Fazer rir é a função do palhaço ou clown, personagem que tem uma origem incerta. Profissionais que faziam as vezes de “bobo da corte” já eram conhecidos no Egito, China Antiga e na Idade Média. A palhaçaria, contudo, não precisa se restringir ao circo, podendo se fazer presente na escola. Os benefícios para os alunos são diversos.

“Ele é um ser transgressor, um arquétipo da infância, que convida os estudantes a usarem o erro na construção do conhecimento”, afirma a professora do Instituto de Artes da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), Ana Elvira Wuo.

“Ele subverte a lógica da sociedade atual do sucesso, do primeiro lugar, da competição, na qual as pessoas precisam ser bonitas e bem-sucedidas. Por meio do ridículo, o palhaço contrapõe essa coisa da imagem e diz que os erros não devem ser escondidos, mas revelados para fazer rir. Assim, promove aceitação de si e humanidade.”

Apesar da palhaçaria ser usada mais popularmente nas aulas de artes e educação física, a pesquisadora garante que ela pode se fazer presente em qualquer disciplina ou conteúdo.

“O palhaço proporciona uma aprendizagem lúdica por meio de brincadeira e improviso. E por que não rir na escola? Como disse [o filósofo racionalista] Espinosa, a alegria é potencial de vida”, destaca.

“O riso, o ridículo e o lúdico fazem parte do nosso cotidiano, porém, na educação, essas potências foram dando lugar ao sério, ao sisudo”, lamenta a coordenadora do curso noturno de pedagogia da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Lúcia de Fátima Royes Nunes.

“A criança, por si só, tem alegria, é lúdica e risonha. O clown chega para reforçar esse recado”, complementa ela, que trabalha com o palhaço nas formações de professores.

“O personagem tem a mesma lógica dos pequenos. Quando se fala em engarrafamento, ele questiona onde está a garrafa. Se pedem para passar o arroz na mesa, ele pega um ferro”, acrescenta Wuo.

Para completar, jogos e brincadeiras a partir do clown incentivam o improviso e uma dinâmica de cooperação. “É uma arte da relação, porque o palhaço precisa do outro”, define Wuo.

Nariz vermelho

De acordo com Nunes, o palhaço pode ser utilizado na escola por meio de jogos, espetáculos cênicos ou usando apenas a sua linguagem durante as aulas.

“São várias as atividades para trabalhar o estilo ‘clownesco’, como brincar de gato e rato com os olhos vendados, disputar uma corrida em que o perdedor é o que cruza primeiro a linha de chegada, criar uma relação imaginária com os objetos etc.”

“Costumo fazer uma atividade dizendo que haveria uma apresentação do circo na escola, mas o carro quebrou e eles não vieram. Agora, a turma será a responsável por fazer todos os números”, recomenda Wuo.

“Com isso, é possível trabalhar a história do circo, o circo invisível (feito sem objetos), pensar figurinos, um nome para os palhaços e um corpo engraçado. Por exemplo, como o palhaço sentaria na cadeira?”, questiona.

Já o educador e autor da dissertação “Por uma Pedagogia do Palhaço” (USP), Marco Antônio da Silva, relembra que o clown não precisa ser usado diretamente nas aulas, podendo fazer parte da formação do professor. “Essa figura não é estereotipada, ou seja, o docente não usa nariz, sapatos grandes, roupas largas e pinta o rosto”, afirma.

Em sua pesquisa, o professor utiliza quatro principais técnicas na sala de aula: o riso, o corpo jogador, a transgressão e a inversão. O corpo jogador é desenvolvido por meio de exercícios, para o docente ter consciência do seu corpo em sala de aula. A transgressão se dá na forma de apresentar o conteúdo fora dos modelos tradicionais de ensino.

“Já a inversão é apresentar as situações invertidas, como a disposição dos móveis, do jeito de apresentar-se, as roupas etc. É um tipo de transgressão e, ao mesmo tempo, um jogo”, esclarece.

“Todo professor estabelece relações com o aluno e também é um ator: precisa interagir e brincar. Rir de si mesmo traz empatia”, diz Wuo.

A pesquisadora, contudo, defende que o docente que queira utilizar as palhaçadas em aula faça algum curso de formação. “Palhaço não é só usar um nariz vermelho, é necessário estudo”, reforça.

Ela também indica o circo como programa para férias. “Sugiro espetáculos com palhaços de acordo com a faixa etária de cada criança, para eles aproveitarem melhor as piadas”, recomenda.

Veja mais:
Plano de aula: O riso dos outros

Crédito da imagem: Vicheslav – iStock

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