O teatro de sombras é uma linguagem do teatro de animação de origem asiática e com tradição milenar. Indícios apontam sua criação na China ou Índia, aproximadamente 3.500 a.C.

“A sombra ganha vida quando projetada, podendo ser transformada e assumir papéis distintos”, resume a professora do Departamento de Artes Cênicas da Universidade de Brasília (UnB), Fabiana Lazzari.

Pesquisadora da linguagem, ela indica seu uso no ensino de Artes durante toda a educação básica.
“É expressão artística, cultural e contribui com o desenvolvimento humano em toda faixa-etária”, explica.

Sobre as etapas do desenvolvimento humano que colabora, destacam-se a percepção visual, auditiva, espacial, temporal, sinestésica, ação e reação, equilíbrio, lateralidade e precisão dos movimentos.

Explorando as proporções e o espaço da sombra. (Crédito: Fabiana Lazzari/acervo pessoal)

Para o arte educador e professor do curso de Artes Visuais da Universidade do Oeste Paulista (Unoeste), Josué Pantaleão, criatividade e expressão corporal também são trabalhadas.

“Explora-se comunicação verbal, corporal e o trabalho em equipe”, adiciona.
Segundo a educadora Geovana Troffini, o teatro de sombras pode ajudar a introduzir os alunos no mundo das artes.

Explorando paisagens com o corpo. (Crédito: Fabiana Lazzari/acervo pessoal)

“Como não obrigatoriamente elas se expõem, atuando atrás do pano, são estimuladas a se soltarem enquanto criam formas e imagens”, justifica.

Da sensibilização à criação

Para o uso do teatro das sombras no ensino de artes, Lazzari propõe uma sequência didática dividida em três momentos: sensibilização, fundamentos técnicos e criação cênica.

Na primeira parte, destaca-se que a sombra foi objeto de investigação de filósofos – como Platão em o Mito da Caverna – artistas e cientistas.

“É impalpável, incolor, inodora, inaudível e insípida, mas desperta curiosidade e, por vezes, medo. Há histórias, tabus e mitos sobre ela em diferentes culturas”, aponta.
Ainda nesse momento, são propostas dinâmicas e questionamentos sobre luz e escuro, permitindo diferenciar sombra natural da artística.

“Com uma fonte de luz e no escuro, os estudantes observarão a sombra do próprio corpo deitada, em pé ou projetada em diferentes suportes”, indica.
O segundo momento discute os recursos técnicos necessários, como: fonte de luz (lanternas, luzes halógenas, leds, lazer, retroprojetores e projetores); suporte para a projeção da imagem (tecidos, paredes, papéis e corpos); ‘personagens’ (figura, silhuetas, bonecos objetos e corpos) e um espaço escuro.

Explorando as figuras de seus desenhos e corpos. (Crédito: Fabiana Lazzari/acervo pessoal)

Já a etapa de criação cênica terá seu nível de complexidade associado à idade dos alunos, variando de exercícios livres a dramaturgias elaboradas.

O teatro das sombras possibilita a incorporação de outras linguagens artísticas, como música, dança e textos. Além das aulas de Artes, é recurso de ensino em outras disciplinas, como Literatura e História.

“Pode ser usado para narrar histórias de livros e de eventos históricos, inclusive aqueles violentos. Nesse caso, a intenção não será romantizá-los, mas facilitar o entendimento daquela situação pelos alunos”, diz Troffini.

Experimentação

Muito do trabalho com o teatro das sombras está na experimentação com os alunos. Lazzari fez um exercício de procurar as sombras da natureza utilizando o sol e um “caça sombras”. Este é um pequeno suporte de projeção em retângulo bidimensional (50cmx30cm), com bordas de papelão e interior forrado com papel.

Caça sombras. (Crédito: Fabiana Lazzari/acervo pessoal)

“Na aula, projete as sombras encontradas com uma lanterna, destacando as diferenças entre a luz natural e a artificial”, orienta.

Outra dinâmica é acender uma vela em local escuro. “Movimente-a e questione: todos os corpos presentes projetam sombra? A luz se propaga em todas as direções? O que acontece com as sombras quando há diferentes movimentos?”, sugere.

Pantaleão recomenda criar um teatro de sombras utilizando uma caixa de papelão recortada. No lado da frente, deixe apenas uma ‘moldura’ de dois centímetros, que receberá papel manteiga. A parte de trás será retirada completamente.

Testando as figuras de sombra. (Crédito: Fabiana Lazzari/acervo pessoal)

“Cole os personagens de papel em um palito, acenda uma lanterna por trás da caixa e apresente a peça”.
Em tempos de pandemia, o teatro de sombras ainda pode ser adaptado ao ensino não presencial.

“O professor estará diante de outra linguagem, parecida com o audiovisual e telepresença, não a presença real do teatro”, reflete. “Pense na escala da tela. Trabalhar com o corpo inteiro em cena fica mais difícil devido ao espaço ser delimitado pela tela do computador ou do celular”, alerta Lazzari.

Links para inspirar

Como referência para o professor, Lazzari indica a Cartilha Brasileira de Teatro de Sombras Contemporânea e páginas de Cias Teatrais que trabalham com a linguagem. Entre elas: Cia Karagoswk; Cia Luzes e Lendas; entreAberta Cia Teatral; Cia Teatro Lumbra de Animação; Cia Quase Cinema; Cia Lumiato; Grupo Penumbra; Cia Fios de Sombras e Paraíso Cênico.

Espetáculo “Um encanto em Nagalândia”.  (Crédito: Giuliane Gava/acervo pessoal)

Há ainda um vídeo da Cia Articularte utilizando mãos; outro do Grupo Pilobolos com dança e Exploração de formas com as mãos.

(Crédito da foto em destaque na matéria: Alexandre Fávero/entreAberta Cia Teatral)

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