Andria Zafirakou é professora de arte e redação na Alperton Community School, localizada no município de Brent, uma das áreas mais pobres do Reino Unido. Lá, mais de um terço das crianças vivem na pobreza e grande parte dos estudantes moram em casas compartilhadas entre várias famílias. Para completar, a violência e a diversidade cultural também são marcas da região.

“Alguns dos alunos também estão expostos às gangues, a região tem a terceira maior taxa de assassinato da grande Londres e é a segunda maior área onde vive a população negra, asiática e outras minorias étnicas. Portanto, havia desafios reais em relação à integração e para que nossos alunos pudessem se concentrar em sua educação”, relata.

Durante o seu trabalho, Zafirakou utilizou a arte para que os alunos ganhassem autoconfiança nas suas escolhas e ajudou a criar um ambiente de proteção na escola. Os bons resultados garantiram a ela o Varkey Foundation Global Teacher Prize 2018, considerado o prêmio Nobel da Educação. Em uma entrevista exclusiva, ela relata as iniciativas que ajudaram a sua escola a se aproximar da comunidade e vencer os desafios postos.

Qual foi o conjunto de medidas idealizado para dar conta desse contexto violento e multicultural da escola?

Andria Zafirakou: Eu me concentrei em fazer da nossa escola um porto seguro para as crianças, de modo que as preocupações fossem deixadas de fora. Alguns dos alunos relatavam que se abrigavam no banheiro de suas casas para ter paz para estudar. Outros faltavam à escola porque tinham que cuidar dos irmãos ou cozinhar para a família em horários determinados, pois moravam em casas coletivas. Assim, providenciamos espaços de estudo no contraturno e no período de férias para que estudantes nesse perfil pudessem estudar.

Como nós tivemos casos de gangues próximas aos portões da escola tentando recrutar nossos alunos, eu passei a andar com eles no ônibus para entender essa mistura de intimidação e tentação, para vê-los em segurança e estabelecer um diálogo com os pais. Outra maneira de abordar isso foi trazer policiais locais, trabalhadores de saúde mental e professores para a escola, na tentativa de discutir com os alunos o tema em uma perspectiva de 360o graus. Eu também aprendi as saudações básicas “olá” e “tchau” em muitas das 35 línguas faladas na minha escola, incluindo Gujarati, Hindi, Tamil e Português, para começar a quebrar as barreiras. Isso também ajuda a estabelecer relações com os pais, muitos dos quais não falam inglês. Por fim, foi necessário redesenhar o cronograma e o currículo para torná-lo relevante para a vida dos nossos alunos.

Como você avalia o desenvolvimento dos estudantes?

Zafirakou: Eles conseguem ver em mim apoio e orientação para resolver problemas e gerenciar as circunstâncias que estão além do currículo acadêmico. Esses alunos aprendem que podem ser vulneráveis e devem procurar apoio, ao mesmo tempo que também se entendem como uma força para suas famílias. Eles aprendem a reconhecer a tremenda iniciativa que têm para buscar soluções, em momento em que seus pais podem se sentir limitados. Essas são habilidades levadas ao longo da vida por alunos que formarão a nossa sociedade futura, ao mesmo tempo que há um forte exemplo do papel que os professores podem desempenhar em uma aprendizagem mais holística.

Como o ensino da arte ajudou nesse contexto?

Zafirakou: O contexto social que os estudantes vivenciam pode levar a uma falta inicial de confiança, que a arte ajuda a enfrentar. Vale lembrar que eles também são adolescentes e trazem questões desse momento de vida para a sala de aula, como o impacto da pressão dos colegas na autoestima, por exemplo. Assim, eu procuro apresentar um artista ou designer para que eles possam se identificar por meio do estilo do seu trabalho. Na sequência, quando se tornam confortáveis, começam a se desenvolver artisticamente. Eles entendem que cometer erros é uma parte fundamental do processo em relação ao produto acabado. Isso os ajuda a compreender o poder e as recompensas em assumir riscos. A arte ajuda a remover barreiras e a se abrir para o ambiente de aprendizado, que será seu refúgio para exploração e desenvolvimento. Por fim, eles usam sua criatividade à medida que exploram e aprendem novas técnicas, assim como quando escolhem os materiais que desejam usar para se expressar.

Quais outras formas de expressão foram desenvolvidas na escola?

Zafirakou: O esporte e a arte, em todas as variedades, são ótimas maneiras de os jovens se esticarem e se expressarem. Eu também ajudei um professor de música a lançar um coral somali na escola e outro a criar um esporte para garotas que não ofendesse as comunidades conservadoras. Isso levou a equipe de críquete das meninas a ganhar a Copa McKenzie, no Reino Unido. O teatro é outro bom exemplo. Ao participar dessas atividades, os alunos aprendem mais sobre si mesmos, melhoram a aptidão física e mental. Eles desenvolvem suas personalidades e toda uma gama de habilidades em torno da autoexpressão, confiança, resiliência, trabalho em equipe e, assim por diante.

Quais os retornos do trabalho desenvolvido?

Zafirakou: Nossa equipe ganhou um campeonato depois que redesenhamos o currículo e passamos a introduzir situações da vida real nas aulas de matemática. Nossa escola agora está no top 5 do país em termos de qualificações. Essa foi uma conquista incrível, considerando os quão baixos eram os pontos de partida dos alunos e a taxa de progresso durante seus cinco a sete anos. Minha escola também ganhou uma condecoração de desenvolvimento profissional do Instituto de Educação (IOE), que foi dada a menos de dez escolas em todo o Reino Unido.

Saiba mais:
“Ao entender sua comunidade, professor torna a aprendizagem mais relevante”, diz vencedora do Global Teacher Prize de 2017
“Deve-se criar ambiente que liberte a imaginação da criança”, recomenda vencedora do Global Teacher Prize de 2016

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