A geografia pode ser ensinada em analogia ao que acontece em mundos imaginários, como no universo de Harry Potter. É o que aponta a pós-doutora em cinema e cidade pela Sorbonne Université (França) Valéria Cristina Pereira da Silva.

“O mundo imaginário, mesmo quando se trata de uma ficção, do fantástico, sempre traz, em alguma medida, projeções do mundo vivido. Além isso, o imaginário é uma dimensão presente e atuante na realidade”, explica.

Conheça oito conteúdos que aparecem na grade curricular de geografia e podem ser ensinados usando o universo de Harry Potter.

Racismo

Na dissertação “O papel do cinema na construção da geografia anticolonial”, a mestra em geografia Ludimila Pereira Alves utilizou a saga para tratar questões referentes ao racismo e à segregação racial.

“Há uma espacialidade que produz uma sociabilidade baseada em conflitos. Presente, por exemplo, na discriminação da sociedade bruxa com a sociedade não-bruxa”, explica.

“Isso pode ser relacionado ao pensamento eurocêntrico, que considera o branco europeu superior aos demais povos”, compara.

A coordenadora pedagógica do projeto “Professores Mágicos”, Stefânia Andrade, indica apresentar uma pirâmide com o funcionamento da sociedade bruxa.

“Há os bruxos de sangue puro no topo, como a as famílias Weasley e Malfoy, que são filhos, netos e trinetos de bruxos. Abaixo deles, temos os bruxos mestiços, que é o caso do Harry, que tem avós não-bruxos, seguidos dos filhos de bruxos que não são bruxos”, diz Andrade, que coordenou a produção do e-book gratuito Harry Potter na escola.

Na base da pirâmide há os muggles – não-mágicos, traduzidos no Brasil como “trouxas”. “A gente pode fazer essa relação com a nossa sociedade e outras: existem pessoas que são mais ou menos valorizadas? Deveria ser assim? Como mudar?”, indica a coordenadora pedagógica. 

Desigualdade socioeconômica

A narrativa de Harry Potter também mostra desigualdades entre ricos e pobres. “Existem escolas diferentes de magia e a classe social”, exemplifica Alves.

“Podemos problematizar: por que a família Weasley é tão discriminada por ter mais filhos e viver com mais simplicidade do que a família Malfoy, que só tem um filho e que vive numa grande riqueza? Por que alguns bruxos ganham mais e outros ganham menos?”, descreve Andrade.

Há ainda o caso de Ronny Weasley, que não tem condições de comprar os livros e vestes de primeira mão. “Podemos citar o comércio no beco diagonal, que nem todos acessam, assim como a escravidão dos elfos domésticos”, complementa Andrade.

Alves aponta também os maus tratos que Harry Potter sofreu de sua família adotiva por ser órfão e não ter posses, mostrado em “Harry Potter e a pedra filosofal”. “A discriminação continua em Hogwarts porque ele não possui dinheiro”, destaca Alves.

Ambientes naturais e modificados

Andrade sugere identificar com os alunos os espaços da saga e separar os ambientes modificados dos naturais.

“Quando a gente fala meio ambiente, alunos costumam logo associar natureza. Mas há todos os ambientes que a gente pode ocupar no planeta. E dentro de Harry Potter, há diferentes ambientes, como Hogwarts, a Floresta Proibida, a Toca, a Casa do Hagrid, a Casa dos Dursley”, elenca Andrade. “Hogwarts, por exemplo, tem uma grande construção feita pelos bruxos, mas é rodeada de natureza”, acrescenta.

Comparações entre Reino Unido e Brasil

A história de Harry Potter se passa especialmente na Escócia, onde está o castelo de Hogwarts, mas também na Inglaterra, em Londres. “É possível explicar o que é a Grã-Bretanha, como ela funciona e onde ficam esses países no mapa”, orienta Andrade. “Podemos trabalhar a localização do Brasil e da Inglaterra e Escócia, as distâncias entre seus continentes, fuso-horário, as diferenças culturais, as diferenças de linguagem entre esses três países”, complementa. Além disso, Andrade indica focar na geografia física, como clima, vegetação, relevo, hidrografia e dinâmicas atmosféricas que fazem nevar em Hogwarts e não no Brasil, por exemplo.

Cartografia

Em “Harry Potter e o prisioneiro de Azkaban”, Harry usa o mapa do maroto para checar onde as pessoas estão se movendo em torno de Hogwarts.

“É possível pensar como a gente faz um mapa, croquis e maquetes para trabalhar a localização”, explica Andrade.

A coordenadora pedagógica também indica trabalhar tecnologias de localização, como GPS. “Será que a vassoura deles tem GPS? Como funciona o localizador que todos os bruxos menores de idade usam?”, questiona.

Outro conceito é o da planta baixa. “É possível encontrar na internet a planta baixa de Hogwarts, com alguns de seus andares”, sugere.

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Mapa do maroto de Harry Potter (crédito: Warner Bros)

Sistema político

“Harry Potter e o enigma do príncipe” aborda a eleição de um primeiro-ministro. “Pode-se trabalhar o sistema político dentro de Harry Potter. O fato de a gente não ter poderes moderadores ali faz com que seja muito propício que o ministro da magia tenha ações autoritárias”, lembra Andrade.

“Em Harry Potter e a Ordem da Fênix, a partir do momento em que o ministro da magia se sentiu acuado, ele passou a ter atitudes totalitárias e autoritárias, como passos para uma ditadura. Isso inclui dominar o jornal, colocar um representante do governo dentro da escola até o extremo de torturar crianças”, completa.

Capitalismo

Alves lembra de assuntos relacionados a dinheiro, mesmo dentro da escola. “Vemos categorias como o valor de troca, valor de uso e o trabalho ao longo da saga”, pontua a professora.

Em sua dissertação, Alves cita uma cena de “Harry Potter e a pedra filosofal” no beco diagonal, na qual os guardiães do dinheiro eram duendes, organizados em uma espécie de trabalho em série similar ao fordismo.

“No mundo bruxo, observamos a mesma distinção e produção de mercadorias existente dentro do sistema capitalista na nossa realidade. Existem objetos baratos, caros, cobiçados e de marca”, exemplifica Alves.

Paisagens reais e culturais

Silva indica trabalhar o conceito de paisagem física e cultural, além de listar aquelas que inspiraram a obra.

“Como a estação 9 ¾ na Inglaterra, de onde parte o expresso para Hogawrts”, exemplifica.

Ela conta que J.K. Rowling, autora da saga, escreveu o primeiro livro enquanto morou na cidade do Porto, em Portugal. Para Silva, de modo indireto, há elementos da paisagem portuguesa na criação do universo do bruxinho que também podem ser identificados por comparação.

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Crédito da imagem: Warner Bros – Divulgação

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