O cinema pode contribuir para ampliar o debate sobre violência de gênero, como aponta a doutora em psicologia Gabriela Perissinotto de Almeida.

“Enquanto expressão artística, o cinema permite que acessemos experiências que transcendem a nossa própria trajetória individual. Essa capacidade de nos transportar para realidades não vividas torna a arte um instrumento de sensibilização”, pondera.

“Além disso, quando assistimos a um filme sobre violência de gênero com a dramatização de situações cotidianas, isso deixa de ser um conceito abstrato”, complementa.

Doutora em antropologia social e professora da Universidade de São Paulo (USP), Ana Lúcia Pastore Schritzmeyer explica que filmes podem ajudar a apresentar outros tipos de violência de gênero para além da física, que geralmente são invisibilizados.

“Incluindo as tidas como mais sutis, porém igualmente terríveis, como ofensas verbais e psicológicas”.

Também são consideradas violência de gênero as de caráter sexual, patrimonial, moral e institucional. Essa última acontece quando o Estado expõe a vítima a novas formas de constrangimento ou descrédito, ao invés de garantir acolhimento e proteção.

“Muitas vezes, é por meio do impacto emocional e estético de uma cena que conseguimos nomear abusos psicológicos que, na rotina, passam despercebidos”, justifica Almeida.

Para ela, o cinema também ajuda a mostrar que a violência não atinge todas as mulheres da mesma forma. “Isso é importante para que o debate não generalize as experiências e reconheça as especificidades das vulnerabilidades enfrentadas por mulheres negras, trans e travestis. Ao dar visibilidade a essas experiências, ajuda na sua compreensão e enfretamento”, enfatiza.

Mudanças na abordagem do tema

Schritzmeyer lembra que há produções antigas sobre o tema que seguem atuais, como o clássico “À meia-luz” (Gaslight), em que um homem manipula a esposa fazendo-a duvidar da própria percepção. O nome do filme deu origem ao termo que especifica esse comportamento: gaslighting.

Já Almeida enxerga mudança nas produções, o que reflete a evolução do debate sobre o tema e mais mulheres nos cargos de direção e produção da indústria audiovisual.

“Hoje, a violência de gênero é tratada mais sob a ótica dos direitos humanos, saindo da esfera meramente privada ou doméstica para ganhar um contorno de denúncia”, analisa.

Porém, há lacunas. “Penso que falta, não só no cinema, mas em geral, enfrentar a fundo os motivos que levam agressores — majoritariamente homens — a violentar vítimas — em sua maioria mulheres. Muito já se produziu sobre o ponto de vista delas, o que é essencial. Mas, sem combater também as raízes dessas violências nos próprios agressores — como valores patriarcais e misóginos —, uma parte fundamental do problema segue desprezada”, contextualiza Schritzmeyer.

“Outra lacuna reside na intersecção com questões raciais e de identidade de gênero. Falta representatividade de mulheres negras e trans no cinema, que raramente estão no papel de protagonistas”, lamenta Almeida.

Já em relação aos cuidados que o público deve ter ao assistir a essas produções, Schritzmeyer adverte que filmes que retratam violências de gênero podem atuar como gatilhos para quem já vivenciou episódios semelhantes. “É importante anunciar os traumas que serão abordados naquela trama, para a espectadora refletir se deseja ou não se expor a eles. Porém, vale também registrar que essas narrativas também podem ter um efeito catártico, contribuindo para a elaboração do trauma”, descreve.

A seguir, conheça sete filmes e séries que ajudam a conscientizar sobre as diferentes formas como a violência de gênero se manifesta.

À Meia-Luz (1944)

Na trama, um homem manipula a esposa para fazê-la duvidar da própria sanidade, alterando pequenos aspectos do ambiente e negando o que ela percebe, enquanto esconde seus verdadeiros interesses.

Bixa Travesty (2018)

Documentário brasileiro que acompanha a vida, a música e a luta política de Linn da Quebrada, cantora e ativista trans negra.

Paloma (2022)

Uma agricultora nordestina, negra, analfabeta e transexual sonha se casar na Igreja com seu companheiro e se prepara para isso. Ao ter o pedido negado por preconceito, ela passa a enfrentar a rejeição e a violência da comunidade rural onde vive, mantendo sua fé apesar das adversidades.

Bom dia, Verônica (2020-2024)

Uma escrivã da Delegacia de Homicídios de São Paulo, marcada por um trauma após presenciar um suicídio, decide usar suas habilidades investigativas para ajudar duas mulheres: uma vítima de golpe virtual e outra presa a um relacionamento abusivo com um policial influente.

“A série retrata diversos tipos de violências contra mulheres, como violência física e sexual, além de evidenciar estratégias de destruição da autoestima feminina e isolamento, que são táticas centrais de agressores para manter a mulher sob controle dentro do ciclo da violência”, destaca Almeida.

Manas (2025)

Uma adolescente da Ilha de Marajó cresce em um ambiente marcado por violências e perdas familiares. Ao amadurecer, passa a questionar esse ciclo e decide enfrentá-lo para tentar mudar o destino das mulheres ao seu redor.

Uma mulher fantástica (2017)

Uma mulher transexual (interpretada pela atriz trans Daniela Veja), que sonha ser cantora, tem sua vida transformada após a morte inesperada do companheiro, enfrentando perdas e desafios que colocam sua identidade e dignidade à prova.

“O filme se destaca por desmistificar estereótipos, apresentando uma relação de afeto e companheirismo entre uma mulher trans e um homem de meia idade. Ao evidenciar o preconceito e a negação da legitimidade desse relacionamento pela família e pela sociedade após a morte do parceiro, o filme se torna um retrato sensível sobre o direito à própria existência”, destaca Almeida.

A cor púrpura (1985)

Uma jovem negra do sul dos Estados Unidos no início do século XX sofre abusos e separações familiares, vivendo sob opressão. Com o apoio de outras mulheres, ela passa a reconhecer seu próprio valor e a buscar autonomia. “Explora a intersecção gênero-raça, uma vez que a protagonista é uma mulher negra enfrentando abuso doméstico e sexual”, assinala Schritzmeyer. “A obra ainda foca na jornada de resiliência da protagonista e na importância dos laços de solidariedade entre mulheres para romper ciclos de opressão”, acrescenta Almeida.

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