A utilização do RPG – do inglês role-playing game, que significa “jogo de interpretação de papéis” ou “jogo de interpretação de personagens” – no ensino da geografia aprofunda a compreensão de diferentes conceitos geográficos ao permitir que os estudantes vivenciem situações, práticas e desafios do mundo real.

“É uma ferramenta lúdica que ajuda a traduzir os saberes da geografia para os alunos e com o benefício de ser facilmente construída sem a necessidade de tecnologias avançadas: basta caneta, papel, um sistema de pontos, a história e a interpretação”, descreve o professor de geografia Eduardo Emilio Ricieri.

“Para completar, o uso do RPG no ensino da geografia amplia habilidades como trabalho em equipe, liderança, cooperação, raciocínio lógico, memorização dos conteúdos e também o entendimento de fatores relacionados à gestão do espaço, como governo, grupos sociais, entre outros”, completa.

“RPG pedagógico somente funciona com o aluno dentro dele. Ele estará muito ativo na história. Assim, vale, duas aulas antes, explicar o conteúdo e a ferramenta. Nos momentos paralelos, construir os personagens com os alunos e ir esclarecendo dúvidas até o momento efetivo da aplicação”, explica o professor de geografia Daniel Araújo.

Listamos abaixo cinco jogos de RPG desenvolvidos por professores de geografia em graduações e mestrados profissionais que podem ser replicados no ensino de conteúdos da disciplina.

RPG Geográfico – gerenciando e planejando uma cidade, de Eduardo Emilio Ricieri (UFPR, 2018) 

Conteúdo: planejamento, cidades e recursos naturais. “Também pode ser usado para trabalhar geopolítica, sustentabilidade e gestão democrática”, diz Ricieri. Indicado para os anos finais do ensino fundamental e ensino médio. 

Jogo: Cada grupo de alunos deverá criar um nome para a sua cidade ou município. Dentro desses grupos, pode haver outros menores representando setores da sociedade, como movimentos sociais e pesquisadores.

O professor será o ‘mestre’ e deverá explicar que cada grande grupo deve encontrar duas soluções para problemas que ele sorteará.

Nas fichas, entre parênteses, estará a notação com os problemas: verba (V), população (P), vegetação natural (Veg),  rios e lagos (RL), minérios (M)  e tempo (T).

Cada problema gastará um determinado valor de recursos. Cada grupo terá 10 minutos para solucionar a questão. Ao final, o professor deve contextualizar os problemas e soluções com situações do mundo real.

Para jogar, Ricieri indica ter uma representação cartográfica simples, como um desenho em cartolina identificando relevo e hidrografia.

“Ao final, os alunos registram espacialmente os problemas nos mapas –  como um deslizamento de terra, uma realocação de bairros, queimadas, etc. –  e apresentam suas soluções”, diz.

Um mundo refugiado, de Gabriel Moraes Vianna (UFRGS, 2021) 

Conteúdo: migração. Indicado para o ensino médio.

 Jogo: O autor desenvolveu um RPG para ser jogado solo pelos alunos por meio de um livro disponibilizado gratuitamente em sua monografia.

Depois de explicar migração, refúgio e mencionar refugiados mundialmente conhecidos, é apresentada ao aluno uma história na qual, para ajudar a resolver o problema das desigualdades socioeconômicas do mundo que acarretam nas migrações forçadas, ele deve escolher um entre três refugiados listados.

Cada escolha leva para uma página, onde esses refugiados apresentam informações, e novas perguntas são feitas. Estas, por sua vez, direcionam para a história de outros refugiados e para novas informações geográficas importantes.

A busca pelo arco de gelo, de Daniel Araújo e Cleire Falcão (UECE, 2019)

Conteúdo: aspectos físicos do  Nordeste  brasileiro. Indicado para o 6º ano do ensino fundamental II.

“O objetivo é fazer com que os alunos identifiquem fenômenos naturais e sociais representados de forma diferente, além de natureza e qualidade de vida. Fazer com que alunos relacionem mudanças climáticas com atividades humanas. Analisar paisagens, transformações por ações do homem ou da natureza”, explica Araújo.

Jogo: Em um futuro alternativo onde o Nordeste brasileiro está sob neve, dra. Shuri precisa encontrar uma fenda no tempo em um arco de gelo. Ela, então, transporta os jogadores ao ano de 2012, quando ocorreu uma seca histórica no Nordeste.

Para irem avançando na história, os alunos precisam responder a perguntas como:

  • Qual o relevo predominante na Serra Grande e sua influência no clima local?
  • Qual é o relevo aonde os pesquisadores foram parar?
  • Do que esse relevo é composto e qual o potencial hídrico dele?
  • Possuindo  como  base  o  local  onde  vocês  estão, onde  fica o  norte geográfico?
  • Durante  a  viagem  SUL-NORTE  pelo  Ceará  os  pesquisadores perceberam  formações rochosas  típicas  do clima  semiárido,  com presença  de  morros residuais. Qual o nome dessas formações?
  • Durante o percurso da nave pelo estado cearense, os pesquisadores perceberam alguns tipos de vegetações que são comuns no clima semiárido. Quais são elas?

As mudanças pós-Revolução Francesa, de Nill Chester (UFCE, 2019)

Conteúdo: Transição do feudalismo para o capitalismo; mudanças sociais, econômicas e políticas após a Revolução Francesa e queda da monarquia.  Segundo o autor, o objetivo da história é diferenciar o funcionamento do sistema feudal e capitalista; identificar os aspectos históricos, político e social que levaram ao declínio do feudalismo, em especifico na Revolução Francesa.

“Ajuda a entender o fim da antiga organização social de classes e o surgimento de uma nova forma de governo ocasionando mudanças territoriais do espaço geográfico”, destaca. Indicado para ensino fundamental II.

Jogo: Os alunos interpretarão camponeses, participando de conflitos de classe, passando por Paris e Versalhes (França), envolvendo-se com figuras históricas, como Maximilien Robespierre, rei Luis XVI e a rainha Maria Antonieta, além de participarem da Queda da Bastilha.

A aplicação do RPG ocorreu com 10 alunos, que foram divididos em cinco duplas. Cada dupla recebeu uma ficha de personagem que possuía características distintas. A dupla, então, decidia em conjunto as ações dos personagens durante o jogo.

A geografia de Fortaleza (CE), de Nill Chester (UFCE, 2019)

Conteúdos: cartografia, geografia física, geografia urbana e de história de Fortaleza. Indicado para ensino fundamental II. 

Jogo: Os alunos jogadores foram inseridos como funcionários reais em 1780, recebendo missões diversificadas de um emissário do rei, que variava desde capturar criminosos até enfrentar gigantes.

Os aspectos históricos foram apresentados por meio da narrativa do jogo, sendo que no período o Brasil ainda era colônia de Portugal, e Fortaleza se chamava de Vila de Nossa Senhora da Assunção.

Chester explica que o jogo foi criado para o 5° ano do ensino fundamental com alunos com diferentes deficiências (mudo e surdo, baixa visão e cegos).

“Através de um mapa tátil, os alunos puderam navegar e explorar os aspectos geográficos do cenário como: dunas, mangues, rios, serras próximas e núcleos urbanos”, orienta.

Veja mais: 

RPG pode ser usado para trabalhar projeto de vida e ensino de profissões

 12 dicas para inserir o pensamento decolonial nas aulas de geografia

Construir árvore genealógica aproxima aluno de conteúdos da geografia

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