RPG é a sigla em inglês de ‘Role Playing Game’, traduzido livremente como “jogo de interpretação de papeis”. Ele combina teatro, improvisação e estratégias, com os jogadores interpretando personagens fantasiosos ou verossímeis. O RPG surgiu nos Estados Unidos na década de 1970, quando David Anerson e Gary Gigax criaram Dungeons & Dragons, inspirado na literatura de “O Senhor dos Aneis” e no jogo WAR. Popular entre alunos há gerações, o jogo pode ser usado na escola de forma interdisciplinar.

A forma mais tradicional do Role Playing Game é o “RPG de mesa”, com os jogadores sentados e usando tabuleiros, dados, mapas, papel e caneta. Tal modalidade possui potencial pedagógico e tem os alunos como jogadores e o professor, ou alguém instruído por ele, como narrador e mestre. “O narrador insere situações e aguarda o posicionamento dos personagens e os desdobramentos das escolhas assumidas por eles”, explica o professor de física e autor do livro “RPG na Escola”, Ricardo Ribeiro do Amaral.

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“O diferencial do RPG pedagógico está na possibilidade de inserir os conteúdos escolares durante a aventura, seja no cenário, na temática ou nas situações-problema a serem resolvidas”, resume ele, que disponibiliza materiais de apoio no site RPG na Escola.

Professor de matemática do Colégio Técnico Industrial de Santa Maria (CTISM), Pedro Pires Machado usa a ferramenta como alternativa às aulas tradicionais. Ele conta que é possível estimular habilidades de comunicação, cooperação e empatia.“Ao interpretar um personagem de gênero ou realidade diferente, o jogador se coloca no lugar do outro. Além disso, é convidado a desenvolver raciocínio lógico, antecipar desafios, lidar com as consequências das escolhas feitas e ajudar os demais”.

Faz de conta com regras

Existem diversos sistemas de RPG, que podem se apoiar em tabuleiros, dados ou mapas. Porém, é possível criar um sistema próprio ou usar apenas a narração. “É o jogo mais barato que existe por se tratar de um ‘faz de conta’ com regras”, sintetiza o professor de linguagens e mestre em educação Arthur Barbosa Oliveira.

Antes de iniciar o jogo, o professor – que será o mestre e narrador – deve pensar como será a aventura, o local onde ela se passa, a situação inicial, os desafios que os jogadores enfrentarão, outros personagens que irão interagir com eles e eventos anteriores que influenciarão na narrativa, incluindo fatos históricos. Pode-se também usar música e figurino para estimular a brincadeira.

“O mestre prepara os diversos caminhos da história, imagina as ações possíveis de serem tomadas pelo grupo e improvisa quando este encontra uma saída não imaginada. Cria um enredo como uma rede de possibilidades, na qual os jogadores estão sempre interferindo”, descreve a professora Elizete da Aparecida Toledo no artigo “RPG como estratégia de ensino: uma proposta para o ensino de profissões (2014)”.“No entanto, não cabe a ele jogar contra ou a favor do grupo, devendo permanecer neutro”, enfatiza a autora.

Algo que professor e aluno podem criar juntos é a ficha de cada personagem com informações básicas, como pontos de vitalidade, habilidades, deficiências e itens que cada um carrega.“Por exemplo, de 0 a 6, o personagem pode ter 2 de atributos de força”, exemplifica Machado. “Os alunos também podem pesquisar sobre o local geográfico e o tempo histórico onde a trama se passa, como na Idade Média ou na colonização”, acrescenta.

Além disso, as regras determinando os limites do que os personagens podem ou não fazer devem ser conhecidas por todos. “Na internet, é possível encontrar diversas regras para o RPG pedagógico ou sistemas desenvolvidos para crianças”, orienta Amaral. Ainda que não seja obrigatório, o rolar dados adiciona aleatoriedade ao jogo. “Se é preciso mover uma pedra, o jogador que tem 2 de força precisa tirar os números 1 e 2 nos dados. Se sair com menos do que isso, precisará de ajuda”, ilustra Machado.

Trama interdisciplinar

Enquanto conteúdos de história e geografia aparecem no local e cenário da trama, outras disciplinas podem ser aplicadas nos desafios enfrentados pelo grupo e criados pelo professor. “Em uma determinada aventura, os estudantes eram um grupo cujo helicóptero caiu em uma floresta e precisavam de resgate. O piloto informa velocidade do helicóptero e o tempo que voaram até sua queda, ajudando no cálculo de quantos quilômetros voaram”, exemplifica Amaral.

“No helicóptero, encontram-se mapas da região. Os jogadores usam matemática (escalas) e a geografia (curvas de nível) para saber a localização aproximada. Com conhecimentos de química sobre separação de misturas, poderão filtrar a água encontrada”, continua. Machado usa física e matemática nos jogos com seus alunos. “É possível criar um planeta usando as leis da física e conhecimentos sobre o sistema solar, rotação do planeta, estações do ano e cálculos de gravidade. Ou fazer uma caça ao tesouro envolvendo mapas, tempo de viagem, distâncias e geometria”, indica.

Barbosa costuma utilizar o RPG em língua portuguesa. “Ao explicar gênero reportagem, pode-se criar um jogo no qual os alunos são jornalistas investigativos”, ilustra. E dependendo do objetivo do professor, o RPG deve ser usado no início da unidade pedagógica, para introduzir um conceito, ou ao final, para revisar um tópico estudado.

Superando desafios

O primeiro desafio do RPG na escola é o tempo curto das aulas e o número de participantes. “O ideal é usar sistemas simplificados e aplicar em aulas germinadas ou no contraturno. O limite é de dois a seis personagens, assim, divida a classe em grupos e cada um deles fica responsável por um destes”, sugere Barbosa.
Outro desafio é a violência do RPG comum, no qual seres fantásticos possuem poderes que usam para atacar e se defender. “As aventuras podem se concentrar na resolução de problemas em conjunto ao invés do combate”, lembra Amaral.

Antes de aplicar, vale checar com a classe se há interesse nesta atividade gameficada e passar por uma experiência prévia como jogador e mestre. “É possível sentir se o tempo foi suficiente, se os alunos se mantiveram interessados ou se algum desafio foi fácil ou difícil demais”, justifica Amaral. Também é importante se preparar para uma aula agitada. “Por ser uma metodologia ativa, os alunos conversam e discutem o tempo todo”, adianta Amaral.

Para completar, é necessário jogo de cintura para lidar com as escolhas imprevisíveis dos alunos durante a trajetória. “Certa vez, elaborei um problema em que os alunos precisavam calcular ângulos para conseguir escalar uma montanha, porém, esqueci que um dos personagens voava. Ele carregou todos os jogadores e o desafio que imaginei foi perdido”, diverte-se Machado.

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Gameficação na escola também é possível com jogos físicos

Em vídeo, pesquisadora responde principais dúvidas sobre gamificação como estratégia pedagógica

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