns são hiperatividade, violência, não aceitação dos outros colegas, ter problemas de concentração e isolamento. Algumas escolas onde trabalhei respondiam a isso com agressividade. Esse ciclo vicioso não ajuda a criança a aprender.
NET Educação – Como jogos lúdicos podem auxiliar o professor nesse contexto de violência e vulnerabilidade social? 

Hanan – Eu adotei os slogans “não à violência” e “nós brincamos e aprendemos”. Para isso, desenvolvi jogos usando peças de lego, copos plásticos, pregadores de roupa e varal. Isso produziu resultados positivos: eliminavam a agressividade, promoviam o diálogo e a cooperação, ajudavam a semear o espírito de democracia e a aceitação das opiniões dos outros. Isso teve um efeito em cascata nas outras salas de aula e nas famílias dos estudantes. Os jogos também fortalecem a personalidade das crianças, então, elas poderão ser professoras, jornalistas, médicas, cantoras e etc.

NET Educação – Você também apostou na contação de histórias. Como foi isso? 

Hanan – Temos poucos recursos. A partir de caixas de vegetais que haviam sido jogadas fora, eu criei cantos de leitura. As histórias ajudam as crianças a compreenderem as suas vidas e a analisarem o mundo, em vez apenas de memorizar e repetir informações. Elas também estimulam suas imaginações.
NET Educação – Quais tipos de abordagens os professores devem evitar?
Hanan – Tudo o que é violento e repressivo incentiva as crianças a se afundarem em suas conchas, em vez de saírem e expressarem-se com confiança e personalidade. Apenas ditar informação na expectativa que os estudantes as memorizem não é educação. É preciso conhecer as crianças e desenvolver um aprendizado personalizado, que as inspirem e as estimulem a aprender.
NET Educação – Qual o principal retorno que você vê do seu trabalho?
Hanan – A criação de um ambiente de paz em sala de aula, que permitiu inserir os alunos no processo de aprendizado ativamente. Mas eu não poderia faz isso tudo sozinha. Tive a colaboração da escola e das famílias, que são vitais.
Hanan com seus alunos: atividades lúdicas em sala de aula reduziram comportamentos violentos. (Crédito: Varkey Foundation)
 
NET Educação – Quais seus planos para o futuro?

Hanan – Apoiar os demais professores a desenvolverem suas próprias metodologias educacionais. Encorajar os alunos que mostraram potencial acadêmico a escolherem a profissão de professor. Complementar minha formação com mestrado e doutorado. Também, tenho o sonho de ajudar pacientes com câncer, pois minha mãe morreu dessa doença aos 45 anos.

Veja mais:
– Educação em direitos humanos combate desrespeito e violência nas escolas
– Eu vou te contar uma história
– Direitos humanos e o cinema
– Programa NET Educação – Alunos protagonistas, uma prática inovadora

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