O Role Playing Game (RPG) pode ser utilizado para trabalhar projeto de vida no ensino médio, tendo como foco especialmente o ensino das profissões. “Como no RPG os jogadores interpretam personagens com características fictícias, a prática pode ser aproveitada para que os estudantes tenham experiências fora da sua realidade e, assim, vivam profissões e situações novas a cada partida”, justifica o professor da escola de ensino médio e técnico da Universidade Caxias do Sul (CETEC/UCS) Gustavo Rubbo Siqueira.

Na proposta didática “RPG como estratégia de ensino: uma proposta para o ensino de profissões”, a pedagoga da Secretaria de Educação do Estado do Paraná Elizete da Aparecida Toledo convidou os alunos a escolherem uma entre profissões listadas previamente. Os estudantes foram organizados em quintetos por afinidade e fizeram uma pesquisa sobre cada ocupação – momento importante para conhecer atividades diferentes daquelas vistas em programas de televisão ou exercidas por familiares.

“Em especial para os estudantes da rede pública, entrar em contato com profissões de fora da sua realidade pode despertar vocações que ainda não tiveram oportunidade de serem descobertas. Esse novo interesse pode inclusive motivar uma melhor dedicação aos estudos”, destaca Siqueira. Nessa etapa de pesquisa, os estudantes ainda podem investigar as diferentes possibilidades de atuação de uma mesma profissão, assim como entrevistar pessoas que exercem essa ocupação.

Na sequência, a segunda etapa foi cada grupo de alunos criar um personagem para a profissão escolhida. Para isso, eles deveriam construir o histórico familiar dele, o motivo que o levou a escolher aquela determinada profissão e explicações sobre como ele adquiriu os conhecimentos e habilidades para exercê-la.

“Quando os estudantes criam um personagem com uma profissão específica devem formular uma história de prelúdio para esse personagem. Para construir essa história, pesquisam sobre a formação dele, como o local de estudo, as especializações que o personagem realizou e as rotinas de trabalho desse profissional”, conta Siqueira.

“Se o personagem é um médico legista, o estudante deve compreender que além da graduação em medicina, o personagem deve ter passado por uma ou mais especializações antes de atuar no mercado de trabalho. Informações que refletirão, inclusive, na idade que o personagem terá no jogo”, acrescenta o docente.

Mais realidade, menos ficção

Para deixar a criação dos personagens verossímil, Toledo indica na sua proposta uma lista de perguntas que os alunos devem responder na hora de criar o profissional que irão interpretar. Entre elas: Quem é você? De que forma você é vulnerável? Quais suas fraquezas, atributos, habilidades e talentos? Onde nasceu? Quem faz parte de sua família? Onde vive e com quem? Com o que trabalha? Como é a sua rotina diária? O que gosta de fazer para se divertir? Seu pior defeito? Sua melhor qualidade? Como se veste? Tem algo na sua aparência que você não gosta? Quais são suas metas? O que o motiva? O que considera seu maior obstáculo? Tem medos ? Possui algum sonho? Como você vê o mundo ao seu redor? Como pode contribuir para torná-lo melhor?

Após o histórico do personagem ter sido consolidado, os estudantes criaram materiais de apoio para o mestre narrar a história, como roteiros e os cartões com os atributos de profissional. O jogo se dá pela interação deles, em uma história fictícia narrada pelo mestre, que pode ser o professor.

No CETEC/UCS, o professor Gustavo Rubbo Siqueira aplicou uma metodologia parecida , criando uma mini realidade social com os alunos. “As histórias criadas pelos estudantes foram direcionadas para universos mais reais e menos ficcionais. Assim eles puderem vivenciar as profissões de uma forma mais próxima aos dias de hoje. Durante as sessões eles puderam pensar, por exemplo, sobre as rotinas de trabalho de cada profissão”, complementa.

Já o professor, ao atuar como mestre na condução da história, pode propor situações que permitam ao aluno “exercer” a profissão do personagem durante sua interpretação. “É comum os alunos criarem personagens com profissões investigativas, como jornalistas, detetives, médicos legistas, advogados e cientistas. Para todas eles, existem características que são preenchidas para criar a ficha do personagem”, conta.

“Imagine que o aluno é um jornalista que está investigando um desaparecimento de uma pessoa. Na ficha do personagem, esse estudante terá descrito como habilidade o seu conhecimento de conseguir encontrar informações e objetos. Durante o jogo, ele pode jogar os dados e utilizar essa habilidade para encontrar a pessoa desaparecida”, resume o professor.

Interdisciplinaridade

Além de aproximar os estudantes de profissões e áreas de conhecimento diversas, o uso do RPG na proposta de projeto de vida também trabalha habilidades interdisciplinares. Em geografia, por exemplo é possível discutir a divisão de trabalho por gênero; realidades rural e urbana, assim como o uso de recursos naturais e fontes de energia. Em história, o professor pode destacar memória histórica; enquanto em sociologia e filosofia, é possível falar sobre ética nas profissões.

“Para completar, habilidades de linguagens podem ser desenvolvidas durante todo o processo de pesquisar, construir e interpretar um determinado profissional. Visto que a leitura, interpretação e escrita são importantes ferramentas utilizadas no jogo”, lembra Siqueira.

Veja mais:

RPG na escola: como usar o jogo de interpretação e improvisação?

“Abrace uma carreira” esclarece profissões para os jovens pelo rádio

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