Keishia Thorpe é uma imigrante jamaicana que conseguiu cursar universidade nos Estados Unidos (EUA) com bolsa de atletismo. Ela se formou como primeira da turma e se tornou professora de língua inglesa na escola International High School Langley Park, onde ajuda jovens imigrantes, refugiados e de baixa renda a acessarem o ensino superior. Ela foi a ganhadora do Global Teacher Prize 2021, da Fundação Varkey, em parceria com Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).

“Sinto-me conectada aos alunos porque compartilhamos a mesma história de imigração e lutas”, justifica. Entre suas iniciativas, a docente deixou o currículo mais significativo para seus estudantes de origem africana, central e sul-americana. Dedicou a primeira parte do semestre para ensinar como redigir cartas de apresentação para as universidades e formas de acessar bolsas de estudos. “Houve 40% de aumento na leitura, melhora nos testes e 50% dos estudantes conseguiram créditos universitários”, comemora. Em entrevista exclusiva, ela compartilha com os professores brasileiros alguns desafios e aprendizagens da sua trajetória.

Keishia Thorpe vencedora global teacher prize 2021
Keishia Thorpe, recebendo o Global Teacher Prize 2021 (crédito: divulgação)

Instituto Claro: Seus alunos do ensino médio viam a faculdade como possível?

Keishia Thorpe: Jovens com vulnerabilidade socioeconômica e risco de evasão não imaginam ir ao ensino superior. E mudar essa mentalidade é desafiador. Meus alunos são imigrantes ou refugiados da África, Oriente Médio, Caribe e América do Sul e Central. São aprendizes da língua inglesa e lutam para superar barreiras culturais e do idioma. Além disso, 95% são de baixa renda e estão se preocupando sobre como pagar a faculdade. Só que independentemente das circunstâncias, não os vejo como deficitários. Se vou prepará-los para a faculdade, é importante não diminuir minhas expectativas sobre eles e encontrar maneiras de envolvê-los e apoiá-los. Eu os desafio a imaginarem o próximo passo de suas vidas que, geralmente, é o ensino superior.

O que você fez para inspirá-los sobre a universidade?

Thorpe: Eles ficam inspirados quando percebem o tempo e dedicação que investimos neles. Eu estreitei o relacionamento com eles e seus familiares, o que aumentou a frequencia escolar, melhorou a performance em testes e a participação parental na escola. Reformulei o currículo para torná-lo culturalmente relevante e para que todos se sentissem valorizados, seguros e conectados ao conteúdo. Com isso, houve 40% de aumento na leitura, melhora nos testes preparatórios e 50% dos estudantes conseguiram créditos universitários. Pudemos formar nosso primeiro grupo de alunos.

Também sou imigrante jamaicana. Cursei a universidade com bolsa de estudos de atletismo e me formei como a primeira da turma. Experimentei o poder transformador da educação e me sinto conectada a esses alunos porque compartilhamos a mesma história de imigração e lutas. Digo-lhes: já estive no seu lugar e, por isso, recuso-me a aceitar menos do que você pode oferecer.

Quais ajudas e orientação você oferece a eles?

Thorpe: Dedico a primeira parte do currículo para ajudá-los a redigirem suas redações de apresentação à universidade, a entenderem o processo de seleção e como acessarem bolsas de estudo. Entre 2018 e 2019, conseguimos o equivalente a US$ 6,7 milhões em bolsas para 11 faculdades diferentes.

Além disso, eu e minha irmã gêmea, Treisha Thorpe, criamos a ONG “US Elite International Track and Field, Inc”, para que alunos-atletas vulneráveis de todo o mundo acessem bolsas de estudo no ensino superior dos Estados Unidos. Construímos uma rede de treinadores universitários com os quais alunos-atletas fazem dupla . Oriento alunos de países da América do Sul, Central e África, com a missão de que eles se formem sem dívidas. Para isso. Até o momento, foram mais de 500 bolsistas, sendo que 20% deles seguiram para o mestrado e 8% para a pós-graduação.

Por fim, os exames SAT – necessários para acessar o ensino superior dos EUA – foram suspensos na pandemia. Assim, passamos a oferecer aulas e simulados gratuitos e online.

Quais são suas dicas para professores de escolas públicas brasileiras que vivem uma realidade semelhante com seus alunos do ensino médio?

Thorpe: Eu os encorajaria a conhecerem as origens, famílias e comunidades de seus alunos. A fazerem alterações no currículo ou no ensino que impeçam a obtenção da melhor educação possível.

Reconheça a identidade dos seus alunos, apoie-os, motive-os, faça-os saber que você acredita neles e que não há limites para o que possam alcançar. Dê voz a eles dentro da sala de aula e amplie a voz deles fora da escola. Ensine-os a advogar por si próprios, a serem pensadores globais e solucionadores de problemas. Temos o poder de fazer a diferença na vida de cada criança, de tornar o mundo melhor para as gerações futuras. Professores são importantes!

Como formadora de novos professores, que assuntos acha importante discutir com os pares?

Thorpe: Aconselho os professores novatos a buscarem orientação e oportunidades de desenvolvimento profissional, a ajudarem seus alunos vulneráveis e com risco de evasão; a lidarem com as barreiras da linguagem, saúde mental e identidade presentes. E há muitas maneiras de se envolver. No meu caso, participei do sindicato, de publicações acadêmicas e ajudo a pensar o orçamento anual da escola. Como o panorama da educação do século XXI é complexo, vale rever constantemente o que está funcionando, o que precisa ser mudado e a melhor maneira de fazer isso. Por meio do diálogo, cooperação, parcerias e representação pode haver um caminho a seguir.

Veja mais entrevistas com os ganhadores do Global Teacher Prize:

“Escutar e não impor ideias aproxima professor da comunidade”, recomenda ganhador do Global Teacher Prize 2020

Ganhador de Global Teacher Prize, professor do Quênia usou criatividade contra escassez tecnológica (Peter Tabichi – Quênia/2019)

Ganhadora do Global Teacher Prize 2018 usou arte para melhorar confiança dos alunos (Andria Zafirakou – UK/2018)

“Ao entender sua comunidade, professor torna a aprendizagem relevante”, diz vencedora do Global Teacher Prize (Maggie MacDonnell – Canada/2017)

O que você pode aprender com a melhor professora do mundo? (Hanan Al Hroub – Palestina/2016)

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