Democratizar o acesso ao ensino superior de jovens de baixa renda é um desafio e pode ter na escola um forte aliado. Foi o que fizeram os graduandos das licenciaturas de Ciências Biológica, Química e Física da Universidade Federal de São Carlos (Ufscar) que atuavam em uma escola pública da região paulista pelo Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência (Pibid). Eles desenvolveram o chamado “Projeto Enem” para esclarecer três dificuldades identificados nos estudantes: desconhecimento dos processos que envolvem o acesso ao ensino superior; do que é uma instituição de ensino superior e uma graduação; e também o receio de não ingressar em uma universidade para trabalhar e ajudar na renda familiar.

Segundo a mestranda da Pós-Graduação em Química da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Marina Dias Saraiva, grande parte dos alunos desconhecia o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e provas vestibulares de instituições públicas e privadas. “O Enem era visto como uma prova para desconto na mensalidade da faculdade ou sem utilidade em suas vidas. Encontramos alunos que acreditavam que o acesso ao ensino superior era feito somente mediante pagamento de mensalidades, desconhecendo a gratuidade do ensino superior em instituições públicas”, relembra.

Os achados da iniciativa foram relatados pelo grupo de pesquisadores no artigo “Projeto Enem: contexto e oportunidades para o acesso ao ensino superior” (2022). A seguir, a especialista compartilha 11 orientações para que professores de outras redes públicas do país ajudem a aproximar os secundaristas do ensino superior. Confira!

1) Primeiro, explique o que é uma graduação

Destaque que o ensino superior não é somente um nível profissionalizante, mas também uma formação humana e reflexiva. “É uma formação intelectual para questionar e solucionar assuntos relacionados à comunidade e ao convívio social. Assim, é possível demonstrar que esse nível de ensino vai além de formar mão de obra para o mercado de trabalho”, ressalta a pesquisadora.

Na sequência, diferencie as instituições privadas e públicas, salientando a gratuidade da última. “Fale do funcionamento de uma instituição de ensino superior e o tripé da universidade: ensino, pesquisa e extensão”, aconselha Saraiva.

Para completar, exponha as diferenças entre os cursos de bacharelado, licenciatura e tecnológico, além de explicar as modalidades presencial e a distância.

2) Traga ex-alunos de redes públicas que entraram na universidade

Crie rodas de conversa com ex-secundaristas de escolas públicas que adentraram no ensino superior para contar suas trajetórias e jornada de vida.

“Ao ver o estudante universitário com uma trajetória próxima à sua, o aluno da escola se identifica com ele e percebe que também pode ocupar esse espaço. Além disso, as rodas de conversa possibilitam conversas francas, exposição de dúvidas e reflexão”, conta a pesquisadora.

3) Ensine sobre os programas do governo e como acessá-los

Após conhecerem graduandos como eles, os alunos podem estar mais abertos a pensar a universidade como projeto de vida. Assim, o próximo passo é falar sobre formas de ingresso como o Enem, o Sistema de Seleção Unificada (SiSU), o Programa Universidade para Todos (Prouni) e o Fundo de Financiamento Estudantil (FIES).

“O SiSU possibilita a inscrição em vagas de universidades públicas de todo o país para os estudantes que participam do Enem. Majoritariamente, essas vagas são em universidades ou institutos federais de ensino superior”, lembra Saraiva.

Para participar, é necessário fazer o Enem e obter uma nota acima de zero nas provas e na redação. “Quando o estudante se inscrever no SiSU, deve atentar-se ao fato de que cada universidade exige uma nota mínima (“de corte”) para cada um dos cursos de graduação propostos. Assim, deve procurar as informações sobre o curso, as notas de corte mais recentes para saber como ficará sua classificação”, alerta a especialista.

Sobre o Prouni, explique que suas inscrições são abertas logo após a divulgação dos resultados do SiSU e seu objetivo é conceder bolsas de estudo em instituições particulares. Essa bolsa pode ser integral (100% de desconto) ou parcial (de 50% a 75%).

“Alguns requisitos são necessários, como obter nota mínima de 450 pontos no Enem, não ter zerado a redação e ter cursado o ensino médio em escola pública ou em escola particular com bolsa integral. Para obter bolsas integrais, a renda per capita familiar deve ser de até 1,5 salário mínimo e, para bolsas parciais, até três salários mínimos”, explica.

4) Converse sobre a lei de cotas

No SiSU, as cotas são oferecidas para estudantes autodeclarados negros, pardos ou indígenas, estudantes que cursaram o ensino médio em escola pública, estudantes provenientes de famílias de baixa renda, e estudantes com deficiência (PcD).

5) Apresente formas alternativas de ingresso

Algumas instituições já oferecem ingresso a partir do bom desempenho em olimpíadas e outras competições de conhecimento de nível médio. Alguns exemplos são as olimpíadas nacionais e internacionais de matemática, física, química, biologia, informática e computação, robótica e astronomia. “Muitas oferecem vestibular específico para os povos originários também”, destaca Saraiva.

6) Esclareça as políticas nas universidades particulares

Há políticas de gratuidade e financiamentos propostos pelas instituições particulares. “Essas ações de descontos, financiamentos e gratuidades são chamadas de bolsas, inclusive em suas divulgações na mídia. Deve-se deixar claro ao estudante que, em caso de descontos, ele ainda poderá ter que pagar uma parte da mensalidade e sua matrícula, já que a instituição não é gratuita”, lembra a docente.

Em caso de financiamento, esses valores serão cobrados após a conclusão do curso. Mas há também a possibilidade das “bolsas 100%”, na qual eles não serão cobrados nem durante o curso, nem posteriormente (podendo ou não incluir as taxas de matrícula).

7) Fale sobre as políticas de permanência nas universidades públicas

Por fim, vale diferenciar as ‘bolsas’ das universidades particulares das oferecidas nas instituições públicas.

“Nas instituições públicas de ensino superior, o que chamamos de bolsa são as ações afirmativas de permanência. O objetivo delas é auxiliar financeiramente os alunos economicamente desfavorecidos em questões de alimentação, moradia, transporte e custos extras em alguns casos”, explica Saraiva.

Quando são auxílios de moradia, os valores podem ser depositados aos estudantes para aluguéis ou vir na forma de vagas em moradias estudantis mantidas pela instituição.

No quesito alimentação, é comum que o benefício seja a gratuidade das refeições servidas nos próprios restaurantes universitários, podendo ou não ser fornecido auxílio financeiro em dias de não funcionamento dos restaurantes.
“É indispensável saber que cada instituição tem sua própria normas, quais os requisitos para que o indivíduo seja contemplado e a quantidade de auxílios a serem oferecidos”, pontua.

8) Diferenciar as bolsas de pesquisa

Vale destacar que ambas as instituições (privadas e públicas) oferecem ainda as bolsas de pesquisa e extensão, financiadas por agências de fomento como a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e as próprias fundações de apoio institucional de cada universidade e faculdade.

Nesses casos, as bolsas não estão vinculadas a descontos, financiamentos ou gratuidades. “Elas são provenientes de programas vinculados à universidade que pagam valores mensais, atualmente em torno de R$ 400, para que os estudantes desenvolvam pesquisas científicas, iniciações à docência e participem de projetos de extensão, que são voltados à comunidade fora da universidade”, salienta Saraiva.

9) Aproxime os alunos de diferentes profissões

Muitas vezes, o leque de profissões que os alunos conhecem e suas diferentes possibilidades de atuação na sociedade é restrito. Assim, vale expandir esse repertório por meio de feiras de profissões presenciais ou remotas. Elas podem partir de um questionário no qual os estudantes indicam as carreiras que lhes despertam interesse. “Assim, a escola consegue buscar profissionais de forma direcionada”, sugere a docente.

Também são opções propor apresentações sobre profissões de interesse criadas por professores ou grupos de alunos, trabalhar com RPG e fazer visitas guiadas a empresas, indústrias e outros ambientes de trabalho para que os alunos possam vivenciar um dia na profissão.

10) Convide os cursinhos pré-vestibulares sociais da cidade a irem à escola

O professor pode apresentar aos alunos os cursinhos pré-universitários populares – geralmente, vinculados a universidades, ONGs e prefeituras. Aqui, vale trazer seus representantes para conversar com a turma.

“Muitos estudantes não entram na universidade logo após a conclusão do ensino básico, seja por nota nos exames ou por optarem por prestar as provas mais tarde. Desses, alguns não terão subsídio financeiro para adentrarem um curso pré-vestibular particular. Assim, saber da existência dos populares possibilita continuar estudando e se aperfeiçoando para as provas de forma gratuita”, defende Saraiva.

11) Mantenha um canal aberto para esclarecer dúvidas

Durante todo o processo, é importante manter canais de perguntas e respostas com os alunos. Como muitos podem ser tímidos, Saraiva aconselha caixas de perguntas onde eles possam fazer seus questionamentos de forma anônima.

“Faça uma roda de conversa para falar sobre as perguntas depositadas na caixa. Isso traz respostas, reflexões e promove diálogos sobre novas inquietudes que possam surgir”, sugere a professora.

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Atualizado em 08/02/2023, às 09h57

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