Em 1981, o reverendo e liderança da comunidade negra dos Estados Unidos Benjamin Franklin Chavis Jr. percebeu que os lixões e locais de despejos de resíduos tóxicos eram sempre alocados em bairros de população majoritariamente negra ou latina. Assim, ele cunhou o termo racismo ambiental, que descreve como os problemas socioambientais não são sentidos por todos de forma igualitária. As populações vulneráveis e minorais sociais são as mais atingidas.

“Não era por acaso que esses lixões não estavam nas regiões de classe média branca. Porém, Chavis percebeu que quando resolvessem o problema, outros países subdesenvolvidos passariam a ser o destino do lixo dos Estados Unidos, o que também aconteceu”, explica a bióloga e doutoranda em Educação Científica, Matemática e Tecnológica Ingriddy Nathaly Santos Moreira. Ela é autora da dissertação “Racismo ambiental como questão bioética para o ensino de ciências: construção de uma proposta colaborativa de formação inicial de professores” (2020) e fala sobre como trazer o tema para a sala de aula.

Leia também: Como trabalhar as mudanças climáticas de forma interdisciplinar?

Exemplos brasileiros

Um exemplo de como o racismo ambiental ocorre no Brasil são as fortes chuvas que provocam anualmente deslizamentos e mortes. “São frutos da mudança climática, mas quem sofre as consequências são sempre as populações pobres e periféricas, que não possuem moradias seguras ou com saneamento básica”, exemplifica Moreira.

“Nas periferias dos grandes centros, também ocorre rotatividade no abastecimento de água, o que não acontece em bairros ricos da cidade. Ou seja, são decisões políticas que vão além da realidade provocada pela natureza”, contextualiza a professora. Segundo a docente, o racismo ambiental pode ser visto da esfera micro à macro. “No nosso bairro, há ruas mais bem tratadas do que outras. Na cidade, há bairros mais estruturados do que outros. No país, há regiões ricas e outras empobrecidas. E, por fim, há diferenças entre os países do norte e do sul global”, compara.

Saiba mais: O que é racismo ambiental?

Justiça ambiental

O racismo ambiental também dialoga com outro termo: justiça ambiental. “Este diz que nenhum grupo deve suportar mais a degradação do meio ambiente do que outros. Mas o que vemos é uma pequena parcela da população com acesso à maioria dos recursos naturais. Mas quando há desastres, quem arca com as consequências são justamente a minoria que pouco acessa esses bens”, explica Moreira.

Negros, populações periféricas, indígenas e demais povos tradicionais são igualmente os que pagam a conta. “Tais grupos vivem situações de risco e vulnerabilidade diante de empreendimentos que os expulsam de seus territórios e desorganizam suas culturas. Seja empurrando-os para as favelas das periferias urbanas, seja forçando-os a conviver com um cotidiano de envenenamento e degradação de seus ambientes de vida”, ressalta a doutoranda em Educação Escolar e professora na rede municipal de Araraquara (SP) Thaís Angeli. Ela é autora da dissertação “O conceito de justiça ambiental nas dissertações e teses brasileiras em educação ambiental: um estudo panorâmico e de contextos de produção” (2019).“A exploração feita tem lucros privatizados, mas as consequências dessa exploração e sua degradação é socializada. A injustiça ambiental afeta primeiro pessoas em vulnerabilidade”, reforça Moreira.

Tema em aula

Segundo as professoras, discutir racismo e justiça ambiental na educação básica é importante na formação cidadã dos jovens, que serão protagonistas da sua realidade.
“Traz aos alunos à margem e aos dos grandes centros essa consciência de serem sujeitos de direito, que decidem como o país rege seus recursos públicos”, assinala Moreira. “Além disso, há interdependência entre fatores econômicos, históricos, políticos, sociais e ambientais, o que permite compreender e revelar assimetrias de poder e esquemas de opressão social”, complementa Angeli.

Sobre atividades, a cidade é laboratório para trabalhar o racismo ambiental no ensino fundamental 2. “Os estudantes desta etapa estão mais sensibilizados para investigar o entorno. Pode-se realizar uma visita guiada em quatro bairros da cidade e pedir para que analisem e compararem as estruturas deles. Todos são limpos, possuem coleta de lixo e manutenção de asfalto de maneira igualitária?”, orienta Moreira.

Já no ensino médio, os alunos estão prontos para discussões mais profundas sobre problemas ambientais, relacionando-os a conteúdos interdisciplinares. “É interessante explorar situações concretas de injustiças socioambientais que ocorrem no contexto desses jovens”, sugere Angeli.

Material de apoio

Alguns filmes ajudam a ilustrar o assunto e a promover discussões com as turmas. Moraes sugere ‘Erin Brockovich – Uma Mulher de Talento’ (2000) sobre uma mulher que investiga a contaminação da água da sua cidade por uma empresa. Segundo Moreira, é possível discutir empatia seletiva.“As pessoas doentes não tinham importância, porque eram operárias, latinas e à margem da sociedade. Ou seja, podemos pensar que a saúde das pessoas tem valores diferentes”, pontua.“O racismo ambiental desumaniza esses seres e naturaliza a pobreza, chegando a torná-los invisíveis à sociedade e às políticas públicas”, acrescenta Angeli.

No documentário da Netflix ‘What the Health’ (2017), há um trecho sobre como os resíduos de um criadouro de suínos eram despejados em uma cidade de população majoritariamente negra nos Estados Unidos, contaminando os rios. “Os moradores não conseguiam fazer com o estabelecimento saísse da cidade, porque os demais municípios eram de maioria branca”, conta Moreira. Ela indica também o documentário da Prime Vídeo ‘There’s Something in the Water’ (2019), em que mulheres indígenas do Canadá lutam contra uma fábrica que também polui sua comunidade na Nova Escócia.

Já Angeli sugere os documentários ‘A história das Coisas’  e o aclamado ‘Ilha das Flores’, de Jorge Furtado. “O primeiro apresenta uma reflexão sobre a cadeia produtiva e a geração de resíduos, discutindo a questão do trabalho e o valor atribuído a produtos e pessoas”, explica. “O segundo traz o tema das relações socioambientais de uma maneira diferente e criativa, escancarando e refletindo sobre a desigualdade social”, acrescenta.

Sobre livros que abordam o racismo e a justiça ambiental, Angeli recomenda ‘O que é justiça ambiental’, de Henri Acselrad, Cecília C. A. Mello e Gustavo N. Bezerra; e ‘O ecologismo dos pobres’, de Joan Martínez Alier. Por sua vez, Moreira indica aos professores os autores brasileiros Ailton Krenac, João Paulo Barreto e Selene Herculano.

“Basicamente, o racismo ambiental nos ajuda a compreender que não tem como fazer a luta ambiental sem realizar intersecções com outras realidades brasileiras, como desigualdade social, racismo, opressão de classe e gêneros. Os problemas estão emaranhados e esbarram uns nos outros”, conclui.

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