Jogos teatrais possuem potencial pedagógico quando aplicados no contexto escolar.“Além do próprio aprendizado teatral, eles desenvolvem habilidades relacionadas à expressão, imaginação, criação e atenção, que estão também envolvidas nos processos de aprendizagem das mais diversas áreas”, justifica a professora da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Libéria Rodrigues Neves.

“Ademais, o jogo pressupõe a participação do outro, comunicação, negociação e troca de elementos dos reportórios simbólicos de cada um, culminando em algo novo e gerador de novos sentidos”, completa. Ator, pedagogo e mestrando em educação, Vinicius Expedito Mena de Oliveira destaca a possibilidade do aluno se projetar em situações cotidianas durante um jogo simbólico.

“Ao estimular o contato com o outro, o estudante se abre à sociabilidade e tolerância, colocando-se no lugar dos demais. Motivo pelo qual a encenação na escola possibilita trabalhar conflitos específicos e sensibilizar, com o aluno se colocando no lugar do professor ou de um colega discriminado”, avalia.

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Para o professor colaborador do curso de Artes Cênicas da Universidade Estadual de Maringá (UEM) João Alfredo Martins Marchi, os jogos teatrais permitem que os alunos experimentem formas de expressão que vão além de “decorar um texto” ou “fazer uma peça em data festiva”. “Cria-se um ambiente de segurança em que são experimentados temas que partem dos interesses dos alunos. O grupo se torna propositivo e entende que o teatro é sobre ‘falar algo que queremos”, opina.

Multidisciplinar

Para completar, mesmo disciplinas como matemática e física podem se beneficiar do teatro para o ensino de temas curriculares. Na hora de apresentar os jogos teatrais aos alunos, Neves recomenda identificar propostas de acordo com o nível de desenvolvimento e interesse dos participantes.

“Uma proposta com jogos teatrais na escola não deve perder de vista seu caráter lúdico e, por isso, jamais ser impositiva”, alerta ela, que prefere trabalhar jogos de improvisação que provocam a solução de um problema.

Material de apoio

Professores que desejam saber mais sobre o potencial educativo dos jogos teatrais podem pesquisar o trabalho da educadora norte-americana Viola Spolin, que ministrava aulas para imigrantes e desenvolveu atividades visando à resolução de problemas.

Marchi destaca que, no Brasil, a teatróloga Ingrid Koudela é uma das pesquisadoras do trabalho de Spolin e pode ser uma boa referência. Ele também recomenda o livro “Jogos e improvisação teatral”, de Robson Rosseto, e o trabalho de Carmela Soares. “Ela busca ver a escola a partir de suas possibilidades. Por exemplo, como eu utilizo as carteiras da sala em algum jogo quando não há sala vazia para se fazer teatro?”, ilustra.

Neves recomenda o “Teatro do Oprimido”, sistematizado por Augusto Boal, incluindo o livro “200 exercícios e jogos para o ator e o não ator com vontade de dizer algo através do teatro”.

A seguir, o trio de especialistas indica 11 jogos teatrais para serem usados em sala de aula. Confira!

1) De onde venho e para onde vou

Um aluno sai da sala para, em seguida, entrar e realizar alguma ação que demonstre que chegou de algum lugar (tirar uma mochila das costas, uma gravata etc.). “Isso tudo realizado sem os objetos reais, mas mostrando no corpo as sensações”, explica Marchi. O grupo, então, discute para chegar a um acordo sobre “de onde aquela pessoa veio”. “O jogo lida com os saberes prévios dos alunos, permite conhecer o repertório da classe e prova que, com poucas ações, é possível demonstrarmos algo sem estereótipos ou a verbalização”, ressalta. Indicado para crianças a partir dos oito anos.

2) Objetos com o corpo

Os alunos recebem um número de 1 a 5 e caminham pelo espaço. O professor pede para que todos que têm o número 4, por exemplo, montem coletivamente com o corpo algum objeto — como um ventilador — em dez segundos. Ao final, o grupo comenta se ficou ou não parecido, quem era qual parte do objeto, etc.

“O tempo curto serve para desestabilizar o corpo e mostrar que, no improviso, precisamos resolver o problema e para isso, nem sempre o caminho mais racional é o ideal”, diz Marchi. “O jogo também mostra que não precisamos ter objetos concretos para todas as cenas: o corpo e o trabalho coletivo resolvem questões como o cenário”.

3) Fisicalização

Consiste em mostrar com o corpo sensações, objetos, lugares, etc. A finalidade é explorar diferentes corporeidades, fugir de estereótipos e trabalhar a consciência corporal.“É diferente de imitar, pois na imitação de um celular, por exemplo, podemos simplesmente fazer com as mãos o dedão de antena, o dedinho de microfone e levar a mão no ouvido. Na fisicalização, o celular precisa ser ‘visto’: ele tem um peso, um tamanho, uma forma de pegar como na vida real”, explica Marchi. O exercício também pode ser aplicado para sensações e externalizar sentimentos. “Como nosso corpo sente a chuva, frio ou uma nuvem de mosquitos? Como nossos pés ficam quando estamos felizes, tristes ou com raiva?”, elenca.

4) Apresentação, nome e movimento

Os estudantes estão em pé e formam uma roda. Um dos estudantes inicia dizendo seu nome e simultaneamente fazendo um movimento escolhido na hora. O aluno ao seu lado no sentido pré-determinado, repete o nome e o movimento do aluno anterior, em seguida fala o seu próprio e cria um movimento diferente e, assim, sucessivamente até o último aluno. “Ao invés do movimento, pode-se emitir sons ou fazer gestos”, indica Oliveira. É indicado para crianças a partir dos seis anos

5) Transformação

Em roda, um aluno escolhe um objeto real, como um copo, corda, lenço, cabo de vassoura. Na sequência, ele deve “transformá-lo” em outro objeto ou utilitário que não seja o próprio objeto e suas funções. “Por exemplo, um lenço pode ser transformado em uma corda, uma bolsa, um chapéu, um bebê, etc.”, ensina Oliveira. Dentro de cada transformação o aluno deve usar o corpo, sons e interpretar a ação. Após determinado tempo, os demais estudantes da roda podem também tentar adivinhar qual seria o objeto transformado. O jogo trabalha expressão corporal e criatividade, sendo indicado para crianças a partir dos seis anos.

6) Hipnotismo

Em duplas, os estudantes escolhem quem será o hipnotizador e o hipnotizado. O hipnotizador coloca uma de suas mãos a poucos centímetros do rosto do hipnotizado, sendo que este deve manter certa distância da mão. “Ele inicia uma série de movimentos com as mãos — retos e circulares — fazendo com que o companheiro execute com o corpo todas as estruturas musculares possíveis, a fim de se equilibrar e manter a mesma distância com a mão”, descreve Oliveira.

Depois de alguns minutos, os alunos trocam de papeis. “A atividade pode acontecer em trios onde há um hipnotizador e dois hipnotizados. Também, pode-se hipnotizar através da cabeça, do cotovelo, da cintura, do joelho, do pé ou qualquer outra parte do corpo”, acrescenta o professor. Esse jogo trabalha coletividade, concentração e é indicado para maiores de sete anos.

7) Improvisando cenas com situações cotidianas

Divida a classe em grupos acima de 3 estudantes. Proponha a encenação, sem falas, de uma cena improvisada sobre um acontecimento cotidiano: fila de ônibus, feira livre, sala de espera de dentista etc. Em cinco minutos, deixe os grupos decidirem o enfoque a ser dado à situação proposta, lembrando que a cena deve ter um começo, um meio (clímax) e um fim. As equipes apresentam a cena para a classe e, ao final, a plateia tenta adivinhar o “Onde”, o “O quê” e o “Quem” da cena. “Faça um debate que enfoque as semelhanças e diferenças entre imitação e realidade”, recomenda Oliveira. Atividade indicada para alunos a partir dos oito anos.

Confira: Teatro de sombras explora criatividade e expressão corporal nas aulas de artes

8) Transforme a cena

O professor solicita para a plateia uma letra do alfabeto (letra V, por exemplo). Em seguida, pede que um dos jogadores vá ao palco e transforme o corpo naquela letra. Depois, uma segunda pessoa sobe ao palco e tenta se encaixar na “estátua” proposta pelo primeiro jogador. Ao comando do professor, ambos começam a improvisar uma cena.

Em determinado momento, o docente grita: “Congela”, o primeiro aluno sai e entra para começar uma nova improvisação inspirado na postura congelada. E assim sucessivamente até todos os alunos participarem. O jogo trabalha escuta de cena, criatividade e improvisação, sendo indicado para maiores de dez anos. “Importante: não se pode negar a proposta do outro na improvisação”, salienta.

9) Tradução simultânea

O professor indica o tema de uma palestra e um jogador a ministra por meio de uma língua inventada. Um segundo jogador atua como tradutor desta para a língua portuguesa. A plateia poderá fazer perguntas. As posições de palestrante e tradutor podem ser revezadas.

“O palestrante experimenta dizer por meio de uma fonética e entonação não usual, buscando uma expressividade vocal e facial principalmente. E o tradutor precisa interpretar e transmitir ao público algo coerente com a entonação e tamanho das frases emitidas pelo palestrante, buscando alguma coerência com a expressividade dele”, explica Neves.

10) A notícia

São dois jogadores em cena. O jogador 1 encontra um papel (em branco) sobre a mesa, e lê seu conteúdo em silêncio enquanto procura transmitir as emoções trazidas pelo que estaria escrito. “Em seguida, entra em cena o jogador 2, que o encontra em plena emoção da leitura e para quem o jogador 1 revela o conteúdo lido. Com estas duas informações apenas, os dois jogadores precisam criar uma coerência e finalizar a cena com uma solução”, recomenda Neves.

11) Todos jogam.

Cada jogador coloca no centro da roda um objeto pessoal que esteja portando no momento, como anel, garrafa de água, caneta, boné, etc. Em seguida, ele narra a sua história envolvendo aquele objeto e oferece o maior número de detalhes possível: como e quando o mesmo chegou em sua vida e qual a relação que estabelece com ele, por onde passou, entre outras possibilidades de acordo com o tipo de objeto.

Depois que todos os participantes fizerem a narrativa a partir de seu objeto, o professor redistribui esses itens oferecendo-os a um aluno diferente. “A partir desse momento, cada um deve narrar a história do objeto, como se fosse seu, buscando lembrar o máximo de detalhes trazidos pela narrativa do real dono do objeto. Caso o jogador não se lembre dos detalhes, deverá criar uma narrativa”, assinala Neves.

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