Quantas riquezas um bairro pode guardar? O pão que o seu Manuel prepara na padaria da esquina tem química. A matemática é riscada a tijolo pelo pedreiro que levanta o edifício. Há geometria no voo das andorinhas, que brincam com o vento no final da tarde. E, por fim, arte e poesia “escapam” pela fala coloquial dos vizinhos em suas conversas.

“Os saberes explorados em sala de aula são os mesmos que estão no entorno do ambiente escolar, da mesma forma que é impossível separar a expressão artística do cotidiano e da cidade. Então, porque colocar um muro entre as crianças e os nossos saberes populares?”, questiona o ator e educador Valber Rodrigues, que há um ano utiliza praças e outros espaços ao redor das escolas municipais de Poços de Calda (MG) para ensinar teatro. “O livro é um intermediário indispensável, mas acredito que o padeiro, o pedreiro, a andorinha e os vizinhos também são mestres”, garante.

O projeto de Rodrigues se chama “Teatro em Jogo: Lugar de Arte é na Rua” e acontece em parceria com a Secretaria Municipal de Educação. A iniciativa possui dois aspectos norteadores: a ocupação do espaço público com oficinas de teatro e a criação coletiva.

“Em relação ao primeiro, há o desejo de democratização do acesso à arte, além da utilização do entorno como mobilizador pedagógico na criação. Os estímulos oriundos da rua e a arquitetura da região são usados como mote criativo, a fim de potencializar uma relação extracotidiana com a cidade”, destaca.

Já em relação ao segundo, a oficina aposta no exercício chamado “Coro e Corifeu” para estimular a criação em grupo. A atividade é uma espécie de “siga o mestre”, em que as crianças devem formar um só organismo e vivenciar uma ação em conjunto.

“Jogos desenvolvem a capacidade da criança perceber que pode modificar o espaço a partir do uso que dá para ele”, diz Valber Rodrigues.

 

“Ao se colocarem em coro, os participantes precisam agenciar suas subjetividades e vontades individuais para potencializar a vida e a ação desse organismo. E é ele que deverá intervir no espaço público a fim de ressignificá-lo”, compara. “Assim, os jogos desenvolvem a capacidade de perceber o local, o outro e a si. E, principalmente, a percepção de que podemos transformar a área ao redor a partir do uso que damos para ela”, defende.

Outro exercício que Rodrigues passa aos alunos é a “Roda de Alienígenas”. O jogo consiste basicamente em inventar um ser extraterrestre, para que os participantes sejam estimulados a experimentarem gestos corporais que não usariam no dia a dia.

“Alguém toma a frente e propõe uma organização corpórea, que inclui um gesto, um ritmo e uma linguagem inventada (que, no teatro, chama-se gromelô). Inventado esse alienígena, outra pessoa se apropria dessa corporeidade e a dupla começa uma ação. Depois disso, saímos todos em um grande coro de seres de outro mundo explorando esse planeta novo que acabamos de encontrar: a praça”, diverte-se.

Cidade é corpo e vida

Para Rodrigues, há uma relação íntima entre o corpo e a cidade. “Ela é plástica, tem volumes, texturas, sabores, cores, ritmos e temperaturas. E o ser humano é assim também”, compara. “O problema é que o ambiente urbano como lugar de passagem não nos deixa abertura para experimentá-lo”, lembra.

Além disso, para o educador, o teatro ensinado em espaço público é uma metáfora para lidar com a instabilidade da vida. “A rua tem muito mais estímulos simultâneos que a sala de aula, o que exige maior habilidade para fazer dessa inconstância uma potência e capacidade de fazer escolhas e lidar com seus desdobramentos “, aponta.

“Algumas cartilhas pregam a vida como um campo de certezas e constância, e isso é tudo que a vida não é. Nós estamos sempre em construção. Essa, ao meu ver, é a condição sine qua non [expressão que vem do latim e significa “indispensável, essencial”] da vida. A rua também sintetiza isso”, finaliza.

Crédito das imagens: arquivo pessoal Valber Rodrigues

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