Escuta e empatia. Foi com essas bases que o professor indiano Ranjitsinh Disal conseguiu que toda a comunidade de Zilla Parishad, uma vila rural e remota no estado de Maharashtra, abdicasse da tradição de casar as meninas aos 12 anos e fazê-las largar os estudos. Essa e outras iniciativas do educador, que atua em uma escola do governo, lhe renderam o Global Teacher Prize de 2020 – espécie de “Nobel da Educação” oferecido pela Varkey Foundation. Ranjit, como é conhecido, mudou para a vila, aprendeu o idioma da comunidade e buscou entender como as famílias de lá pensavam.

“Eu precisava ser visto e aceito pela comunidade se eu quisesse mudar as coisas. Em vez de impor regras, precisava sugerir alternativas viáveis para conseguir a adesão dos pais e da comunidade”, diz ele e orienta professores brasileiros que desejam se aproximar das suas comunidades escolares. “Mostre primeiro que você respeita o modo de vida e tradições dela. Isso exige escuta”, recomenda.

ranjitsinh Disale
Ranjitsinh Disal (crédito: The Varkey Foundation/Divulgação)

Por que você decidiu aprender a língua da comunidade escolar?

Ranjitsinh Disal: Quando cheguei, em 2009, a escola estava em um prédio degradado situado entre um estábulo e um depósito. Os maiores desafios eram a péssima situação da educação das meninas e a comunicação. A língua falada era o Kannada, mas o currículo escolar estava em Marathi. Isso as incapacitava de aprender. A frequência escolar era de 2% e a escola recebia notas baixas porque os alunos não alcançavam os resultados de aprendizagem esperados. Como eu não sabia falar Kannada, era desafiador ensinar. Para superar isso, decidi permanecer na aldeia e aprender o idioma.

Qual a importância de estar próximo da comunidade para desenvolver um bom trabalho?

Ranjit: Eu precisava ser visto e aceito pela comunidade se eu quisesse mudar as coisas. Eu enfrentei resistência no início, mas busquei entender a forma como pensavam. Em vez de impor regras, precisava sugerir alternativas viáveis para conseguir a adesão dos pais e da comunidade. Por exemplo, a agricultura e o uso da terra são fundamentais lá. Os alunos usaram as habilidades do século 21 para encontrar soluções e impedir a perda de biodiversidade na vila. Depois de dez anos de esforços, aumentamos as áreas verdes de nossa aldeia de 26% para 33%.

Que tipo de argumento você usou para conscientizar os pais sobre a importância dos estudos para as meninas?

Ranjit: A maioria dos alunos vinha da comunidade tribal, onde a educação das meninas era preterida em prol do casamento, que é tradição. Elas não frequentavam a escola para casar aos 12 anos e trabalhar no campo. Isso negava um futuro digno e contribuía para manter a comunidade em um ciclo de pobreza. Permanecer na aldeia e aprender a língua local foi fundamental para sugerir mudanças progressivas. Houve resistência, basicamente porque atribuíam que o dever das meninas era apenas cozinhar, cuidar da casa e parir. As próprias meninas não tinham confiança e resistiam à ideia de estar na escola. Eu confrontei esse pensamento com a noção de que a comunidade se beneficiaria se elas tivessem uma boa educação. Quando passaram a frequentar as aulas, tornaram-se confiantes e disseram aos pais: “Não vou me casar até os 18 anos”. Hoje temos 100% de participação de alunas, nenhum casamento infantil e os melhores resultados acadêmicos do distrito. Uma das primeiras meninas que ensinei foi para a universidade e se tornou engenheira, algo inimaginável há alguns anos.

Você teria alguma orientação para professores brasileiros de áreas vulneráveis sobre como se aproximar das suas comunidades?

Ranjit: Não impor suas ideias. Mostrar primeiro que você respeita o modo de vida e tradições da comunidade. Isso exige escuta. Descobrir quais são seus problemas e ajudá-los com as soluções mais adequadas. Demonstrar às famílias que é do interesse de todos que seus filhos recebam a melhor educação possível. Mostrar que investir no futuro oferece oportunidades para sair da pobreza. Se uma criança vai para a universidade e consegue um bom emprego, ela contribuirá mais para sua família e comunidade do que se não pudesse estudar e fosse forçada a trabalhar.

Qual foi a importância da tecnologia para personalizar o ensino?

Ranjit: Reestruturei e traduzi os livros didáticos da 1ª à 4ª série e usei a tecnologia para oferecer aprendizado personalizado. Optei pelo QR Code pela acessibilidade e para entregar conteúdos de forma simples. Os alunos digitalizam esse código QR e acessam conteúdo digital selecionado e personalizado para eles. Cada um aprende no seu próprio ritmo. As meninas se beneficiavam caso não fossem à escola para cuidar de irmãos.

Todos os seus alunos tinham dispositivos móveis? Você enfrentou dificuldades com crianças sem celulares para estudar durante a pandemia?

Ranjit: Não, temos uma boa penetração de dispositivos móveis na Índia. Mesmo na comunidade periférica, pobre e rural em que moro e ensino, cada família tem pelo menos um dispositivo móvel. Mesmo que os celulares fossem compartilhados com a família, os alunos os acessariam pelo menos uma vez ao dia. Isso foi fundamental na pandemia.

Veja mais entrevistas com os ganhadores do Global Teacher Prize:

Ganhador de Global Teacher Prize, professor do Quênia usou criatividade contra escassez tecnológica (Peter Tabichi – Quênia/2019)

Ganhadora do Global Teacher Prize 2018 usou arte para melhorar confiança dos alunos (Andria Zafirakou – UK/2018)

“Ao entender sua comunidade, professor torna a aprendizagem relevante”, diz vencedora do Global Teacher Prize (Maggie MacDonnell – Canada/2017)

O que você pode aprender com a melhor professora do mundo? (Hanan Al Hroub – Palestina/2016)

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